John Flanagan

Rangers, Ordem dos Arqueiros 01

Runas de Gorlan





Aclamada pela crtica do mundo todo. Da lista dos livros
mais vendidos do New York Times. Publicada em mais de
14 pases.
       Rangers -- Ordem dos Arqueiros, a srie: uma lei-
tura imperdvel e emocionante do comeo ao fim.
       Durante a vida inteira, o pequeno e frgil Will so-
nhou em ser um forte e bravo guerreiro, como o pai, que
ele nunca conheceu. Por isso, ficou arrasado quando no
conseguiu entrar para a Escola de Guerra.
       A partir da, sua vida tomou um rumo inesperado:
ele se tornou o aprendiz de Halt, o misterioso arqueiro,
que muitos acreditam ter habilidades que s podem ser
resultado de alguma feitiaria. Relutante, Will aprendeu a
usar as armas secretas dos arqueiros: o arco, a flecha, uma
capa manchada e... um pequeno pnei muito teimoso.
       Podem no ser a espada e o cavalo que ele desejava,
mas foi com eles que Will e Halt partiram em uma peri-
gosa misso: impedir o assassinato do rei. Essa ser uma
viagem de descobertas e aventuras fantsticas, na qual Will
aprender que as armas dos arqueiros so muito mais va-
liosas do que ele imaginava.
Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP)
        (Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Flanagan, John
Rangers -- Ordem dos Arqueiros: Runas de Gor-
lan/John Flanagan; [verso brasileira: Editora Fundamen-
to] -- So Paulo, SP: Editora Fundamento Educacional,
2009.
Ttulo original: Ranger's apprentice: the ruins of Gorlan
1. Literatura infanto-juvenil I. Ttulo.
07-7502                                          CDD-028.5

            ndices para catlogo sistemtico:

1. Literatura infanto-juvenil 028.5 2. Literatura juvenil
028.5
Morgarath, senhor das Montanhas da Chuva e da Noite,
ex-baro de Gorlan no Reino de Araluen, observou, talvez
pela milsima vez, o seu domnio rido varrido pela chuva
e amaldioado.
       Aquilo era tudo o que lhe restava no momento:
uma mistura de penhascos irregulares de granito de pedras
arredondadas cadas e de montanhas geladas com desfila-
deiros e gargantas ngremes e estreitas de cascalho e pe-
dras, sem nenhuma planta para quebrar a monotonia.
       Embora j tivessem se passado quinze anos desde
que fora trazido de volta a esse reino proibido que se tor-
nou sua priso, ele ainda se lembrava das clareiras verdes e
agradveis, das colinas cobertas de bosques de seu antigo
feudo, dos crregos cheios de peixes e dos campos com
plantaes e caa abundante. Gorlan tinha sido um lugar
maravilhoso e animado. As Montanhas da Chuva e da
Noite agora estavam mortas e desertas.
       Um peloto de Wargals treinava no ptio do castelo
abaixo dele. Morgarath os observou por alguns segundos e
escutou a cantilena gutural e ritmada que acompanhava
todos os movimentos. Eles eram seres entroncados e de-
formados, com feies meio humanas, mas com focinhos
de bicho e dentes parecidos com os de um urso ou um
cachorro grande.
       Longe do contato humano, os Wargals viveram e se
reproduziram naquelas montanhas remotas desde tempos
antigos. Ningum se lembrava de ter visto um deles, mas
boatos e lendas falavam de uma tribo selvagem de bestas
semi-inteligentes nas montanhas. Morgarath, ao planejar
uma revolta contra o Reino de Araluen, deixou o feudo de
Gorlan para procur-los. Se tais criaturas existissem, elas
lhe dariam uma vantagem na guerra que se aproximava.
       Passaram-se meses, mas ele os encontrou. Alm da
cantilena, os Wargals no usavam palavras para se comu-
nicar e eram seres de pouco crebro. Como resultado, fo-
ram facilmente dominados pela inteligncia e fora de
vontade superiores de Morgarath, que os transformou no
exrcito ideal: mais feios do que um pesadelo, extrema-
mente impiedosos e totalmente escravizados por suas or-
dens mentais.
       Agora, olhando para eles, lembrou-se dos cavaleiros
bem vestidos com armaduras brilhantes que costumavam
competir em torneios no Castelo de Gorlan, enquanto as
damas os estimulavam e aplaudiam suas habilidades u-
sando luvas de seda. Ao compar-los mentalmente com
essas criaturas deformadas e cobertas por plos escuros,
ele praguejou novamente.
        Os Wargals, sintonizados com o pensamento dele,
perceberam a sua perturbao, mexeram-se inquietos e
pararam o que estavam fazendo. Zangado, Morgarath os
fez voltar ao treinamento, e a cantilena recomeou.
        Morgarath se afastou da janela sem vidros e se a-
proximou do fogo, que parecia totalmente incapaz de a-
cabar com a umidade e o frio do castelo sombrio. Quinze
anos tinham se passado desde que se rebelara contra o re-
cm coroado rei Duncan, um jovem de 20 e poucos anos.
Confiando na indeciso e na confuso que dividiriam os
outros bares logo aps a morte do velho rei, Morgarath,
para no perder a oportunidade de se apoderar do trono,
tinha planejado tudo com muito cuidado, enquanto a do-
ena do soberano avanava.
        Secretamente, treinou o exrcito de Wargals e os
reuniu nas montanhas, prontos para atacar no momento
certo. Nos dias de confuso e sofrimento que se seguiram
 morte do rei, quando os bares viajaram at o Castelo de
Araluen para a cerimnia do funeral, deixando os seus e-
xrcitos sem lder, ele tinha atacado e invadido, em ques-
to de dias, a parte sudeste do reino, derrotando as foras
confusas e sem controle que tentaram resistir.
        Duncan, jovem e inexperiente, nunca poderia en-
frent-lo. O reino estava l para ser tomado. O trono era
seu.
        Ento, lorde Northolt, chefe do exrcito do velho
rei, reuniu alguns dos bares mais jovens numa aliana leal
que apoiou Duncan e aumentou a vacilante coragem dos
demais. Os exrcitos se encontraram em Hackham Heath,
perto do Rio Slipsunder, e a batalha ficou equilibrada du-
rante 5 horas, com ataques, contra-ataques e muitas mor-
tes. O Slipsunder era um rio raso, mas seus trechos traio-
eiros de areia movedia e lama macia formavam uma bar-
reira intransponvel que protegia o flanco direito de Mor-
garath.
        Mas ento um daqueles agitadores vestidos com
capas cinzentas, conhecidos como Arqueiros, conduziu
um grupo de cavalaria pesada atravs de uma passagem
secreta, dez quilmetros rio acima. Os cavaleiros, prote-
gidos por armaduras, surgiram num momento crucial da
batalha e atacaram a retaguarda do exrcito de Morgarath.
        Os Wargals, treinados no terreno cheio de rochas
das montanhas, tinham um ponto fraco. Tinham medo de
cavalos e nunca conseguiriam enfrentar a surpresa de um
ataque como aquele. Eles se dividiram, recuaram para a
passagem estreita de Trs Passos e voltaram para as Mon-
tanhas da Chuva e da Noite. Morgarath, diante da rebelio
derrotada, foi com eles. E ali ficou exilado durante esses
quinze anos. Esperando, conspirando, detestando os ho-
mens que tinham sido responsveis por seu destino.
        O momento certo tinha chegado. Mais uma vez, ele
lideraria os Wargals num ataque, mas agora teria aliados.
E, desta vez, primeiro semearia o cho com incerteza e
confuso. Nenhum dos que tinham conspirado contra ele
seria deixado vivo para ajudar o rei Duncan.
       Porque os Wargals no eram as nicas criaturas an-
tigas e aterradoras que tinha encontrado naquelas monta-
nhas sombrias. Ele tinha dois outros aliados ainda mais
assustadores: as temveis bestas conhecidas como Kalka-
ras.
       Chegara o momento de solt-las.
-- Tente comer alguma coisa, Will. Afinal, amanh  um
grande dia.
       Jenny, loira, bonita e alegre, fez um gesto na dire-
o do prato quase intocado de Will e sorriu para ele, en-
corajando-o. Will tentou retribuir o sorriso, mas no con-
seguiu. Ele remexeu o prato que tinha  sua frente, cheio
de suas comidas favoritas. Naquela noite, por causa da
tenso e da expectativa, Will quase no conseguia engolir
uma garfada.
       Ele sabia bem demais que o dia seguinte seria mui-
to especial, o mais importante da sua vida, pois era o Dia
da Escolha, que iria determinar como passaria o resto dos
seus dias.
       -- Acho que  o nervosismo -- disse George, a-
baixando o garfo cheio e ajeitando a lapela do casaco com
ar de quem sabia o que estava falando.
       Ele era um garoto magro, desengonado e estudio-
so, fascinado por regras e regulamentaes e com inclina-
o a examinar e discutir os dois lados de qualquer ques-
to, s vezes durante horas.
        -- O nervosismo  uma coisa assustadora. Ele po-
de deixar voc paralisado e impedi-lo de pensar, comer e
falar.
        -- No estou nervoso -- Will retrucou depressa,
notando que Horace tinha levantado a cabea, pronto pa-
ra deixar escapar um comentrio sarcstico.
        George balanou a cabea vrias vezes, pensando
na declarao de Will.
        -- Por outro lado -- ele acrescentou --, um pouco
de nervosismo pode at melhorar o desempenho. Ele po-
de aumentar as suas percepes e aguar suas reaes. As-
sim, pode-se dizer que o fato de voc estar preocupado, se
 que realmente est, no , necessariamente, algo com
que se preocupar.
        Mesmo sem querer, um sorriso irnico surgiu nos
lbios de Will. George seria um timo advogado. Ele cer-
tamente seria escolhido pelo escriba na manh seguinte.
Talvez esse fosse o problema de Will. Ele era o nico dos
protegidos que tinha receios quanto  Escolha que iria
ocorrer dali a doze horas.
        -- Ele deveria estar nervoso -- Horace zombou.
-- Afinal, que mestre iria quer-lo como aprendiz?
        -- Tenho certeza de que todos estamos nervosos
-- Alyss disse, dirigindo um de seus raros sorrisos para
Will. -- Seria tolice no estar.
        -- Pois bem, eu no estou -- Horace retrucou, co-
rando quando Alyss o olhou com desconfiana e Jenny
riu.
       "Alyss sempre age assim", Will pensou. Ele sabia
que lady Pauline, chefe do Servio Diplomtico do Caste-
lo Redmont, tinha prometido a posio de aprendiz  ga-
rota graciosa e alta. O fato de fingir nervosismo por causa
do dia seguinte e o tato para no chamar ateno para a
gafe de Horace mostravam que ela j tinha algumas habi-
lidades como diplomata.
       Jenny,  claro, iria imediatamente para a cozinha,
domnio de mestre Chubb, cozinheiro chefe. Ele era um
homem famoso em todo o reino pelos banquetes servidos
na imensa sala de jantar do castelo, Jenny adorava cozi-
nhar e tudo o que se referia  comida. Sua natureza calma
e seu inesgotvel bom humor fariam dela um membro va-
lioso para a equipe na agitao das cozinhas do castelo.
       A escolha de Horace seria a Escola de Guerra. Will
olhou para o colega, que atacava avidamente a pilha de
peru assado, presunto e batatas que estava amontoada no
prato. Horace era grande para a idade e um atleta nato. As
chances de ele ser recusado quase no existiam. Horace
era exatamente o tipo de recruta que sir Rodney procurava
para aprendiz de guerra: forte, atltico, em boa forma. "E
no muito inteligente", Will pensou com certa amargura.
A Escola de Guerra era a melhor maneira de se tornar um
cavaleiro para garotos como Horace nascidos no povo,
mas com habilidades fsicas para servir como cavaleiros do
Reino.
       E a sobrava Will. Qual seria a sua escolha? Como
Horace tinha comentado, o mais importante era saber que
mestre de ofcio iria aceit-lo como aprendiz.
       O Dia da Escolha era o momento principal na vida
dos protegidos do castelo. Eles eram rfos educados pela
generosidade do baro Arald, o senhor do feudo Red-
mont. A maioria tinha perdido os pais a servio do feudo,
e o baro assumiu a responsabilidade de cuidar das crian-
as de seus ex-sditos -- e de lhes dar a oportunidade de
melhorar a vida sempre que possvel.
       O Dia da Escolha proporcionava essa chance.
       Todos os anos, os protegidos que completavam 15
anos podiam se candidatar a aprendizes dos mestres de
vrios ofcios que serviam o castelo e seus habitantes. Ge-
ralmente, os aprendizes eram selecionados de acordo com
as ocupaes dos pais ou por influncia dos mestres de
ofcio. Os protegidos do castelo normalmente no possu-
am tal influncia, e aquela era a chance de conquistar um
futuro melhor.
       Os protegidos que no eram escolhidos ou para
quem no havia vagas seriam destinados a fazendeiros na
vila prxima para trabalhar nas plantaes e cuidar dos
animais que alimentavam os habitantes do castelo. Will
sabia que isso raramente acontecia. O baro e seus mes-
tres de ofcio geralmente faziam de tudo para encaixar os
rapazes em alguma profisso. Mas isso talvez no aconte-
cesse, e esse era o destino que ele mais temia.
       Horace o estava observando e lhe lanou um olhar
presunoso.
       -- Voc ainda pensa em se candidatar  Escola de
Guerra, Will? -- ele perguntou com a boca cheia de peru
e batatas. -- Ento  melhor comer alguma coisa. Voc
precisa desenvolver um pouco esses msculos.
       Ele soltou um riso rouco, e Will o olhou irritado.
Algumas semanas antes Horace tinha ouvido Will confi-
denciar a Alyss que queria desesperadamente ser escolhido
para a Escola de Guerra e, desde ento, tinha tornado a
vida dele um inferno, mostrando em todas as ocasies
possveis que o corpo magro de Will era totalmente ina-
dequado para os rigores do treinamento da escola.
       O fato de que Horace provavelmente estava certo
s piorava as coisas. Horace era alto e musculoso, en-
quanto Will era baixo e magro, ele era gil, rpido e sur-
preendentemente forte, mas simplesmente no tinha o
tamanho exigido para os aprendizes de Escola de Guerra.
Apesar de tudo, ele esperou que nos ltimos dias tivesse o
que as pessoas chamavam de "arrancada no crescimento",
antes da chegada do Dia da Escolha. Mas isso no acon-
tecera, e agora o dia estava prximo.
       Como Will no respondeu, Horace percebeu que
tinha marcado um ponto, o que era uma raridade em sua
relao turbulenta. Nos ltimos anos, ele e Will tinham
entrado em choque vrias vezes. Por ser mais forte do que
o colega, Horace normalmente se saa melhor, embora al-
gumas poucas vezes a velocidade e agilidade de Will tives-
sem lhe permitido desferir um chute ou soco surpresa e
ento escapar antes que Horace pudesse alcan-lo.
        Mas, embora Horace geralmente se sasse melhor
nos confrontos fsicos, raramente vencia algum de seus
embates verbais. A mente de Will era to gil quanto o seu
corpo, e ele quase sempre conseguia dar a ltima palavra.
Na verdade, era essa tendncia que muitas vezes causava
problemas entre os dois: Will ainda tinha que aprender
que dar a ltima palavra nem sempre era uma boa idia.
Horace decidiu ento se aproveitar da vantagem ganha.
        -- Voc precisa de msculos para entrar na Escola
de Guerra, Will. Msculos de verdade -- ele afirmou, o-
lhando para os colegas ao redor da mesa para ver se al-
gum discordava.
        Os demais protegidos, pouco  vontade diante da
crescente tenso entre os dois, concentraram-se em seus
pratos.
        -- Principalmente entre as orelhas -- Will retrucou
e, infelizmente, Jenny no conseguiu deixar de rir.
        Horace corou e comeou a levantar da mesa. Mas
Will foi mais rpido e j estava na porta antes que o colega
pudesse se livrar da cadeira e soltar um ltimo insulto.
        -- Isso mesmo! Fuja, Will Sem-nome! Voc e um
sem-nome e ningum vai querer voc como aprendiz!
        Da ante-sala, Will escutou os risos e sentiu o sangue
subir ao rosto. Ele detestava esse tipo de zombaria, mas,
para no dar mais uma arma para Horace, evitava deixar
que o colega percebesse isso.
       A verdade era que ningum sabia o sobrenome de
Will nem sabia quem tinham sido seus pais. Ao contrrio
dos colegas, que tinham vivido no feudo antes da morte
dos pais e cuja histria familiar era conhecida, Will tinha
aparecido ainda recm-nascido, aparentemente do nada.
Ele fora encontrado embrulhado em um pequeno cober-
tor, dentro de um cesto, nas escadas do prdio dos prote-
gidos h quinze anos. Um bilhete estava preso ao cobertor
e dizia apenas:

      A sua me morreu no parto.
      O pai morreu como heri.
      Por favor, cuidem dele. Seu nome  Will.

       Naquele ano, tinha havido somente mais uma pro-
tegida. O pai de Alyss era um tenente da cavalaria que
morreu na batalha de Hackman Heath, quando o exrcito
de Wargals de Morgarath foi derrotado e expulso para as
montanhas. A me de Alyss, arrasada pela dor, morreu
devido a uma febre algumas semanas depois de dar  luz.
Assim, havia bastante espao para a criana desconhecida,
e o baro Arald era, no fundo, um homem generoso.
Mesmo que as circunstncias fossem incomuns, ele tinha
dado permisso para que Will fosse aceito como protegido
no Castelo Redmont. Parecia lgico pressupor que, se o
bilhete era verdadeiro, o pai de Will tinha morrido na
guerra contra Morgarath. Como o baro Arald tinha to-
mado parte importante nessa batalha, sentiu-se no dever
de honrar o sacrifcio do pai desconhecido.
       Assim, Will se tornou um protegido de Redmont e
foi criado e educado devido  generosidade do baro. 
medida que o tempo passou, outros alm de Alyss se jun-
taram a ele, at que havia cinco crianas da mesma idade.
Mas, ao passo que os outros tinham lembranas dos pais
ou, no caso de Alyss, havia pessoas que os tinham conhe-
cido e que podiam falar sobre eles, Will nada sabia de seu
passado.
       Foi por esse motivo que inventou a histria que o
tinha sustentado durante toda a infncia naquela diviso
do castelo. E, quando os anos passaram e acrescentou de-
talhes e cores  histria, at ele comeou a acreditar nela.
       Will sabia que o pai tinha morrido como heri,
portanto tinha sentido criar para ele uma imagem de dolo
-- um guerreiro dentro de uma armadura brilhante que
lutou contra as hordas de Wargals, combatendo-as de to-
das as formas possveis at ser derrotado pelo peso da
maioria. Tinha imaginado a figura alta do pai vrias vezes,
visto cada detalhe da armadura e de suas armas, mas sem
nunca poder ver o seu rosto.
       Como guerreiro, o pai iria querer que ele seguisse
os seus passos. Por esse motivo, a seleo para a Escola
de Guerra era to importante para Will e, quanto mais
improvvel se tornava a sua escolha, mais ele se agarrava 
esperana de que seria selecionado.
        Ele saiu do prdio dos protegidos para a escurido
do ptio do castelo. O sol j tinha sumido fazia tempo e as
tochas colocadas a cada 20 metros nas paredes lanavam
uma luz trmula e irregular. Ele hesitou um momento.
No iria voltar ao edifcio e enfrentar os insultos cont-
nuos de Horace. Fazer isso somente provocaria outra bri-
ga que Will provavelmente perderia. George certamente
tentaria analisar a situao examinando os dois lados da
questo. Will sabia que Alyss e Jenny talvez tentassem
consol-lo -- principalmente Alyss, j que tinham cresci-
do juntos. Mas naquele momento ele no queria a com-
preenso delas e no poderia enfrentar as zombarias de
Horace, portanto se dirigiu para o nico lugar em que po-
deria ficar sozinho.
        A enorme figueira que crescia perto da torre central
do castelo tinha lhe oferecido refgio muitas vezes. Ele
no tinha medo de altura e escalou a rvore com tranqui-
lidade, continuando quando outros teriam parado, at
chegar ao topo em que os galhos balanavam e se dobra-
vam sob o seu peso. No passado, muitas vezes tinha es-
capado de Horace ali. O garoto maior no era to rpido
quanto Will e no estava disposto a segui-lo to alto. Will
encontrou uma forquilha conveniente e instalou-se nela,
deixando o corpo se acostumar ao movimento da rvore
enquanto os galhos balanavam na brisa da noite. L em-
baixo, os vultos diminutos dos vigias cumpriam a sua
ronda no ptio do castelo.
        Ele ouviu a porta do edifcio se abrir e, ao olhar
para baixo, viu Alyss procur-lo, em vo, pelo ptio. A
menina alta hesitou alguns instantes e ento, parecendo
dar de ombros, voltou para dentro. O retngulo de luz
alongado que a porta aberta jogou no ptio desapareceu
quando ela a fechou devagar. "Que estranho, as pessoas
raramente olham para cima", ele pensou.
        Houve um leve bater de penas macias, e uma coruja
pousou num galho prximo, girando a cabea para captar
os ltimos raios da luz fraca com os olhos. Ela estudou o
garoto sem preocupao, parecendo saber que no preci-
sava ter medo dele. Era uma caadora, uma voadora silen-
ciosa, dona da noite.
        "Pelo menos voc sabe quem ", ele disse baixinho
para o pssaro. A coruja virou a cabea outra vez e se jo-
gou na escurido, deixando Will sozinho com seus pen-
samentos.
        Gradativamente, enquanto estava ali sentado, as
luzes do castelo se apagaram, uma a uma. As tochas
queimaram at o fim e foram substitudas  meia-noite na
troca da guarda. Por fim, restou somente a luz do gabinete
do baro, onde o lorde de Redmont ainda trabalhava, re-
vendo relatrios e documentos. O gabinete estava prati-
camente no mesmo nvel que Will, e ele podia ver o vulto
musculoso do baro sentado  mesa. Finalmente, o baro
Arald se levantou, espreguiou-se e se inclinou para a
frente para apagar a lamparina ao sair do aposento e se
dirigir ao quarto de dormir no andar superior. Agora o
castelo estava adormecido, exceto pelos guardas junto das
paredes, que mantinham viglia constante.
       Will se deu conta de que em menos de nove horas
enfrentaria a Escolha. Silenciosamente, sofrendo, temendo
o pior, desceu da rvore e dirigiu-se para a sua cama no
dormitrio escuro dos garotos.
-- Vamos, candidatos! Por aqui! Onde est a animao?
        O orientador, Martin, secretrio do baro Arald,
mais gritava que falava. Quando a sua voz ecoou na an-
te-sala, os cinco protegidos se ergueram hesitantes dos
longos bancos de madeira onde estavam sentados. Repen-
tinamente nervosos agora que o dia tinha finalmente che-
gado, comearam a andar devagar, relutantes em ser o
primeiro a passar pela grande porta de ferro que Martin
abria para eles.
        -- Venham, venham! -- ele convocava impaciente,
quando Alyss finalmente decidiu ser a primeira, como Will
imaginara que faria.
        Os outros acompanharam a graciosa garota loira.
Agora que algum tinha resolvido dar o primeiro passo, os
demais se contentaram em segui-lo.
        Ao entrar no gabinete do baro, Will olhou ao re-
dor curioso. Ele nunca tinha estado naquela parte do cas-
telo antes. Aquela torre, que abrigava o setor administra-
tivo e os aposentos particulares do baro, raramente era
visitada pelos subordinados, como os protegidos do cas-
telo. O aposento era imenso. O teto parecia domin-lo, e
as paredes eram feitas de blocos de pedra macia unidos
apenas por uma fina camada de argamassa. Na parede les-
te, havia uma janela enorme com grossas venezianas de
madeira que podiam ser fechadas em caso de mau tempo.
Will se deu conta de que era a mesma janela que ele tinha
visto na noite passada. Naquele dia, o sol entrava por ela e
caa na grande mesa de carvalho que o baro Arald usava
como escrivaninha.
       -- Agora, venham! Fiquem em fila! Fiquem em fila!
       Martin parecia estar gostando desse momento de
autoridade.
       O grupo andou lentamente para formar fila, e ele os
observou com ar reprovador e a boca retorcida:
       -- Por ordem de tamanho! O mais alto no comeo
-- ele disse, mostrando onde queria que o mais alto ficas-
se.
       Aos poucos, o grupo se organizou. Horace,  claro,
era o mais alto. Depois dele, Alyss tomou sua posio. Em
seguida George, meia cabea mais baixo do que ela e
muito magro. Will e Jenny hesitaram. Jenny sorriu para o
colega e, com um gesto, pediu que tomasse o lugar antes
dela, mesmo que talvez fosse um centmetro mais alta.
Aquela era uma atitude tpica da Jenny. Ela sabia como
Will sofria por ser o menor de todos os protegidos.
Quando ele entrou na fila, a voz de Martin o interrompeu.
       -- Voc, no! A menina primeiro.
       Jenny deu de ombros num pedido de desculpas e
foi para o lugar que Martin havia indicado. Will ficou
sendo o ltimo da fila, desejando que Martin no tivesse
deixado a sua pouca altura to evidente.
       -- Vamos! Animem-se, animem-se! Agora, ateno!
-- Martin continuou, mas parou assim que uma voz grave
o interrompeu.
       -- Acho que no precisamos de tudo isso, Martin.
       Era o baro Arald, que tinha entrado despercebido
por uma pequena porta atrs da mesa enorme. Martin co-
locou-se no que considerava uma posio de sentido, com
os cotovelos magros afastados do corpo, os calcanhares
juntos fazendo suas pernas tortas ficarem bem separadas
na altura dos joelhos e a cabea atirada para trs.
       O baro Arald levantou os olhos para o cu. s
vezes, o zelo do secretrio nessas ocasies era um pouco
exagerado. O baro era um homem grande e musculoso
de ombros largos e cintura avantajada, como era necess-
rio a um cavaleiro. Sabia-se bem, contudo, que o baro
Arald gostava de comer e beber, de modo que o seu ta-
manho no se devia somente aos msculos.
       Ele usava uma barba preta curta e bem aparada
que, assim como os cabelos, comeava a mostrar alguns
fios brancos por causa de seus 42 anos. Seu maxilar era
largo; o nariz, grande e escuro; e os olhos, atentos e cheios
de humor, alojados debaixo de sobrancelhas espessas. O
seu rosto denotava poder, mas tambm bondade. Will j
tinha notado esse detalhe em ocasies em que Arald tinha
feito suas visitas raras aos alojamentos dos protegidos para
ver como iam suas lies e seu desenvolvimento pessoal.
       -- Senhor! -- Martin disse em voz alta, fazendo o
baro estremecer um pouco. -- Os candidatos esto reu-
nidos.
       Arald respondeu com pacincia:
       -- Estou vendo. Que tal pedir aos mestres de of-
cio que se juntem a ns?
       -- Sim, senhor! -- Martin respondeu, tentando ba-
ter os calcanhares.
       Como usava sapatos de couro macio e flexvel, a
tentativa no resultou em nada. Ele marchou em direo 
porta principal do gabinete, com seus cotovelos e joelhos
magros salientes, fazendo Will se lembrar de um galo.
Quando Martin colocou a mo na maaneta, o baro o
chamou mais uma vez.
       -- Martin? -- ele disse suavemente.
       Quando o secretrio se virou e o olhou com curio-
sidade, o baro prosseguiu no mesmo tom calmo.
       -- Pea para virem. Sem gritar. Mestres de ofcio
no gostam disso.
       -- Sim, senhor -- Martin concordou, parecendo
um pouco decepcionado.
       Ele abriu a porta e, com um esforo evidente para
falar baixo, disse:
       -- Mestres de ofcio, o baro est pronto.
       Os chefes da escola de ofcios entraram no apo-
sento sem ordem predeterminada. Como um grupo, eles
se admiravam e respeitavam e raramente participavam de
um procedimento to formal. Sir Rodney, chefe da Escola
de Guerra, entrou primeiro. Alto e de ombros largos co-
mo o baro, estava vestido a carter, com malha de ferro
por baixo de um manto branco adornado com a mesma
figura do escudo: a cabea vermelha de um lobo. Ele tinha
ganho esse escudo quando jovem, lutando no mar da Es-
candinvia contra navios piratas que constantemente sa-
queavam a costa leste do Reino. Usava um cinturo e uma
espada. Nenhum cavaleiro podia ser visto em pblico sem
sua espada. Ele tinha mais ou menos a idade do baro,
olhos azuis e um rosto que seria extremamente bonito no
fosse pelo nariz quebrado.
       Ostentava um bigode imenso, mas, ao contrrio do
baro, no usava barba.
       Em seguida veio Ulf, o mestre da Cavalaria, res-
ponsvel pelo cuidado e treinamento dos fortes cavalos de
batalha do castelo. Tinha olhos castanhos cheios de es-
perteza, braos fortes e musculosos e punhos grossos.
Usava um simples colete de couro sobre uma camisa de l
e calas coladas ao corpo. Altas botas de equitao feitas
de couro macio cobriam os seus joelhos.
       Lady Pauline seguiu-se a Ulf. Magra, elegante e de
cabelos grisalhos, ela tinha sido muito bonita na juventude
e ainda mostrava graa e estilo capazes de virar a cabea
dos homens. Lady Pauline, que tinha conquistado esse t-
tulo por seu trabalho na poltica externa do Reino, era
chefe do Servio Diplomtico em Redmont. O baro A-
rald tinha suas habilidades em alta conta, e ela era uma de
suas mais ntimas conselheiras e confidentes. Arald dizia
com frequncia que meninas eram as melhores recrutas
para o servio diplomtico. Elas costumavam ser mais su-
tis do que os rapazes, que gravitavam naturalmente para a
Escola de Guerra. E, enquanto os garotos quase sempre
usavam a fora fsica para resolver problemas, as meninas
sabiam usar a inteligncia.
        Talvez fosse apenas uma coincidncia que Nigel, o
mestre escriba, acompanhasse lady Pauline de perto. Eles
discutiam assuntos de interesse mtuo enquanto espera-
vam o chamado de Martin. Alm de colegas de profisso,
Nigel e Pauline eram bons amigos. Eram os escribas trei-
nados de Nigel que preparavam os documentos e comu-
nicados oficiais que tantas vezes eram entregues pelos di-
plomatas de Pauline. Ele tambm dava conselhos sobre as
palavras exatas a serem usadas nesses documentos e tinha
profundos conhecimentos em assuntos legais. Nigel era
um homem pequeno e magro, com um rosto inteligente e
curioso que fazia Will se lembrar de um furo. Seus cabe-
los eram pretos e brilhantes, suas feies eram finas, e os
olhos escuros nunca paravam de observar o aposento.
        Mestre Chubb, o cozinheiro chefe, entrou por l-
timo. Como no poderia deixar de ser, ele era um homem
gordo e barrigudo que usava uma jaqueta branca de cozi-
nheiro e um chapu alto. Dizia-se que tinha um gnio ter-
rvel e que podia se inflamar to depressa quanto leo
derramado no fogo, portanto a maioria dos protegidos o
tratava com muito cuidado. Com o rosto corado e cabelos
ruivos que rareavam rapidamente, o mestre Chubb levava
uma colher de pau para onde quer que fosse. Era um
membro extra-oficial da equipe e tambm era usada mui-
tas vezes como arma de ataque, aterrissando com um ba-
rulho forte na cabea dos aprendizes mais descuidados,
esquecidos e lentos. Entre os protegidos, Jennifer era a
nica que via Chubb como um tipo de heri. Ela j tinha
declarado sua inteno de trabalhar para ele e aprender
suas tcnicas, com ou sem colher de pau.
        Naturalmente, havia outros mestres. O armeiro e o
ferreiro eram dois deles, mas somente os mestres de ofcio
que tinham vagas no momento para novos aprendizes se
apresentariam naquele dia.
        -- Os mestres de ofcio esto reunidos, senhor! --
Martin anunciou elevando a voz, como se falar alto desse
mais importncia  ocasio.
        Mais uma vez, o baro levantou os olhos para o
cu.
        -- Como se eu no estivesse vendo -- ele disse em
voz baixa. -- Bom-dia, lady Pauline. Bom-dia, senhores
-- ele acrescentou num tom mais formal.
        Os presentes responderam, e o baro se virou mais
uma vez para Martin.
        -- Ser que podemos comear?
        Martin balanou vrias vezes a cabea, consultou
um mao de notas que segurava nas mos e marchou at a
fileira de candidatos.
       -- Muito bem, o baro est esperando! O baro
est esperando! Quem vai ser o primeiro?
       Will, de olhos baixos, apoiando o peso do corpo
ora num p, ora noutro, nervoso, de repente teve a estra-
nha sensao de que estava sendo observado. Ele olhou
para cima e, com surpresa, encontrou o olhar sombrio e
misterioso de Halt, o arqueiro.
       Will no o tinha visto e imaginou que ele tivesse
usado uma porta lateral para entrar no aposento enquanto
a ateno de todos estava voltada para os mestres de of-
cio. Agora ele estava parado atrs da cadeira do baro, li-
geiramente inclinado para o lado, usando as suas roupas
comuns, cinza e marrons, e coberto por sua longa tnica
verde e cinza de arqueiro. Halt era uma pessoa assustadora
que tinha o hbito de se aproximar quando menos se es-
perava e sem se fazer ouvir. Os moradores supersticiosos
da vila acreditavam que os arqueiros praticavam uma for-
ma de magia que os tornava invisveis s pessoas comuns.
Will no sabia se acreditava nisso. Ele se perguntou por
que Halt estaria ali naquele dia. O homem no era reco-
nhecido como um dos mestres de ofcio e, at onde Will
sabia, nunca tinha participado de uma sesso de Escolha
antes.
       Abruptamente, Halt tirou o olhar de Will, e este
teve a impresso de que a luz tinha se apagado. Ele per-
cebeu que Martin estava falando outra vez. O secretrio
tinha o hbito de repetir as frases como se fosse seguido
pelo prprio eco.
       -- Ento, quem ser o primeiro? Quem ser o pri-
meiro?
       -- Por que no comeamos com o primeiro da fila?
-- o baro sugeriu suspirando, e Martin acenou vrias ve-
zes com a cabea.
       -- Claro, senhor. Claro. O primeiro da fila, d um
passo  frente e se aproxime do baro.
       Depois de um momento de hesitao, Horace se
adiantou e ficou em posio de sentido. O baro o anali-
sou por alguns segundos.
       -- Seu nome? -- ele perguntou, e Horace respon-
deu, sem saber exatamente como se dirigir ao baro.
       -- Horace Altman, senhor... meu senhor.
       -- E voc tem alguma preferncia, Horace? -- o
baro perguntou com ar de quem conhece a resposta an-
tes mesmo de ouvi-la.
       -- Escola de Guerra, senhor! -- Horace respondeu
com firmeza. O baro acenou afirmativamente com a ca-
bea. Era o que imaginava. Ele olhou para Rodney, que,
pensativo, estava analisando o garoto e avaliando suas
qualidades.
       -- Mestre de guerra? -- o baro chamou. Nor-
malmente, ele chamava Rodney pelo primeiro nome, e
no pelo ttulo, mas aquela era uma ocasio formal. O
mesmo se aplicava a Rodney, que, num dia como aquele,
usava a forma "meu senhor".
       O grande cavaleiro deu um passo  frente, fazendo
a malha de ferro e as esporas tinirem levemente enquanto
ele se aproximava de Horace. Olhou o rapaz da cabea
aos ps e ento passou por trs dele. A cabea do garoto
comeou a acompanhar seu movimento.
       -- Quieto -- sir Rodney ordenou, o menino ficou
imvel e olhou direto para a frente.
       -- Parece forte o suficiente, meu senhor, e sempre
posso usar novos alunos -- ele esfregou o queixo com a
mo.
       -- Voc sabe cavalgar, Horace?
       Por um instante, quando percebeu que esse poderia
ser um obstculo para a sua escolha, Horace ficou sem
saber o que dizer.
       -- No, senhor, eu...
       Ele estava para acrescentar que os protegidos do
castelo tinham poucas oportunidades de aprender a ca-
valgar, mas sir Rodney o interrompeu.
       -- No importa, voc pode aprender.
       O grande cavaleiro olhou para o baro e acenou.
       -- Muito bem, meu senhor, vou levar o garoto para
a Escola de Guerra, onde ficar pelo perodo de trs me-
ses de experincia.
       O baro escreveu algo numa folha de papel que se
encontrava diante dele e sorriu levemente para o alegre e
muito aliviado jovem  sua frente.
       -- Parabns, Horace. Apresente-se  Escola de
Guerra amanh cedo, s 8 horas em ponto.
       -- Sim, senhor! -- Horace respondeu com um
largo sorriso. Ele se virou para sir Rodney e fez uma pe-
quena reverncia.
       -- Obrigado, senhor.
       -- No me agradea ainda -- o cavaleiro respon-
deu com ar de mistrio. -- Voc no sabe o que o espera.
-- Quem  o prximo? -- Martin perguntou enquanto
Horace, com um grande sorriso, voltava para a fila.
       Alyss se adiantou com graa, aborrecendo Martin,
que queria indic-la como a prxima candidata.
       -- Alyss Mainwaring, meu senhor -- ela disse com
a voz baixa e uniforme. Ento, antes que lhe perguntas-
sem qualquer coisa, continuou:
       -- Por favor, solicito uma indicao para o Servio
Diplomtico, meu senhor.
       Arald sorriu para a garota de aspecto solene. Ela
tinha um ar de autoconfiana e dignidade que a ajudaria
muito no Servio. Ele olhou para lady Pauline.
       -- Senhora?
       Ela concordou com um gesto de cabea.
       -- J falei com Alyss, meu senhor. Acredito que ela
seja uma excelente candidata. Aprovada e aceita.
       Alyss curvou levemente a cabea na direo da
mulher que seria a sua mentora. Will pensou em como
eram parecidas -- as duas eram altas e tinham movimen-
tos elegantes e maneiras reservadas. Ele sentiu uma leve
onda de prazer por sua colega mais antiga, pois sabia o
quanto ela queria ser escolhida. Alyss voltou para a fila, e
Martin, para no ser passado para trs novamente, j a-
pontava para George.
       -- Muito bem! Voc  o prximo! Voc  o pr-
ximo! Dirija-se ao baro.
       George deu um passo  frente. Sua boca abriu e
fechou varias vezes, mas nenhum som saiu. Os demais
protegidos o observavam surpresos. George, considerado
h muito tempo advogado oficial deles para quase tudo,
estava dominado pelo nervosismo. Finalmente, conseguiu
dizer algo, mas em voz to baixa que ningum na sala o
ouviu. O baro Arald se inclinou para a frente, com a mo
em concha atrs da orelha:
       -- Desculpe, mas no entendi o que falou.
       George olhou para o baro e, com enorme esforo,
falou com voz ainda baixa.
       -- G-George Carter, senhor. Escola de Escribas,
senhor.
       Martin, sempre um defensor da correo, respirou
fundo para repreend-lo por sua fala truncada, mas, antes
que pudesse faz-lo e para alvio evidente de todos, o ba-
ro interferiu.
       -- Tudo bem, Martin. Deixe para l.
       Martin pareceu um pouco ofendido, mas se calou.
O baro olhou para Nigel, o chefe dos escribas e respon-
svel por assuntos legais, que estava com uma sobrancelha
erguida, com ar de interrogao.
       -- Aceitvel, meu senhor -- Nigel declarou. -- J
vi alguns trabalhos de George, e ele realmente tem o dom
da caligrafia.
       -- Ele no impressiona muito como orador, no 
mesmo, mestre? -- o baro comentou em tom de dvida.
-- Isso poder ser um problema se tiver que oferecer a-
conselhamento legal no futuro.
       -- Eu lhe garanto, meu senhor, que com treina-
mento adequado esse tipo de falha no vai representar
problema.
       Entusiasmado com o tema, o mestre escriba juntou
as mos debaixo das mangas largas do hbito, parecido
com o de um monge.
       -- Lembro-me de um garoto parecido com ele que
esteve conosco h muitos anos. Ele tinha o mesmo hbito
de murmurar, mas ns logo lhe mostramos como superar
essa dificuldade. Alguns de nossos oradores mais hesitan-
tes acabaram por ficar muito eloquentes, meu senhor,
muito eloquentes.
       O baro respirou fundo para responder, mas Nigel
continuou seu discurso.
       -- Talvez o senhor fique surpreso em saber que,
quando menino, eu sofria de uma terrvel gagueira nervo-
sa. Absolutamente terrvel, meu senhor. Eu mal conseguia
dizer duas palavras uma aps a outra.
       -- Vejo que isso no  mais problema agora -- o
baro conseguiu comentar secamente, e Nigel sorriu e
curvou-se para o baro.
        -- Exatamente, meu senhor. Ns vamos ajudar
George a superar a sua timidez. Nada como a agitao da
Escola de Escribas. Sem dvida.
        O baro no conseguiu evitar um sorriso. A Escola
de Escribas era um lugar dedicado aos estudos onde ra-
ramente as vozes se erguiam e onde o debate lgico e ra-
cional reinava supremo. Pessoalmente, em suas visitas, ti-
nha considerado o local extremamente montono e no
conseguia imaginar nada menos agitado.
        -- Acredito em voc -- ele retrucou. -- Bem, Ge-
orge, pedido aceito. Apresente-se  Escola de Escribas
amanh.
        George arrastou os ps desajeitado, resmungou al-
gumas palavras, e o baro se inclinou outra vez, franzindo
a testa ao tentar entender o que o rapaz tinha dito.
        -- O que voc disse?
        George finalmente olhou para cima.
        -- Obrigado, meu senhor.
        E ento voltou rapidamente para a fila.
        -- Ah! No foi nada -- o baro disse um tanto
surpreso. -- Agora, o prximo ...
        Jenny j se adiantava. Loira e bonita, ela tambm
era, para falar a verdade, um pouco gordinha. Mas os qui-
los a mais lhe caam bem e, em qualquer reunio social, a
moa era muito solicitada para danar com os garotos,
tanto os colegas dos protegidos, quanto os filhos dos fun-
cionrios do castelo.
        -- Mestre Chubb, senhor! -- ela disse, aproxi-
mando-se da beira da escrivaninha.
        O baro olhou para o rosto redondo da menina, viu
a ansiedade brilhando naqueles olhos azuis e no conse-
guiu evitar sorrir para ela.
        -- O que tem ele? -- o baro perguntou delicada-
mente e a moa hesitou, percebendo que, em seu entusi-
asmo, tinha atropelado o protocolo da Escolha.
        -- Oh! Perdo, senhor... meu... baro... -- ela im-
provisou rapidamente, gaguejando enquanto tentava cor-
rigir o modo de falar.
        -- Meu senhor! -- Martin interrompeu. O baro
Arald olhou para ele surpreso.
        -- Sim, Martin, o que foi?
        Martin ficou constrangido, pois percebeu que seu
mestre estava entendendo mal o propsito de sua inter-
rupo.
        -- Eu... simplesmente queria informar que o nome
da candidata  Jennifer Dalby, senhor -- ele respondeu
em tom de desculpas.
        O baro assentiu, e Martin, um servo dedicado, viu
o olhar de aprovao no rosto de seu patro.
        -- Obrigado, Martin. Agora, Jennifer Dalby...
        -- Jenny, senhor -- informou a garota.
        -- Jenny, ento -- o baro respondeu, dando de
ombros resignado. -- Suponho que voc esteja se candi-
datando para ser aprendiz de mestre Chubb.
       -- Ah, sim, por favor, senhor! -- Jenny respondeu
sem flego, virando os olhos cheios de adorao para o
cozinheiro corpulento e ruivo.
       Chubb a olhou pensativo e de cara feia.
       -- Hum... pode ser, pode ser -- ele balbuciou, an-
dando de um lado a outro na frente dela.
       A garota sorriu para ele simptica, mas Chubb era
imune a esses artifcios femininos.
       -- Vou trabalhar duro, senhor -- ela garantiu com
seriedade.
       -- Sei disso! -- ele retrucou um tanto divertido. --
Eu vou garantir que sim, menina. Ningum fica  toa
conversando na minha cozinha, pode ter certeza.
       Temendo que sua oportunidade pudesse estar es-
corregando por entre os dedos, Jenny usou o seu maior
trunfo.
       -- Eu tenho o corpo ideal para isso -- ela afirmou.
Chubb tinha que concordar que ela era bem nutrida. A-
rald, no pela primeira vez naquela manh, escondeu um
sorriso.
       -- Ela tem razo nesse ponto, Chubb -- ele co-
mentou, e o cozinheiro virou-se para o baro, mostrando
estar de acordo.
       -- O corpo  importante, senhor. Todos os gran-
des cozinheiros costumam ser... um pouco cheios.
       Ele se virou para a moa ainda pensativo. Se os ou-
tros queriam aceitar seus alunos num piscar de olhos era
problema deles, mas cozinhar era uma coisa especial.
        -- Diga-me -- ele pediu  menina ansiosa --, o
que voc faria com uma torta de peru?
        -- Eu iria com-la -- Jenny respondeu imediata-
mente, sorrindo de modo encantador.
        Chubb deu uma pancadinha na cabea dela com a
colher de pau.
        -- Eu estava me referindo ao modo de prepar-la.
        Jenny hesitou, pensou e ento iniciou uma longa
descrio tcnica de como assaria a sua obra-prima. Os
outros quatro protegidos, o baro, os mestres de ofcio e
Martin ouviram tudo com certa admirao, porm sem
entender nada do que ela dizia. Chubb, entretanto, assen-
tiu vrias vezes enquanto ela falava e a interrompeu
quando ela deu detalhes sobre como abrir a massa.
        -- Voc disse nove vezes? -- ele perguntou curio-
so, e Jenny concordou, certa do que dizia:
        -- Minha me sempre dizia: "Oito vezes para dei-
x-la folhada e mais uma vez com um toque de amor."
        Chubb assentiu pensativo.
        -- Interessante. Interessante -- ele comentou, o-
lhando ento para o baro. -- Vou ficar com ela, meu
senhor.
        -- Que surpresa -- o baro retrucou com suavida-
de. -- Muito bem, apresente-se na cozinha pela manh,
Jennifer -- ele acrescentou.
        -- Jenny, senhor -- a menina corrigiu novamente
com um sorriso que iluminou a sala.
       O baro Arald sorriu e observou o pequeno grupo
diante dele.
       -- Ainda temos mais um candidato.
       Ele consultou a lista e ento olhou para Will, que
estava inquieto. O baro lhe fez um gesto de encoraja-
mento.
       Will deu um passo  frente, sentindo o nervosismo
secar sua garganta de repente e fazer que sua voz se
transformasse num mero sussurro.
       -- Will, senhor. O meu nome  Will.
-- Will? Will de qu? -- Martin perguntou exasperado,
examinando as folhas de papel que continham os detalhes
sobre os candidatos. Ele era secretrio do baro h apenas
cinco anos e por isso no conhecia a histria de Will. Per-
cebeu ento que no havia um sobrenome nos documen-
tos do garoto e ficou aborrecido por achar que tinha dei-
xado passar esse erro.
       -- Qual  o seu sobrenome, menino? -- ele per-
guntou com severidade.
       Will olhou para ele hesitante, odiando aquele mo-
mento.
       -- Eu... no tenho... -- ele comeou, mas feliz-
mente o baro intercedeu.
       -- Will  um caso especial, Martin -- ele informou
com calma e com um olhar que ordenava que o secretrio
esquecesse o assunto.
       Em seguida, virou-se para Will com um sorriso en-
corajador.
       -- A que escola quer se candidatar, Will? -- ele
perguntou.
       -- Para a Escola de Guerra, por favor, meu senhor.
-- Will respondeu, tentando parecer confiante em sua
escolha.
       O baro franziu a testa, e Will sentiu as esperanas
desaparecerem.
       -- Escola de Guerra, Will? Voc no acha que ...
um pouco pequeno para isso? -- o baro perguntou com
delicadeza.
       Will mordeu o lbio. Ele tinha se convencido de
que, se desejasse muito, se acreditasse bastante em si
mesmo, seria aceito, mesmo com suas falhas evidentes.
       -- Eu ainda no passei pela "arrancada no cresci-
mento", senhor. -- ele disse desesperado. -- Todos di-
zem isso.
       O baro esfregou a barba com o polegar e o indi-
cador ao analisar o garoto parado diante dele e olhou para
o mestre de guerra.
       -- Rodney? -- ele chamou.
       O alto cavaleiro se adiantou, examinou Will por al-
guns instantes e lentamente balanou a cabea.
       -- Sinto dizer que ele  muito pequeno, meu se-
nhor. -- ele disse. Will sentiu um aperto no corao.
       -- Sou mais forte do que pareo, senhor. -- ele
garantiu.
       Mas o mestre de guerra no se deixou convencer
pela afirmao.
       Ele olhou para o baro, deixando claro que a situa-
o o desagradava, e balanou a cabea.
       -- Alguma outra opo, Will? -- o baro pergun-
tou com gentileza e preocupao.
       Will hesitou por um longo momento. Ele nunca
tinha considerado outra escolha.
       -- Escola de Cavalaria, senhor? -- ele perguntou
finalmente.
       A Escola de Cavalaria treinava e cuidava dos pode-
rosos cavalos de batalha usados pelos cavaleiros do caste-
lo. Will pensou que, pelo menos, seria uma ligao com a
Escola de Guerra. Mas Ulf, o mestre da cavalaria, j estava
balanando a cabea antes mesmo de o baro pedir sua
opinio.
       -- Preciso de aprendizes, meu senhor, mas este 
pequeno demais. Ele nunca vai conseguir controlar um de
meus cavalos. Vo pisote-lo assim que olharem para ele.
       Naquele momento, Will s conseguia enxergar o
baro atravs de uma nvoa esfumaada. Ele lutava de-
sesperadamente para evitar que as lgrimas escorressem
pelo rosto. Ser rejeitado pela Escola de Guerra, perder o
controle e chorar como um beb na frente do baro, dos
mestres de ofcio e de seus colegas seria muito humilhan-
te.
       -- Quais so as suas qualidades, Will? -- o baro
perguntou. Ele ps a cabea para funcionar. No era bom
nas aulas e em lnguas como Alysson, no conseguia for-
mar letras bonitas e perfeitas como George nem se inte-
ressava por culinria como Jenny.
        E, certamente, no tinha os msculos e a fora de
Horace.
        -- Sei escalar muito bem, senhor -- disse final-
mente, percebendo que o baro esperava sua resposta.
        Mas logo se deu conta de que tinha cometido um
erro, pois Chubb, o cozinheiro, olhou para ele zangado.
        -- Ele sabe escalar, sim, senhor. Eu lembro quando
subiu numa calha na minha cozinha e roubou uma bande-
ja de bolinhos que estavam esfriando no peitoril da janela.
        Will ficou desanimado. Aquilo tinha acontecido h
sculos! Ele quis contar que era uma criana na poca e
que tinha sido apenas uma brincadeira infantil. Mas agora
o mestre escriba tambm estava falando.
        -- Na ltima primavera, ele subiu at o nosso ga-
binete no segundo andar e soltou dois coelhos durante um
de nossos debates sobre questes legais. Extremamente
lamentvel.
        -- Coelhos, mestre escriba? -- o baro perguntou,
e Nigel assentiu vigorosamente.
        -- Um casal, meu senhor, se o senhor me entende
-- ele respondeu. -- Extremamente lamentvel!
        Sem que Will visse, a muito sria lady Pauline co-
locou a mo na frente da boca num gesto elegante. Talvez
ela estivesse disfarando um bocejo, mas, quando retirou a
mo, ainda foi possvel entrever o final de um sorriso.
        -- Bem, sim -- comentou o baro. -- Ns todos
sabemos como so os coelhos.
        -- E, como eu disse, era primavera -- Nigel con-
tinuou, caso o baro no tivesse entendido.
        Lady Pauline deixou escapar uma tosse nada femi-
nina. O baro olhou para ela surpreso.
        -- Acho que compreendemos, mestre escriba --
ele disse, voltando a olhar para a figura desesperada  sua
frente.
        Will manteve o queixo erguido e olhava direto para
a frente. O baro sentiu pena do jovem naquele momento.
Ele podia ver as lgrimas se formando nos olhos vivos e
castanhos, presas somente por uma determinao de fer-
ro. "Fora de vontade", pensou. No lhe agradava fazer o
garoto passar por tudo aquilo, mas era assim que tinha
que ser. Ele suspirou silenciosamente.
        -- H algum que possa usar esse garoto? -- ele
perguntou. Contra sua vontade, Will virou a cabea e o-
lhou suplicante para a fila de mestres de ofcio, rezando
para que um deles cedesse e o aceitasse. Um por um, em
silncio, eles sacudiram a cabea negativamente.
        Surpreendentemente, foi o arqueiro quem quebrou
o desagradvel silncio da sala.
        -- H uma coisa que o senhor deve saber sobre
este garoto, meu senhor -- ele disse com uma voz grave e
suave.
        Aquela era a primeira vez que Will o ouvia falar.
Ele se adiantou e entregou uma folha de papel dobrada ao
baro. Arald a abriu, leu as palavras nela escritas e franziu
a testa.
       -- Voc tem certeza disso, Halt?
       -- Absoluta, meu senhor.
       O baro dobrou o papel com cuidado e o colocou
na mesa. Ele tamborilou os dedos no tampo da mesa e
disse:
       -- Vou ter que pensar nisso durante a noite.
       Halt concordou e deu um passo para trs, pare-
cendo desaparecer no fundo. Will o olhou com ansiedade,
perguntando-se que informao a figura misteriosa tinha
passado ao baro. Como a maioria das pessoas, Will tinha
crescido acreditando que era melhor evitar os arqueiros.
Eles faziam parte de um grupo secreto e mstico, envolto
em mistrio e incerteza, o que, por sua vez, levava ao
medo.
       Will no gostou da idia de que Halt sabia algo a
seu respeito -- algo que era importante o bastante para
chamar a ateno do baro naquele dia. A folha de papel
continuava ali, torturantemente perto, no entanto impos-
svel de ser alcanada.
       O garoto percebeu um movimento ao seu redor. O
baro estava falando com outras pessoas na sala.
       -- Felicitaes aos que foram escolhidos hoje. Este
 um grande dia para todos, portanto vocs tm o resto
dele livre. Aproveitem. As cozinhas prepararo um ban-
quete no seu alojamento e durante o resto da tarde vocs
esto livres para visitar o castelo e a vila. Amanh cedo,
apresentem-se aos seus novos mestres de ofcio. E, se
quiserem aceitar um conselho, sejam pontuais -- ele sor-
riu para os quatro e ento se dirigiu para Will com uma
ponta de simpatia na voz.
       -- Will, amanh vou dizer o que decidi a seu res-
peito -- ele se virou para Martin e fez um gesto para que
conduzisse os aprendizes para fora. -- Obrigado a todos
-- ele disse, saindo do aposento pela porta atrs da mesa.
       Os mestres de ofcio deixaram a sala e Martin con-
duziu os protegidos at a sada. Eles conversavam entusi-
asmados, aliviados e satisfeitos por terem sido aceitos pe-
los mestres de sua escolha.
       Will ficou para trs, hesitando diante da folha de
papel ainda na mesa. Ele olhou para ela por um instante
como se pudesse, de alguma forma, enxergar as palavras
escritas do outro lado. Teve a mesma impresso de que
algum o observava, como antes. E ento se defrontou
com os olhos escuros do arqueiro, que tinha ficado atrs
da cadeira de encosto alto do baro, quase invisvel em-
baixo de seu estranho manto.
       Will estremeceu num repentino momento de medo
e saiu apressado da sala.
J tinha passado muito da meia-noite. As tochas trmu-
las ao redor do ptio do castelo, j substitudas uma vez,
estavam enfraquecendo novamente. Will tinha observado
pacientemente o passar das horas, esperando o momento
em que a luz estaria fraca e os guardas estariam bocejando
na ltima hora de seu turno.
       O dia tinha sido um dos piores de que podia se
lembrar. Enquanto os colegas comemoravam, aproveita-
vam o banquete e se divertiam barulhentamente pelo cas-
telo e pela vila, Will tinha se escondido no silncio da flo-
resta a cerca de 1 quilmetro dos muros do castelo. Ali, na
sombra verde e fresca das rvores, ele tinha passado a
tarde refletindo tristemente sobre o que tinha acontecido
na Escolha, sofrendo com o desapontamento e imagi-
nando o que o papel do arqueiro dizia.
        medida que o longo dia se arrastava e as sombras
comeavam a ficar mais compridas nos campos abertos ao
lado da floresta, ele tomou uma deciso.
       Tinha que saber o que estava escrito no papel. E
seria naquela noite.
       Quando escureceu, Will voltou, evitando os mora-
dores da vila e do castelo, e se escondeu nos galhos da
grande figueira novamente. Antes disso, entrou s escon-
didas nas cozinhas e se serviu de po, queijo e mas. Ele
passou as horas mastigando os alimentos quase sem sentir
seu sabor, enquanto o tempo passava e o castelo comea-
va a se preparar para a noite.
       Will observou os movimentos dos guardas e os ho-
rrios das trocas de turno. Alm da tropa da guarda, havia
um sargento de planto na porta da torre que levava aos
aposentos do baro. Mas ele era gordo e estava sonolento,
ento havia pouca chance de que pudesse representar ris-
co. Afinal, Will no tinha a inteno de usar a porta ou a
escada.
       Ao longo dos anos, a sua curiosidade insacivel e a
tendncia para ir a lugares em que no deveria estar ti-
nham desenvolvido nele a habilidade de atravessar espa-
os abertos sem ser visto.
       O vento balanava os galhos mais altos das rvores,
e eles criavam formas agitadas sob a luz da Lua, formas
que agora Will sabia usar muito bem. Instintivamente, ele
combinava seus movimentos com o ritmo das rvores,
misturando-se facilmente s formas criadas pelas sombras
no ptio, tornando-se parte delas e se escondendo nelas.
De certa forma, a falta de uma cobertura concreta facili-
tava um pouco a sua tarefa. O sargento gordo no espe-
rava que algum fosse atravessar o ptio aberto e, assim,
por no esperar ver uma pessoa, no via ningum.
       Sem flego, Will se achatou contra as pedras spe-
ras da parede da torre. O sargento estava a menos de 5
metros de distncia, e Will podia at ouvir a sua respirao
pesada, mas um pilar o escondia do homem. Ele estudou
a parede  sua frente e esticou o pescoo para olhar para
cima. A janela do gabinete do baro ficava bem no alto,
do outro lado da torre. Para chegar at l, teria que escalar
a parede e circund-la at um ponto alm de onde o sar-
gento montava guarda e ento subir novamente at a ja-
nela. Will molhou os lbios nervoso. Ao contrrio das pa-
redes internas lisas da torre, os grandes blocos de pedra
que cobriam a parte de fora tinham grandes espaos entre
eles. Subir no seria problema, e ele teria vrios pontos de
apoio para os ps e as mos em todo o trajeto. Em alguns
lugares, a ao do tempo tinha deixado as pedras lisas, e
ele teria que se mover com cuidado. Mas tinha escalado
todas as outras trs torres no passado e no esperava ter
dificuldades com essa.
       Desta vez, porm, se fosse visto, no poderia alegar
que se tratava de uma brincadeira. Ele estaria escalando
uma parte do castelo em que no tinha o direito de estar
no meio da noite. Afinal, o baro no colocava guardas
para vigiar sua torre por diverso. As pessoas deveriam se
manter afastadas, a menos que fossem convidadas.
       Will esfregou as mos ansioso. Que castigo poderia
receber? J tinha sido excludo na Escolha, ningum o
queria e j estava condenado a viver nos campos. O que
poderia ser pior do que isso?
       Mas havia uma dvida que o perturbava: ele no
tinha certeza absoluta de que estava condenado a essa vi-
da. Uma leve centelha de esperana ainda permanecia a-
cesa. Talvez o baro cedesse. Se Will lhe explicasse sobre
o pai e dissesse o quanto era importante ser aceito na Es-
cola de Guerra, talvez houvesse uma pequena chance de
que seu desejo fosse atendido. E ento, depois de aceito,
poderia mostrar como seu entusiasmo e dedicao fariam
dele um aluno valioso at que se desenvolvesse fisicamen-
te.
       Por outro lado, se fosse apanhado nos prximos
minutos, no sobraria nem essa pequena chance. Ele no
tinha idia do que lhe fariam se fosse pego, mas estava
certo de que no teria nada a ver com sua aceitao na
Escola de Guerra.
       Ele hesitou, pois precisava apenas de mais uma
pequena desculpa para agir. E foi o sargento que a ofere-
ceu. Will escutou o guarda respirar fundo e bater as botas
de encontro s pedras enquanto reunia seu equipamento.
"Ele vai sair para fazer uma de suas rondas", o garoto
pensou. Normalmente, isso significava andar alguns me-
tros ao redor da torre e na entrada e ento voltar  posio
original. A ronda servia mais para mant-lo acordado do
que outra coisa, mas Will percebeu que eles ficariam cara a
cara nos prximos segundos se no fizesse alguma coisa.
       Rpida e facilmente, comeou a escalar a parede.
Ele subiu os primeiros 5 metros em questo de segundos,
com braos e pernas estendidos como uma aranha gigan-
te. Ento, ao ouvir os passos pesados diretamente abaixo
dele, Will ficou paralisado, colado  parede para que ne-
nhum barulho alertasse o guarda.
       De fato, parecia que o sargento tinha ouvido algo.
Ele parou bem embaixo de Will, espiou para dentro da
noite, tentando ver alm das sombras criadas pela Lua e
das rvores que balanavam. Mas, como Will tinha perce-
bido na noite anterior, as pessoas raramente olham para
cima. O sargento, finalmente certo de que no tinha ou-
vido nada importante, continuou a marchar lentamente ao
redor da torre.
       Aquela era a oportunidade de que Will precisava.
Ela tambm lhe permitia passar ao outro lado da torre e
ficar exatamente embaixo da janela que queria. Ele encon-
trou apoio para os ps e as mos com facilidade e se mo-
vimentou quase to depressa quanto se estivesse andando,
a cada instante atingindo um ponto mais alto da parede.
       Em certo momento, cometeu o erro de olhar para
baixo. Apesar de se sentir  vontade em lugares altos, a
sua viso oscilou levemente quando viu at onde tinha
chegado e o quanto as pedras que revestiam o ptio esta-
vam longe. O sargento, que ele conseguia ver outra vez,
era somente uma figura minscula l embaixo. Will esfor-
ou-se para dominar a leve tontura e continuou a escalada,
talvez agora um pouco mais devagar e com mais cuidado
do que antes.
       Will ficou um pouco nervoso quando, ao esticar o
p direito em busca de um novo apoio, o p esquerdo es-
corregou na borda arredondada dos enormes blocos de
pedra e ele ficou pendurado apenas pelas mos, procu-
rando desesperadamente um local para apoiar os ps. Mas
logo em seguida se recuperou e continuou a escalada.
       O garoto foi invadido por uma onda de alvio
quando as mos finalmente chegaram ao peitoril da janela
e ele impulsionou o corpo para cima, pulando para dentro
da sala.
       Como era de se esperar, o gabinete do baro estava
deserto. A Lua jogava a sua luz pela janela imensa.
       E ali, na escrivaninha onde o baro a tinha deixado,
estava a folha de papel que continha a resposta sobre o
futuro de Will. Inquieto, ele olhou ao redor. A enorme
cadeira de encosto alto do baro parecia uma sentinela a-
trs da mesa. Os outros poucos mveis se erguiam escu-
ros e inertes. Em uma das paredes, o retrato de um dos
ancestrais do baro olhava acusador para o menino.
       Ele afastou esses pensamentos cheios de imagina-
o e foi rapidamente at a mesa, os ps se movimentando
em silncio dentro das botas de couro macio. A folha de
papel, muito branca sob a luz da Lua, estava a seu alcance.
"Olhe, leia e v embora", ele disse a si mesmo. Aquilo era
tudo o que tinha a fazer. Will estendeu a mo em sua di-
reo.
       Os seus dedos a tocaram.
       E uma mo disparou do nada, segurando seu pu-
nho.
       Will gritou assustado. Seu corao deu um salto, e
ele se deparou com os olhos frios de Halt, o arqueiro.
       De onde ele tinha vindo? Will tinha certeza de que
no havia mais ningum na sala e no tinha ouvido o ba-
rulho de nenhuma porta se abrindo. Ento ele se lembrou
de como o arqueiro conseguia se envolver no estranho
manto verde-acinzentado e se misturar ao ambiente, es-
condendo-se nas sombras at ficar invisvel.
       No que importasse como Halt tinha conseguido
entrar. O verdadeiro problema era que Will tinha sido a-
panhado ali, no gabinete do baro, e isso significava o fim
de todas as suas esperanas.
       -- Imaginei que voc tentaria alguma coisa desse
tipo -- o arqueiro disse em voz baixa.
       Will, com o corao acelerado por causa do susto,
no disse nada. Baixou a cabea envergonhado e desespe-
rado.
       -- Voc no tem nada a dizer? -- Halt perguntou.
       Ele balanou a cabea negativamente, sem querer
encontrar o olhar sombrio e penetrante do arqueiro. As
palavras seguintes de Halt confirmaram os seus temores
mais profundos.
       -- Bem, vamos ver o que o baro vai achar disso.
       -- Por favor, Halt! No... -- e ento Will parou.
       No havia desculpa para a sua atitude, e o mnimo
que podia fazer era enfrentar o castigo como um homem.
Como um guerreiro. Como o seu pai.
       O arqueiro o analisou por um momento, e Will
imaginou ter visto o que poderia ser um leve brilho de
reconhecimento, mas ento o olhar escureceu outra vez.
       -- O qu? -- Halt perguntou rspido.
       -- Nada -- Will respondeu, balanando a cabea.
       A mo de Halt parecia de ferro quando ele condu-
ziu Will pelo punho para fora da sala at as escadas em
curva que levavam aos aposentos do baro. As sentinelas
que se encontravam no alto dos degraus olharam surpre-
sas ao verem o rosto zangado do arqueiro e o garoto ao
seu lado. A um leve sinal de Halt, afastaram-se e abriram
as portas do apartamento do baro.
       O aposento estava muito bem iluminado e, por um
momento, Will olhou ao redor confuso. Ele estava certo
de que tinha visto as luzes se apagarem enquanto vigiava
na rvore. Ento viu as cortinas grossas na janela e com-
preendeu. Ao contrrio do gabinete de trabalho, com
poucos mveis, o quarto era uma confortvel combinao
de sofs, banquetas, tapearia e poltronas. O baro estava
sentado em uma delas lendo uma pilha de relatrios.
       Ele levantou o olhar da pgina que segurava quan-
do Halt entrou.
       -- Ento voc tinha razo -- o baro comentou, e
Halt assentiu.
       -- Exatamente como eu previ, meu senhor. Atra-
vessou o ptio do castelo como uma sombra, passou pela
sentinela como se ela no existisse e escalou a torre como
uma aranha.
        O baro colocou o relatrio numa mesa de canto e
se inclinou para a frente.
        -- Voc est me dizendo que ele escalou a torre?
-- ele perguntou quase sem acreditar.
        -- Sem cordas nem escadas, meu senhor. Escalou
com a mesma facilidade com que o senhor monta seu ca-
valo pela manh. Com mais facilidade, eu diria -- Halt
completou com um leve sorriso.
        O baro franziu a testa. Ele estava um pouco acima
do peso e, s vezes, precisava de ajuda para montar no
cavalo depois uma noite maldormida. Estava claro que
no tinha achado graa do comentrio de Halt.
        -- Ora, ento -- ele disse, olhando srio para Will
-- esse  um assunto grave.
        Will no disse nada. No sabia se deveria ou no
concordar. Qualquer uma das alternativas apresentava
desvantagens, mas desejou que Halt no tivesse deixado o
baro de mau humor ao lembr-lo de seu excesso de peso.
Isso certamente no facilitaria as coisas.
        -- Ento, o que devemos fazer com voc, meu jo-
vem Will? -- o baro continuou.
        Ele levantou da cadeira e comeou a andar pelo
quarto. Will olhou para ele e tentou avaliar o seu humor.
O rosto forte e barbado nada demonstrava. O baro pa-
rou de andar e deslizou o dedo pela barba pensativo.
        -- Diga-me, meu jovem Will, o que voc faria no
meu lugar? -- ele perguntou sem olhar para o garoto an-
gustiado. -- O que voc faria com um garoto que invade
seu gabinete no meio da noite e tenta roubar um docu-
mento importante?
        -- Eu no estava roubando, meu senhor!
        A frase escapou da boca de Will antes que pudesse
impedir. O baro se virou para ele com uma das sobran-
celhas erguidas, parecendo no acreditar no que ouvia.
        -- Eu s queria... ver o papel, s isso.
        -- Talvez -- o baro replicou ainda com a sobran-
celha levantada. Mas voc no respondeu minha pergunta.
O que faria no meu lugar?
        Will abaixou a cabea outra vez. Ele podia pedir
misericrdia, pedir desculpas ou tentar explicar. Mas ento
endireitou os ombros e tomou uma deciso. Sabia quais
seriam as consequncias de ser apanhado e tinha escolhi-
do correr o risco. No tinha o direito de pedir perdo.
        -- Meu senhor... -- ele comeou hesitante, saben-
do que aquele era um momento decisivo em sua vida.
        O baro olhou para ele, ainda um pouco virado pa-
ra a janela.
        -- Sim? -- ele perguntou e, de algum modo, Will
encontrou foras para continuar.
        -- Meu senhor, no sei o que faria em seu lugar.
Sei que no h desculpas para minha atitude e vou aceitar
qualquer castigo que decidir me dar.
        Enquanto falava, ele ergueu o rosto para olhar nos
olhos do baro. E, ao fazer isso, notou quando o nobre
olhou rapidamente para Halt. Era estranho: esse olhar pa-
recia ser de aprovao e concordncia, mas logo desapa-
receu.
       -- Alguma sugesto, Halt? -- o baro perguntou
num tom cuidadosamente neutro.
       Will olhou para o arqueiro. Como sempre, o rosto
dele estava srio. A barba grisalha e os cabelos curtos fa-
ziam que parecesse ainda mais descontente, mais ameaa-
dor.
       -- Talvez devssemos mostrar o papel que ele es-
tava to ansioso para ver, meu senhor -- ele sugeriu, ti-
rando a folha de dentro da manga.
       O baro permitiu que um sorriso surgisse em seu
rosto.
       -- No  m idia -- concordou. -- Acho que, de
certa forma, ele mostra o seu castigo, no  mesmo?
       Will olhou para os dois homens. Estava aconte-
cendo alguma coisa que ele no entendia. O baro parecia
pensar que o que ele tinha dito era um tanto divertido.
Halt, por outro lado, no estava se divertindo nem um
pouco.
       -- Se essa  a sua opinio, meu senhor... -- ele
respondeu sem demonstrar emoes.
       O baro acenou para ele impaciente.
       -- No fique to srio, Halt! Vamos l, mostre-lhe
o papel.
       O arqueiro atravessou o aposento e entregou a Will
a folha pela qual ele tinha se arriscado tanto. A mo do
garoto tremia ao peg-la. Seu castigo? Mas como o baro
sabia que ele merecia um castigo antes de tudo acontecer?
       Ele se deu conta de que o baro o observava ansi-
oso. Halt, como sempre, parecia uma esttua imperturb-
vel. Will desdobrou a folha de papel e leu o que Halt tinha
escrito nela.

       O garoto Will tem potencial para ser treinado como arquei-
ro. Vou aceit-lo como meu aprendiz.
Will leu as palavras escritas no papel e ficou totalmente
confuso. Sua primeira reao foi de alvio. Ele no seria
condenado a uma vida de trabalho no campo e no seria
punido por ter subido ao gabinete do baro. Ento, a sen-
sao inicial de alvio deu lugar a uma dvida repentina e
terrvel. Alm de mitos e supersties, no sabia nada so-
bre os arqueiros. Ele no sabia nada sobre Halt, alm do
fato de que o homem sombrio vestido de cinza o deixava
nervoso sempre que estava por perto.
        Agora, ao que parecia, estava sendo destinado a
passar todo o tempo com ele e no tinha certeza de que
gostava muito da idia.
        Ele olhou para os dois homens. O baro sorria es-
peranoso, aparentemente achando que Will devia ficar
satisfeito com a idia. Ele no conseguia ver o rosto de
Halt com clareza. O capuz do manto o deixava na som-
bra.
        O sorriso do baro se apagou um pouco, e ele pa-
receu um tanto confuso com a reao de Will  notcia, ou
melhor, com a falta de uma reao visvel.
        -- Bem, o que me diz, Will? -- ele perguntou num
tom encorajador.
        -- Obrigado, baro... meu senhor -- ele disse hesi-
tante, respirando fundo.
        E se a brincadeira que o baro tinha feito antes, so-
bre o bilhete conter o seu castigo, fosse mais sria do que
tinha imaginado? Talvez ser indicado como aprendiz de
Halt fosse o pior castigo que ele pudesse receber. Mas o
baro no dava essa impresso. Parecia muito satisfeito
com a idia, e Will sabia que ele no era um homem cruel.
O baro soltou um leve suspiro de prazer quando se sen-
tou na poltrona, olhou para o arqueiro e fez um gesto na
direo da porta.
        -- Talvez voc possa nos dar alguns minutos a ss,
Halt? Eu gostaria de trocar uma palavrinha com Will em
particular -- ele solicitou. O arqueiro curvou-se srio.
        -- Certamente, meu senhor -- o arqueiro retrucou
com a voz que saa do fundo do capuz.
        Ele passou por Will silenciosamente, como sempre,
saiu da sala e foi at o corredor. A porta se fechou atrs
dele quase sem nenhum barulho e Will estremeceu. Aque-
le homem era sinistro!
        -- Sente-se, Will -- o baro convidou, indicando
uma das poltronas baixas em frente  dele.
        Nervoso, Will sentou-se na beirada do mvel como
que preparado para fugir. O baro notou a linguagem
corporal e suspirou.
       -- Voc no parece muito satisfeito com minha
deciso -- ele falou parecendo decepcionado.
       A reao confundiu Will, pois jamais imaginou que
uma figura poderosa como o baro iria se importar com o
que um simples protegido pensasse de suas decises. Ele
no soube o que responder e, assim, ficou sentado em si-
lncio, at que finalmente o baro continuou.
       -- Voc preferiria trabalhar numa fazenda? --
perguntou.
       Ele no conseguia acreditar que um garoto cheio de
entusiasmo e energia como esse iria querer levar uma vida
montona e tranquila como aquela, mas talvez estivesse
enganado. Will rapidamente mostrou que no era esse o
caso.
       -- No, senhor! -- ele disse depressa.
       -- Bem, ento teria preferido que eu encontrasse
algum castigo pelo que fez? -- o baro retrucou com um
leve gesto interrogativo das mos.
       Will comeou a falar, mas percebeu que suas pala-
vras talvez fossem ofensivas e parou. Com um gesto, o
baro pediu que continuasse.
       --  que... No sei bem se no foi isso o que fez,
senhor -- ele disse.
       Ento, notando a expresso sria no rosto do ba-
ro, se apressou em continuar.
       -- No sei muito sobre os arqueiros, senhor. E as
pessoas dizem...
       Lentamente, ele parou de falar. Era bvio que o
baro tinha grande considerao por Halt, e Will achou
que no seria muito educado revelar que as pessoas co-
muns temiam os arqueiros e pensavam que eles eram fei-
ticeiros. Ele percebeu que o baro acenava com a cabea,
e um olhar de compreenso substituiu a expresso confu-
sa.
       -- Entendo. As pessoas dizem que eles praticam
magia negra, no  mesmo? -- ele comentou e Will assen-
tiu sem mesmo perceber que o fazia.
       -- Diga-me, Will, voc acha Halt uma pessoa as-
sustadora?
       -- No, senhor! -- Will respondeu depressa e en-
to, quando o baro o olhou com firmeza, acrescentou
relutante:
       -- Bem, talvez um pouquinho.
       O baro se recostou na poltrona e juntou os dedos
das mos. Agora que entendia o motivo da relutncia do
garoto, repreendeu-se mentalmente por no ter previsto
essa reao. Afinal, o seu conhecimento sobre o grupo
dos arqueiros era melhor do que se poderia esperar de um
jovem rapaz que tinha acabado de completar 15 anos e
ouvia os comentrios supersticiosos habituais dos empre-
gados do castelo.
       -- Os arqueiros so um grupo de pessoas misteri-
osas -- ele afirmou. -- Mas no h motivo para ter medo
deles, a menos que voc seja inimigo do reino.
       Ele percebeu que o menino prestava muita ateno
s suas palavras e acrescentou em tom de brincadeira:
       -- Voc no  um inimigo do reino, , Will?
       -- No, senhor! -- Will respondeu repentinamente
assustado, e o baro suspirou novamente.
       Ele detestava quando as pessoas no percebiam que
estava brincando. Infelizmente, como senhor do castelo,
as suas palavras eram tratadas com grande seriedade por
quase todas as pessoas.
       -- Est bem, est bem -- ele disse em tom tran-
quilizador. -- Eu sei que voc no . Mas, acredite, pensei
que voc ficaria satisfeito com essa indicao. Um rapaz
aventureiro como voc combina com a vida dos arqueiros
como um pato com a gua.  uma grande oportunidade
para voc, Will.
       Ele fez uma pausa, analisando o rapaz com ateno,
percebendo que ele ainda no estava totalmente conven-
cido.
       -- Voc sabia que poucos rapazes so escolhidos
como aprendizes de arqueiros? A oportunidade no cos-
tuma aparecer sempre.
       Will assentiu ainda hesitante. Ele achou que o seu
sonho de entrar na Escola de Guerra merecia mais uma
tentativa. Afinal, o baro parecia estar num humor fora do
comum naquela madrugada, apesar de Will ter invadido o
seu gabinete.
       -- Eu queria ser um guerreiro, senhor -- ele disse
hesitante, mas o baro sacudiu a cabea imediatamente.
        -- Eu acho que voc tem outros talentos. Halt
percebeu isso assim que o viu. Foi por isso que ele pediu
voc.
        -- Oh!
        Will se surpreendeu. No havia muito mais o que
pudesse dizer. Ele sentiu que deveria ficar tranquilo com
tudo o que o baro tinha dito e, de certo modo, estava.
Mas todos os acontecimentos ainda estavam cercados de
muita incerteza.
        --  que Halt parece to srio o tempo todo.
        -- Ele realmente no  muito divertido -- o baro
concordou e ento, quando Will olhou para ele com um
jeito inexpressivo, resmungou algo.
        Will no tinha certeza do que tinha feito para abor-
rec-lo e achou melhor mudar de assunto.
        -- Mas... o que um arqueiro faz, meu senhor? --
ele perguntou. Mais uma vez, o baro balanou a cabea.
        -- Isso  algo que Halt vai lhe dizer. Eles so um
grupo diferente e no gostam que outras pessoas falem
muito deles. Agora, acho melhor voc voltar ao aloja-
mento e dormir um pouco. Deve se apresentar ao chal de
Halt s 6 horas.
        -- Sim, meu senhor -- Will concordou, levantan-
do-se da posio desconfortvel na beira da poltrona.
        Ele no estava certo de que iria gostar da vida co-
mo aprendiz de arqueiro, mas parecia que no tinha esco-
lha. Curvou-se diante do baro, que respondeu com um
leve aceno, e ento se virou para sair. A voz do baro o
interrompeu.
       -- Will, desta vez use as escadas.
       -- Sim, meu senhor -- ele replicou srio e um
pouco confuso pelo jeito como o baro revirou os olhos
para o cu e resmungou algo novamente.
       Desta vez, Will conseguiu entender algumas pala-
vras. E teve a impresso de que era algo sobre piadas.
       Will saiu pela porta. As sentinelas ainda estavam
posicionadas no alto das escadas, mas Halt tinha ido em-
bora.
       Ou, pelo menos, parecia que sim. Com o arqueiro,
nunca se podia ter certeza.
Parecia estranho deixar o castelo depois de todos aque-
les anos. Will se virou ao p do morro com a pequena
trouxa de pertences jogada por cima do ombro e olhou
para os muros imensos.
        O Castelo Redmont dominava a paisagem. Cons-
trudo no alto de uma pequena colina, voltado para o oes-
te, ele tinha uma estrutura triangular macia e uma torre
em cada um dos trs cantos. No centro, protegido pelos
muros altos, estavam o ptio do castelo e a fortaleza, uma
quarta torre que se elevava acima das outras e que conti-
nha a residncia oficial do baro, seus aposentos particu-
lares e os de seus oficiais superiores. O castelo tinha sido
construdo com minrio de ferro -- uma pedra quase in-
destrutvel -- e, sob o sol fraco da manh ou da tarde,
parecia emitir um brilho interno vermelho. Era essa ca-
racterstica que lhe dava nome: Redmont -- Red Moun-
tain (Montanha Vermelha).
        Ao p da colina e do outro lado do Rio Tarbus es-
tava a vila de Wensley, um grupo confuso e alegre de ca-
sas, uma pousada e as lojas dos artesos -- uma tonelaria,
uma oficina de conserto de rodas, uma ferraria e uma sela-
ria. Parte das terras ao redor tinha sido desmatada para
proporcionar reas de cultivo para os moradores da vila e
evitar que os inimigos pudessem se aproximar sem ser
vistos. Em pocas de perigo, os moradores conduziam
seus rebanhos para o outro lado da ponte de madeira que
cruzava o Tarbus e buscavam abrigo atrs dos muros ma-
cios do castelo, protegidos pelos soldados do baro e
pelos cavaleiros treinados na Escola de Guerra de Red-
mont.
       Escondido no bosque, o chal de Halt ficava a certa
distncia do castelo e da vila. O sol acabava de se levantar
acima das rvores quando Will se aproximou da cabana de
madeira. Uma fina espiral de fumaa saa pela chamin, e
Will calculou que Halt j tinha acordado. Ele subiu na va-
randa que havia num dos lados da casa, hesitou um mo-
mento e ento, respirando fundo, bateu com firmeza na
porta.
       -- Entre -- respondeu uma voz vinda de dentro.
Will abriu a porta e entrou no chal.
       A cabana era pequena, mas surpreendentemente
arrumada e confortvel. Ele se viu na sala principal, uma
combinao de sala de visitas e de jantar que tinha uma
pequena cozinha numa das pontas, separada da rea prin-
cipal por um banco de pinho. Havia poltronas confort-
veis dispostas ao redor da lareira, uma mesa de madeira
bem limpa e potes e panelas to polidos que chegavam a
brilhar. Havia at um vaso com flores silvestres coloridas
no consolo da lareira, e o sol claro da manh entrava ale-
gremente por uma janela grande. Da sala saa um corredor
que levava a dois quartos.
       Halt estava sentado em uma das cadeiras com os
ps pousados na mesa.
       -- Pelo menos voc chegou na hora -- ele res-
mungou. -- J tomou caf?
       -- Sim, senhor -- Will respondeu, olhando fasci-
nado para o arqueiro.
       Aquela era a primeira vez que o via sem o casaco e
o capuz cinza-esverdeado. O arqueiro usava roupas sim-
ples marrons e cinza e botas de couro macio. Ele era mais
velho do que Will tinha imaginado. Os cabelos e a barba
eram curtos e escuros, mas j apresentavam alguns fios
grisalhos. O corte era estranho e parecia ter sido feito pelo
prprio Halt com uma faca de caa.
       O arqueiro se levantou. Ele era surpreendentemen-
te pequeno, algo que Will nunca tinha percebido. O casa-
co cinza escondia muito a seu respeito. Ele era magro e,
na verdade, muito mais baixo do que a mdia, mas trans-
mitia uma sensao de poder e fora que compensava a
sua falta de altura e fazia dele uma figura intimidadora.
       -- Acabou de olhar? -- ele perguntou de repente.
Will deu um salto nervoso.
       -- Sim, senhor. Desculpe, senhor!
       Halt resmungou. Ele apontou para um dos peque-
nos quartos que Will tinha notado quando entrou.
       -- Aquele  o seu quarto. Pode colocar as suas
coisas ali.
       Ele se afastou para o fogo na rea da cozinha, e
Will, hesitante, entrou no quarto que lhe foi mostrado. O
aposento era pequeno, mas, como o restante do chal,
tambm era limpo e de aspecto confortvel. Havia uma
pequena cama encostada a uma das paredes, um guar-
da-roupa e uma mesa rstica com uma jarra e uma bacia.
Will notou que tambm havia um vaso de flores silvestres
recm-colhidas dando um toque de cor ao aposento. Ele
colocou a pequena trouxa de roupas e pertences na cama
e voltou para a sala principal.
       Halt, de costas, ainda estava ocupado no fogo.
Will tossiu para atrair a sua ateno. Halt continuou a
mexer o caf num pote.
       Will tossiu outra vez.
       -- Pegou um resfriado, garoto? -- o arqueiro per-
guntou sem se virar.
       -- Ahn... no, senhor.
       -- Ento por que est tossindo? -- Halt pergun-
tou, virando-se para olhar para ele.
       -- Bem, senhor,  que eu queria perguntar... o que
 mesmo que um arqueiro faz?
       -- Ele no faz perguntas sem sentido, garoto! Ele
fica de olhos e ouvidos abertos, presta ateno e escuta e,
no fim, se no for surdo, aprende alguma coisa!
       -- Ah! Entendi.
        Ele no tinha entendido e, apesar de perceber que
no era o momento certo para fazer mais perguntas, no
conseguiu evitar repetir, numa atitude um pouco rebelde:
        --  que eu fiquei imaginando o que os arqueiros
faziam, s isso.
        Halt percebeu o tom em sua voz e se virou para ele
com um brilho estranho no olhar.
        -- Bom, ento acho melhor eu lhe dizer. Os ar-
queiros, ou melhor, os aprendizes fazem trabalho doms-
tico.
        Will repetiu desajeitado.
        -- Trabalho domstico?
        Halt concordou com um gesto, parecendo muito
satisfeito consigo mesmo.
        -- Isso mesmo. D uma olhada por a -- ele disse
mostrando o interior da cabana. -- Est vendo algum
empregado?
        -- No, senhor -- Will respondeu devagar.
        -- Pois  isso mesmo! Porque este no  um caste-
lo enorme com uma equipe de empregados. Esta  uma
cabana modesta, e precisamos buscar gua, rachar lenha,
varrer o cho e bater os tapetes. E quem voc acha que
vai fazer tudo isso, garoto?
        Will tentou pensar numa resposta diferente da que
parecia bvia.
        -- Seria eu, senhor? -- ele perguntou finalmente.
        -- Acho que sim! -- o arqueiro respondeu, des-
crevendo em seguida uma lista de tarefas rispidamente. --
O balde est aqui; o barril, l fora, do lado da porta; a -
gua, no rio; a enxada, na varanda; a lenha, atrs da cabana.
A vassoura est atrs da porta, e acho que voc consegue
ver onde est o cho.
       -- Sim, senhor -- Will respondeu, comeando a
arregaar as mangas.
       Quando chegou, ele tinha visto o barril de gua
grande o bastante para as necessidades do dia. Calculou
que precisaria de uns 20 baldes menores para ench-lo.
Com um suspiro, percebeu que teria uma manh cheia.
       -- Eu tinha esquecido como  divertido ter um a-
prendiz -- Will ouviu o arqueiro dizer satisfeito enquanto
se servia de uma caneca de caf e se sentava de novo.
       Will no conseguia acreditar que uma cabana to
pequena e aparentemente bem organizada iria exigir tanta
limpeza e trabalho. Depois de encher o barril com 30 bal-
des de gua fresca do rio, ele rachou alguns troncos de
madeira atrs da cabana e guardou a lenha numa pilha
bem-arrumada. Varreu o cho e, quando Halt decidiu que
o tapete da sala devia ser sacudido, ele o enrolou, levou
para fora, pendurou sobre uma corda presa entre duas r-
vores e bateu nele com tanta fora que levantou nuvens
de poeira. De tempos em tempos, Halt olhava pela janela
para anim-lo com comentrios como "voc esqueceu o
lado esquerdo" ou "bata com mais fora, garoto".
       Depois de colocar o tapete no lugar, Halt resolveu
que vrias panelas no brilhavam o bastante.
       -- Vamos ter que esfregar essas panelas um pouco
mais -- ele murmurou quase que para si mesmo.
       Will j tinha entendido que isso queria dizer que era
ele quem ia ter que esfregar as panelas um pouco mais.
Ento, sem dizer nada, levou as panelas para a beira do
rio, colocou gua e areia nelas e esfregou o metal at ele
brilhar.
       Enquanto isso, Halt se sentou numa cadeira de lona
na varanda e leu uma pilha de comunicados oficiais. Will
conseguia ver alguns e notou que vrios exibiam timbres e
brases, mas a maioria tinha somente a marca de uma fo-
lha de carvalho.
       Quando voltou da margem do rio, Will mostrou as
panelas para Halt inspecionar. O arqueiro fez uma careta
para o reflexo distorcido que viu na superfcie brilhante.
       -- Hum, nada mal. Posso ver o meu rosto nelas --
ele disse. -- Talvez isso no seja to bom -- acrescentou
sem sorrir.
       Will no respondeu. Se o comentrio tivesse vindo
de outra pessoa, diria que tinha sido uma piada, mas com
Halt era impossvel saber. O arqueiro o analisou por al-
guns segundos e ento deu de ombros, fazendo um gesto
para que Will guardasse as panelas na cozinha. Will estava
atravessando a porta quando ouviu Halt falar atrs dele.
       -- Hum, isso  esquisito.
       Will parou, achando que Halt estava falando com
ele.
        -- Falou comigo? -- ele perguntou desconfiado.
Sempre que Halt tinha encontrado uma nova tarefa para
ele, tinha comeado a ordem com frases do tipo "que es-
tranho, a sala est cheia de p" ou "acho que o fogo est
precisando urgentemente de mais lenha".
        Esse era um comportamento que Will estava a-
chando bastante irritante, apesar de Halt parecer muito
satisfeito. Desta vez, porm, ele pareceu estar mesmo sur-
preso com algo que tinha lido num dos relatrios com o
timbre da folha de carvalho. E agora olhava espantado
porque Will tinha falado com ele.
        -- O que foi?
        -- Desculpe, pensei que estivesse falando comigo.
        Halt balanou a cabea vrias vezes, ainda com a
testa franzida por causa do relatrio.
        -- No, no -- ele respondeu meio distrado. --
Eu s estava lendo este...
        Ele parou de falar e ficou pensativo. Will, curioso,
esperou.
        -- O que ? -- ele finalmente teve a coragem de
perguntar. Quando o arqueiro virou os olhos escuros para
ele, desejou ter ficado calado.
        -- Est curioso? -- Halt perguntou depois de olhar
para o garoto por alguns instantes. -- Bem, acho que essa
 uma boa oportunidade para um aprendiz. Afinal, foi por
isso que o testamos com aquele papel no escritrio do ba-
ro -- ele disse inesperadamente num tom mais suave.
       -- Vocs me testaram? -- Will colocou a chaleira
de cobre pesada ao lado da porta. -- Vocs esperavam
que eu tentasse descobrir o que estava escrito?
       -- Teramos ficado desapontados se isso no a-
contecesse -- Halt respondeu, levantando a mo para
impedir a srie de perguntas que estava para sair da boca
do rapaz. -- Vamos falar sobre isso depois -- ele acres-
centou, lanando um olhar significativo para a chaleira e
as outras panelas.
       Will se inclinou para peg-las e se virou para a casa
de novo, mas a curiosidade ainda era muito forte.
       -- Ento, o que diz a? -- ele perguntou com um
gesto na direo do relatrio.
       Mais uma vez Halt olhou para ele em silncio como
se o estivesse examinando.
       -- Lorde Northolt morreu. Aparentemente atacado
por um urso na semana passada durante uma caada.
       -- Lorde Northolt? -- Will perguntou.
       O nome parecia conhecido, mas no conseguia se
lembrar de quem era.
       -- O antigo comandante do exrcito do rei -- Halt
informou. Will assentiu como se soubesse disso. E, j que
Halt parecia disposto a responder suas perguntas, ele se
encheu de coragem para continuar.
       -- O que  estranho nesse caso? Afinal, ursos ma-
tam pessoas s vezes.
       --  verdade, mas eu acho que o feudo Cordom
fica muito a oeste para ter ursos. E eu diria que Northolt
era um caador experiente demais para perseguir um urso
sozinho -- ele deu de ombros, como se quisesse afastar o
pensamento. -- Mas, por outro lado, a vida  cheia de
surpresas e as pessoas cometem erros.
       Ele fez outro gesto na direo da cozinha para
mostrar que a conversa tinha chegado ao fim.
       -- Depois de guardar essas panelas, talvez voc
queira limpar a lareira -- ele sugeriu.
       Will obedeceu, mas alguns minutos depois, quando
passou na frente de uma das janelas perto da grande larei-
ra, que ocupava quase toda a parede, olhou para fora e viu
o arqueiro distrado batendo o relatrio no queixo, com o
pensamento muito longe dali.
No final daquela tarde, Halt finalmente ficou sem tarefas
para passar para Will. Ele viu as panelas brilhantes, a la-
reira muito limpa, o cho bem varrido e o tapete sem po-
eira. Ao lado da lareira havia uma pilha de lenha, e outra
pilha enchia um cesto de vime ao lado do fogo.
       -- Hum. Nada mal -- ele elogiou. -- Nada mal
mesmo.
       Uma onda de prazer encheu Will ao ouvir o elogio
moderado.
       -- Sabe cozinhar, garoto? -- Halt perguntou antes
que Will pudesse se sentir muito satisfeito.
       -- Cozinhar, senhor? -- Will perguntou hesitante.
Impaciente, Halt ergueu os olhos para o teto.
       -- Por que os jovens sempre respondem uma per-
gunta com outra pergunta? -- ele quis saber. -- Sim, co-
zinhar. Preparar comida para que se possa comer, fazer
refeies. Acho que voc sabe o que  comida, no ? --
ele acrescentou quando Will no disse nada.
       -- S-sim -- Will respondeu com cuidado.
       -- Bem, como eu disse hoje de manh, este no 
um grande castelo. Se quisermos comer, ns temos que
cozinhar -- ele explicou.
       L estava a palavra "ns" de novo. Sempre que
Halt dizia "ns precisamos", parecia que a frase podia ser
traduzida para "voc precisa".
       -- No sei cozinhar -- Will confessou, e Halt es-
fregou as mos.
       -- Claro que no. A maioria dos garotos no sabe.
Vou ter que lhe ensinar. Venha.
       Ele seguiu na frente para a cozinha e apresentou
Will aos mistrios da culinria: descascar e picar cebolas,
escolher uma pea de carne, limp-la e cort-la em peda-
os iguais, cortar legumes, refogar a carne na panela
quente e finalmente acrescentar uma boa dose de vinho
tinto e alguns dos "ingredientes secretos" de Halt. O re-
sultado foi um cozido cheiroso.
       Enquanto esperavam o jantar ficar pronto, eles se
sentaram na varanda para conversar. Era o comeo da
noite.
       -- O Grupo dos Arqueiros foi criado h mais de
cento e cinquenta anos, durante o reinado do rei Herbert.
Voc sabe alguma coisa sobre ele? -- Halt olhou para o
menino sentado ao seu lado e esperou a resposta.
       Will hesitou. Ele se lembrava vagamente desse no-
me, que ouvia nas aulas de Histria, na ala dos protegidos,
mas tinha se esquecido dos detalhes. Mesmo assim, deci-
diu blefar, pois no queria parecer ignorante no primeiro
dia com o novo mestre.
       -- Ah, sim -- ele disse. -- Rei Herbert. Aprende-
mos sobre ele.
       -- Verdade? -- o arqueiro retrucou animado. --
Talvez voc possa me contar alguma coisa sobre ele --
Halt pediu, cruzando as pernas e ficando  vontade.
       Desesperado, Will tentou se lembrar de pelo menos
algum pequeno detalhe sobre o rei Herbert. Ele tinha feito
alguma coisa... mas o qu?
       -- Ele era... -- Will hesitou, fingindo estar organi-
zando os pensamentos -- ...o rei.
       Disso ele tinha certeza e olhou para Halt para ver
se j podia parar. Halt simplesmente sorriu e fez um gesto
pedindo que continuasse.
       -- Ele era o rei... cento e cinquenta anos atrs --
Will falou, tentando parecer confiante.
       O arqueiro sorriu para ele e pediu que continuasse.
       -- Ahn... bem, acho que foi ele que criou o Grupo
dos Arqueiros -- o garoto prosseguiu esperanoso, e Halt
levantou as sobrancelhas com um olhar zombeteiro.
       --  mesmo? Voc se lembra disso? -- ele disse, e
Will, apavorado, percebeu que seu mestre tinha dito que o
grupo fora criado durante o reinado, e no necessaria-
mente pelo rei.
       -- Ahn, bem, quando eu disse que ele criou os ar-
queiros, quis dizer que ele era o rei nessa poca.
       -- H cento e cinquenta anos?
       -- Isso mesmo.
       -- Puxa, isso  notvel, j que lhe contei isso h
alguns minutos. -- Halt retrucou com o olhar zangado.
       Will concluiu que era melhor no dizer nada.
       -- Menino, se voc no sabe alguma coisa, no
tente fingir que sabe. Simplesmente diga "eu no sei", est
bem? -- Halt falou finalmente.
       -- Sim, Halt -- Will respondeu constrangido. --
Halt? -- ele chamou depois de um curto silncio.
       -- Sim?
       -- Sobre o rei Herbert... Eu no sei nada -- Will
confessou.
       -- Puxa, eu nunca teria adivinhado -- ele disse. --
Mas tenho certeza de que voc vai lembrar quando eu lhe
contar que foi ele que conduziu os cls no norte pela
fronteira at as Terras Altas.
       E, claro, assim que Halt mencionou o fato, Will
lembrou, mas achou que seria m idia dizer isso. O rei
Herbert era conhecido como o Pai da Moderna Araluen.
Ele reuniu os 50 feudos num grupo poderoso para derro-
tar os cls do norte. Will viu uma forma de recuperar um
pouco de prestgio aos olhos de Halt. Se mencionasse o
ttulo de Pai da Moderna Araluen, talvez o arqueiro fos-
se...
       -- s vezes, ele  chamado de Pai da Moderna A-
raluen -- Halt estava contando, e Will percebeu que tinha
esperado demais. -- Ele conseguiu a reunio dos 50 feu-
dos que ainda formam a estrutura que seguimos hoje.
        -- Acho que agora estou lembrando -- Will co-
mentou, tentando criar uma boa impresso.
        Halt olhou para ele com a sobrancelha erguida e
continuou.
        -- Naquela poca, o rei Herbert achou que, para
ficar seguro, o reino precisava de uma fora de inteligncia
eficiente.
        -- Uma fora inteligente? -- Will perguntou.
        -- No, de inteligncia, embora seja til que ela
tambm seja inteligente. Inteligncia  saber o que nossos
inimigos, ou possveis inimigos, esto pretendendo.
Quando se sabe esse tipo de coisa com antecedncia, te-
mos condies de planejar o que fazer para impedi-los.
Foi por esse motivo que ele criou os arqueiros, para serem
os olhos e os ouvidos do reino e mant-lo informado.
        -- E como vocs fazem isso? -- Will perguntou
agora mais interessado.
        Halt notou a mudana de tom, e um rpido brilho
de aprovao passou por seus olhos.
        -- Ns mantemos olhos e ouvidos abertos. Patru-
lhamos o reino e as fronteiras. Escutamos, observamos,
informamos o rei.
        Will assentiu pensativo e perguntou:
        --  por esse motivo que vocs podem se tornar
invisveis?
        Novamente, Halt teve aquele sentimento de apro-
vao e satisfao, mas garantiu que o menino no perce-
besse.
       -- No podemos ficar invisveis. As pessoas apenas
pensam que podemos, pois fazemos de tudo para que no
nos vejam. Para isso precisamos de muitos anos de apren-
dizado e treinamento para que o resultado seja perfeito,
mas voc j tem algumas das habilidades necessrias.
       -- Tenho? -- Will perguntou surpreso.
       -- Quando voc atravessou o ptio do castelo na
noite passada, usou as sombras e o movimento do vento
para se esconder, no foi?
       -- Sim.
       Nunca antes Will tinha encontrado algum que re-
almente entendesse sua capacidade de se mover sem ser
visto.
       -- Ns usamos os mesmos princpios: nos mistu-
ramos ao cenrio, nos escondemos nele, nos tornamos
parte dele -- Halt continuou.
       -- Entendi -- Will disse devagar.
       -- O segredo est em garantir que ningum mais
faa isso.
       Por um momento, Will pensou que o arqueiro es-
tivesse brincando, mas quando olhou para ele viu que es-
tava srio como sempre.
       -- Quantos arqueiros existem?
       Halt e o baro tinham falado mais de uma vez so-
bre o Grupo dos Arqueiros, mas Will s tinha visto um,
que era o prprio Halt.
       -- O rei Herbert criou um grupo de 50, um para
cada feudo. Eu fico aqui. Os meus colegas esto nos ou-
tros 49 castelos em todo o reino. Alm de oferecer o ser-
vio de inteligncia para proteo contra possveis inimi-
gos, os arqueiros ajudam a cumprir a lei. Ns patrulhamos
o feudo e garantimos que as leis sejam obedecidas.
       -- Pensei que o baro Arald fizesse isso -- Will
comentou.
       -- O baro  um juiz. As pessoas levam suas quei-
xas para ele para que ele as resolva. Os arqueiros fazem
que a lei seja cumprida. Ns levamos as leis s pessoas. Se
um crime foi cometido, procuramos provas. Somos as
pessoas ideais para essa tarefa, pois geralmente passamos
despercebidos. Investigamos para descobrir quem  o
responsvel.
       -- E o que acontece depois? -- Will quis saber.
       -- s vezes, comunicamos o que aconteceu ao ba-
ro do feudo e ele manda prender e processar o culpado
-- Halt contou, dando de ombros. -- Outras, se  um
assunto urgente, ns... precisamos cuidar do assunto.
       -- O que fazemos? -- Will perguntou, e Halt o-
lhou para ele demoradamente.
       -- Pouca coisa quando somos aprendizes apenas
h algumas horas -- ele respondeu. -- Os que so ar-
queiros h vinte anos ou mais sabem o que fazer sem
perguntar.
       -- Oh! -- Will murmurou, devidamente colocado
em seu lugar.
       -- Ento, em tempos de guerra, formamos grupos
especiais e orientamos os exrcitos, reconhecemos o ter-
reno. Ficamos atrs das linhas inimigas para causar pro-
blemas para nossos oponentes e assim por diante -- Halt
olhou para o menino. --  um pouco mais emocionante
do que trabalhar numa fazenda.
       Will concordou. Talvez a vida de arqueiro tivesse o
seu lado bom, afinal.
       -- Quem so os inimigos? -- ele quis saber, afinal,
o castelo Redmont sempre tinha estado em paz.
       -- H inimigos internos e externos. Pessoas como
os invasores do mar Escndio ou Morgarath e seus War-
gals.
       Will estremeceu ao se lembrar de algumas histrias
terrveis sobre Morgarath, o senhor das Montanhas da
Chuva e da Noite. Halt balanou a cabea srio quando
viu a reao do garoto.
       --  verdade, Morgarath e seus Wargals so moti-
vos de preocupao.  por isso que os arqueiros ficam de
olho neles. Gostamos de saber se esto se reunindo e se
preparando para uma guerra.
       -- Mas, da ltima vez em que atacaram, os exrci-
tos dos bares fizeram picadinho deles.
       -- Isso  verdade -- Halt concordou. -- Mas s
porque foram avisados do ataque... -- ele fez uma pausa e
olhou para Will de um jeito significativo.
       -- Por um arqueiro? -- o menino perguntou.
       -- Isso mesmo. Foi um arqueiro que informou que
os Wargals de Morgarath estavam a caminho... e ento
guiou a cavalaria por uma passagem secreta para que pu-
desse surpreender o inimigo.
       -- Foi uma vitria sensacional -- Will comentou.
       -- Foi mesmo. E tudo por causa da vigilncia, da
habilidade e do conhecimento dos arqueiros sobre trilhas
ocultas e caminhos secretos.
       -- O meu pai morreu nessa batalha -- Will acres-
centou em voz baixa, e Halt o olhou com curiosidade.
       -- Verdade?
       -- Ele era um heri. Um cavaleiro poderoso --
Will continuou.
       O arqueiro fez uma pausa, como se estivesse deci-
dindo se ia dizer uma coisa.
       -- Eu no sabia disso -- ele simplesmente res-
pondeu.
       Will ficou desapontado, pois por um momento teve
a impresso de que Halt sabia alguma coisa sobre o pai,
que ele poderia lhe contar a histria de sua morte herica.
       -- Era por esse motivo que eu estava com tanta
vontade de ir para a Escola de Guerra -- ele completou
finalmente. -- Para seguir os passos dele.
       -- Voc tem outros talentos -- Halt garantiu, e
Will lembrou que o baro tinha dito quase a mesma coisa
na noite anterior.
       -- Halt... -- ele disse, e o arqueiro fez sinal para
que continuasse. -- Eu estava pensando... o baro disse
que voc me escolheu...
       Halt concordou com a cabea outra vez, mas no
disse nada.
       -- E vocs dois dizem que tenho outras qualidades
que fazem de mim a pessoa certa para ser um arqueiro...
       --  verdade. -- Halt confirmou.
       -- Bom, e quais so essas qualidades?
       Halt reclinou-se para trs e juntou as mos atrs da
cabea.
       -- Voc  gil, isso  bom para um arqueiro -- ele
comeou. -- E, como j comentamos, sabe se movimen-
tar em silncio. Isso  muito importante. Voc  rpido e
curioso...
       -- Curioso? O que voc quer dizer?
       -- Est sempre fazendo perguntas e querendo sa-
ber as respostas. Foi por isso que pedi ao baro para tes-
t-lo com aquela folha de papel.
       -- Mas quando notou minha existncia pela pri-
meira vez? Quer dizer, quando pensou em me escolher?
-- Will quis saber.
       -- Ah, acho que foi quando eu o vi roubar aqueles
bolos da cozinha do mestre Chubb.
       Will olhou para ele surpreso.
       -- Voc me viu? Mas isso foi h sculos! -- e en-
to uma idia lhe ocorreu de repente. -- Onde voc esta-
va?
       -- Na cozinha. Voc estava ocupado demais para
me ver quando entrou.
        Will balanou a cabea pensativo. Ele estava certo
de que no tinha ningum na cozinha, mas ento se lem-
brou de como Halt, envolto na capa, podia ficar quase in-
visvel. Agora ele percebia que a funo de um arqueiro
no era s cozinhar e limpar.
        -- Fiquei impressionado com sua habilidade. Mas
teve uma coisa que me impressionou ainda mais.
        -- E o que foi?
        -- Mais tarde, quando o mestre Chubb o interro-
gou, vi que hesitou. Voc ia negar que tinha pegado os
bolos, mas ento admitiu o roubo. Lembra? E ele bateu na
sua cabea com a colher de pau.
        Will sorriu e coou a cabea pensativo. Ainda con-
seguia ouvir o barulho da colher em sua cabea.
        -- Eu me perguntei se devia ter mentido -- ele
admitiu, e Halt balanou a cabea devagar.
        -- Ah, no, Will. Se voc tivesse mentido, nunca
teria se tornado meu aprendiz.
        Ele se levantou, espreguiou-se e se virou para a
cozinha, onde o cozido fervia no fogo.
        -- Agora vamos comer.
Horace soltou a mochila no cho do dormitrio e se jo-
gou na cama, gemendo aliviado.
        Todos os msculos de seu corpo doam. O garoto
no tinha idia de que podia se sentir to dolorido, to
esgotado, e de que existiam tantos msculos que podiam
ficar daquele jeito. Ele se perguntou, no pela primeira
vez, se conseguiria atravessar os trs anos de treinamento
da Escola de Guerra. Era cadete h menos de uma semana
e j estava se sentindo um trapo.
        Quando se candidatou para a Escola de Guerra,
Horace tinha uma imagem vaga de cavaleiros de armadu-
ras brilhantes lutando, enquanto pessoas comuns olhavam
admiradas. Vrias dessas pessoas eram garotas bonitas;
Jenny, sua companheira no prdio dos protegidos, se des-
tacava entre elas. Para ele, a Escola de Guerra era um lu-
gar de aventuras e magia, e os cadetes que dela participa-
vam eram pessoas que os outros respeitavam e invejavam.
        A realidade era bem diferente. At aquele momen-
to, os cadetes da Escola de Guerra se levantavam antes do
amanhecer e passavam uma hora antes do caf-da-manh
fazendo uma srie de exerccios fsicos: corriam, levanta-
vam peso, carregavam enormes troncos em grupos de dez.
Exaustos depois de tudo isso, voltavam ao alojamento,
onde tomavam um banho rpido com gua fria antes de
deixar os dormitrios e os banheiros totalmente limpos.
Uma inspeo cuidadosa era feita depois disso. Sir Karel,
o velho e esperto cavaleiro que a realizava, conhecia todos
os truques para fazer uma limpeza malfeita, arrumar mal
as camas e guardar roupas sem cuidado. O menor erro por
parte de um dos 20 meninos do dormitrio fazia que to-
das as roupas fossem espalhadas, as camas fossem desfei-
tas e o lixo fosse jogado no cho, eles ento tinham que
fazer tudo de novo no tempo em que deveriam estar to-
mando caf.
       Como resultado, os novos cadetes tentavam enga-
nar sir Karel apenas uma vez. O caf-da-manh no era
nada especial. Na verdade, na opinio de Horace, era o
mnimo que se podia esperar, mas a sua falta significava
uma longa manh at a hora do almoo, que, de acordo
com a vida simples na Escola de Guerra, durava somente
vinte minutos.
       Depois do caf, havia aulas de duas horas sobre
histria militar, teoria de tticas, e assim por diante, e en-
to os cadetes participavam de uma corrida de obstculos:
uma srie de barreiras criadas para testar velocidade, agili-
dade, equilbrio e fora. O percurso deveria ser comple-
tado em menos de cinco minutos, e os cadetes que no
conseguiam tinham que recomear imediatamente. Era
difcil algum conseguir completar o percurso sem cair
pelo menos uma vez. O caminho estava repleto de poas
de lama, perigos e fossos cheios um lquido irreconhecvel
e desagradvel que Horace no queria saber de onde vi-
nha.
        O almoo vinha depois da corrida de obstculos,
mas se algum tinha cado durante a atividade precisava se
lavar antes de entrar no refeitrio, o que significava outro
banho frio -- e gastar metade do tempo destinado para a
refeio. Como resultado, as impresses fortes de Horace
sobre a primeira semana na Escola de Guerra combina-
vam msculos doloridos com fome torturante.
        Depois do almoo, havia mais aulas e exerccios f-
sicos no ptio do castelo sob a vigilncia de um dos cade-
tes mais velhos. Depois, a classe formava fila e realizava
exerccios em grupo at o fim do dia, quando tinha duas
horas livres para limpar e consertar o equipamento e pre-
parar lies para as aulas do dia seguinte.
        Isso,  claro, se ningum tinha causado problemas
durante o dia ou irritado algum instrutor. Nesse caso, to-
dos eram convidados a encher as mochilas com pedras e
partir numa caminhada de 12 quilmetros numa trilha no
campo. Essas caminhadas nunca eram realizadas em es-
tradas planas prximas, mas em terrenos acidentados,
morros e riachos, trechos fechados por arbustos espi-
nhentos que dificultavam a passagem.
        Horace tinha acabado de completar uma dessas
caminhadas. No comeo daquele dia, um dos colegas ti-
nha sido visto passando um bilhete na aula de ttica. Infe-
lizmente, a nota era uma caricatura desrespeitosa do ins-
trutor de nariz comprido. Infelizmente tambm, o garoto
era um desenhista habilidoso e o retrato foi reconhecido
imediatamente.
        Como resultado, Horace e a classe tinham sido
convidados a encher as mochilas e comear a correr.
        Lentamente, ele comeou a se afastar dos outros
garotos enquanto eles subiam a primeira colina com es-
foro. Depois de alguns dias, o regime rgido da Escola de
Guerra estava comeando a mostrar resultados em Hora-
ce. Alm de suas habilidades naturais de atleta, seu prepa-
ro fsico estava melhor do que nunca. Apesar de no per-
ceber, ele corria com equilbrio e elegncia em ocasies
em que os outros mostravam dificuldades. Pouco tempo
depois, Horace j estava bem adiantado e continuava a
subir de cabea erguida, respirando tranquilamente. At
aquele momento no havia tido muitas chances de co-
nhecer os colegas. Ele os tinha visto pelo castelo ou na
vila nos anos passados, mas crescer no prdio dos prote-
gidos o havia isolado da vida diria normal do castelo e da
vila. As crianas da ala dos protegidos sentiam-se diferen-
tes das outras, e os meninos e meninas que ainda tinham
seus pais pensavam da mesma forma.
        A cerimnia da Escolha acontecia somente para os
protegidos. Horace era um dos 20 novos recrutas daquele
ano, e os demais tinham sido escolhidos pelo processo
normal, isto , influncia dos pais, apoio ou recomendao
de professores. Como resultado, ele era considerado uma
curiosidade, e os outros meninos no tinham dado sinais
de amizade nem feito nenhuma tentativa de conhec-lo.
"Mesmo assim", ele pensou sorrindo com uma satisfao
um pouco triste, "venci todos na corrida". Nenhum dos
outros tinha voltado ainda. Tinha mesmo superado todos
eles.
       A porta no fim do dormitrio se abriu com violn-
cia e botas pesadas fizeram barulho no piso de madeira.
Horace apoiou o corpo num cotovelo e gemeu em siln-
cio.
       Bryn, Alda e Jerome marcharam em sua direo
entre as fileiras de camas arrumadas com perfeio. Eles
eram cadetes do 2 ano e pareciam ter decidido que sua
principal funo na vida era atormentar Horace. Depressa,
ele girou as pernas para um dos lados da cama e se levan-
tou, mas no foi rpido o bastante.
       -- O que voc est fazendo deitado na cama? --
Alda gritou. -- Quem disse que  hora de dormir?
       Bryn e Jerome sorriram, pois gostavam do jeito de
falar do colega. Eles no tinham muita imaginao, mas
compensavam a falta de criatividade com uma grande
confiana na sua fora fsica.
       -- Vinte flexes! -- Bryn ordenou. -- Agora!
       Horace hesitou um momento. Ele era bem maior
do que qualquer um dos garotos. Se houvesse um con-
fronto, tinha certeza de que poderia venc-los. Mas eles
eram trs e, alm disso, tinham a autoridade da tradio
que os apoiava. At onde sabia, tratar os cadetes do 1
ano dessa forma era prtica normal, e ele podia imaginar a
zombaria dos colegas se reclamasse para algum superior.
"Ningum gosta de chores", disse a si mesmo enquanto
se abaixava. Mas Bryn percebeu a hesitao e talvez at
um brilho passageiro de revolta em seu olhar.
       -- Trinta flexes! -- ele disparou. -- J!
       Com os msculos doloridos, Horace se esticou no
cho e comeou os exerccios. Imediatamente, sentiu um
p nas costas empurrando-o para baixo quando tentava se
erguer.
       -- Vamos, nen! -- Jerome zombou. -- Um pou-
co mais de fora!
       Horace conseguiu levantar o corpo, pois Jerome
sabia como manter exatamente a quantidade de presso
ideal. Um pouco mais de fora, e Horace nunca seria ca-
paz de completar o exerccio. Mas o cadete do 2 ano
tambm o empurrou para baixo quando Horace ia reinici-
ar, o que tornou o exerccio ainda mais difcil. Ele teve
que fazer fora para o alto ao mesmo tempo em que abai-
xava o corpo, pois do contrrio seria jogado no cho.
Gemendo, terminou a primeira flexo e comeou outra.
       -- Pare de chorar, beb! -- Alda gritou para ele
antes de se aproximar da cama de Horace. -- Voc fez a
cama hoje? -- ele gritou.
       Horace, lutando contra a presso do p de Jerome,
s conseguiu grunhir uma resposta.
        -- O qu? O qu? -- Alda se abaixou e aproximou
o rosto de Horace.
        -- O que voc disse, beb? Fale mais alto!
        -- Sim... senhor! -- Horace conseguiu sussurrar.
Alda balanou a cabea de um jeito exagerado.
        -- Acho que a resposta  "no, senhor" -- ele dis-
se, levantando-se.
        -- Olhe s essa cama! Est uma porcaria!
         claro que as cobertas estavam um pouco amas-
sadas onde Horace tinha se deitado, mas ele poderia ar-
rum-la num instante. Sorrindo, Bryn resolveu deixar o
plano de Alda mais interessante. Ele se aproximou e chu-
tou a cama para o lado, derrubando o colcho, os cober-
tores e o travesseiro no cho. Alda ajudou, chutando as
cobertas pelo quarto.
        -- Faa a cama de novo! -- ele gritou.
        Nesse momento, surgiu um brilho em seus olhos.
Ele se virou para a cama seguinte, chutou-a tambm e es-
palhou o colcho e os lenis como tinha feito com a de
Horace.
        -- Faa tudo de novo! -- ele berrou satisfeito com
sua idia. Bryn se juntou a ele, rindo enquanto os dois re-
viravam as 20 camas e espalhavam cobertores e travessei-
ros pelo quarto. Horace, ainda lutando para fazer as 30
flexes, fechou os dentes com fora enquanto o suor es-
corria para os seus olhos, fazendo-os arder e embara-
lhando sua viso.
       -- Est chorando, beb? -- ele escutou Jerome
perguntar. -- V para casa chorar no colo da mame!
       O garoto empurrava as costas de Horace com for-
a, fazendo-o se esparramar no cho.
       -- O beb no tem me -- Alda disse. -- O beb 
um protegido. A mame fugiu com um marinheiro.
       --  verdade, beb? A mame fugiu e abandonou
voc? -- Jerome se abaixou e perguntou.
       -- A minha me morreu! -- Horace respondeu ir-
ritado. Zangado, comeou a se levantar, mas o p de Je-
rome estava em seu pescoo e empurrou seu rosto em di-
reo ao cho de madeira. Horace desistiu de levantar.
       -- Que coisa triste -- Alda comentou, fazendo os
dois amigos rirem. -- Agora arrume essa baguna, bebe-
zo, ou vamos fazer voc refazer a corrida.
       Horace ficou deitado exausto. Os trs garotos mais
velhos saram do quarto chutando bas e espalhando os
pertences dos colegas no cho. Ele fechou os olhos
quando o suor salgado os fez arder de novo.
       -- Detesto este lugar -- ele resmungou com a voz
abafada pelas tbuas speras do cho.
-- Est na hora de voc conhecer as armas de que vai
precisar -- Halt informou.
       Eles tinham tomado o caf-da-manh muito antes
do nascer do sol, e Will acompanhou Halt at a floresta.
Andaram por mais ou menos meia hora, e Halt aproveitou
para mostrar a Will como deslizar de uma sombra at ou-
tra fazendo o menor barulho possvel. Will era um bom
aluno na arte de se mover sem ser visto, como Halt j ti-
nha observado, mas tinha muito a aprender at reunir to-
das as habilidades de um arqueiro. Mesmo assim, Halt es-
tava satisfeito com o progresso do garoto, que tinha von-
tade de aprender, especialmente quando se tratava de au-
las em campo como aquelas.
       O assunto era um pouco diferente quando se trata-
va de tarefas menos interessantes, como leitura de mapas
e desenho de grficos, pois Will costumava passar por ci-
ma de detalhes que considerava sem importncia.
       -- Voc daria mais importncia a essas habilidades
se estivesse planejando o caminho a ser seguido por um
exrcito e se esquecesse de falar da existncia de um cr-
rego no trajeto. -- Halt comentou com seriedade.
        Eles pararam numa clareira e Halt deixou cair no
cho uma pequena sacola que estava escondida debaixo de
sua capa.
        Will olhou a bolsa desconfiado. Quando falaram
em armas, o garoto pensou em espadas e lanas, as armas
usadas pelos cavaleiros. Aquele pequeno pacote no tinha
nada a ver com o que ele imaginara.
        -- Que tipos de armas ns usamos? Espadas? --
Will perguntou com os olhos grudados na sacola.
        -- As principais armas de um arqueiro so o se-
gredo, o silncio e a habilidade de agir sem ser visto. Mas,
se elas falharem, talvez voc tenha que lutar.
        -- E ento usamos uma espada? -- Will perguntou
esperanoso. Halt se ajoelhou e abriu a trouxa.
        -- No, ns usamos um arco -- ele disse, colo-
cando o objeto aos ps do menino.
        A primeira reao de Will foi de desapontamento.
As pessoas usavam arcos para caar. Todo mundo tinha
um arco. Era mais um instrumento do que uma arma.
Quando criana, ele mesmo construra vrios curvando
galhos de rvore verdes. Ento, como Halt no disse nada,
ele olhou o objeto com mais ateno. Aquele no era um
galho curvado.
        A arma era diferente de tudo o que Will j tinha
visto. Quase todo o arco formava uma curva comprida,
como todos os outros, mas suas pontas eram viradas na
direo contrria. Will, como a maioria das pessoas do
reino, estava acostumado aos arcos normais, que se cur-
vavam numa linha contnua, mas esse era bem mais curto.
       -- Ele se chama arco recurvo -- Halt informou,
percebendo a curiosidade do garoto. -- Voc ainda no
tem fora suficiente para lidar com um arco comum, por-
tanto este vai lhe dar a velocidade e o impulso necessrios.
Aprendi a faz-los com os temujais.
       -- Quem so os temujais? -- Will quis saber, des-
viando o olhar do arco estranho.
       -- So guerreiros corajosos do leste e tambm os
melhores arqueiros do mundo -- Halt contou.
       -- Voc lutou contra eles?
       -- Contra... e com eles durante algum tempo --
Halt disse. -- E pare de fazer tantas perguntas.
       Outra vez, Will olhou para o arco, que estava na
sua mo. Agora que estava se acostumando com seu for-
mato diferente, viu que era uma arma muito bem-feita.
Muitas tiras de madeira de grossuras diferentes tinham si-
do coladas umas s outras, e seus veios corriam em vrias
direes. Era isso que formava a curva dupla do arco,
como se diferentes foras empurrassem uma s outras,
dando aos pedaos do objeto uma forma cuidadosamente
planejada. Talvez aquela fosse mesmo uma arma, afinal.
       -- Posso us-lo?
       -- Se voc acha que  uma boa idia -- Halt con-
cordou com um gesto de cabea.
       Will escolheu uma flecha do estojo que tambm ti-
nha estado na sacola e a ajustou  corda. Ele puxou a fle-
cha para trs com o polegar e o indicador, mirou o tronco
de uma rvore a uns 20 metros de distncia e atirou.
       A corda pesada do arco bateu na carne macia do
lado de dentro de seu brao como um chicote. Will gritou
de dor e largou a arma como se estivesse pegando fogo.
       Uma marca grossa, vermelha e dolorida estava se
formando na pele. Will no tinha idia de onde o arco ti-
nha ido parar, mas nem se importou com isso.
       -- Que dor! -- ele disse, olhando para o arqueiro
de um jeito acusador.
       -- Voc  sempre muito apressado, rapaz -- Halt
comentou, sacudindo os ombros. -- Talvez assim apren-
da a esperar um pouco na prxima vez.
       Ele se abaixou, tirou da sacola um punho comprido
de couro duro e o colocou no brao esquerdo de Will para
proteg-lo da corda do arco. Chateado, o menino perce-
beu que Halt estava usando um punho parecido. Mais
chateado ainda, lembrou que o tinha visto antes, mas no
se perguntou para que servia.
       -- Agora, tente outra vez -- Halt sugeriu.
       Will escolheu outra flecha e a colocou na corda,
mas, quando a puxou para trs, Halt o fez parar.
       -- No com o polegar -- Halt ensinou. -- Deixe
que a flecha fique apoiada entre o primeiro e o segundo
dedos na corda... assim.
       Ele mostrou a Will como o entalhe no fim do arco
prendia a corda e mantinha a flecha no lugar. Depois Halt
demonstrou como fazer que a corda se apoiasse nas juntas
dos trs primeiros dedos e finalmente como soltar a corda
para que a flecha disparasse.
       -- Assim est melhor -- ele disse. -- Tente usar os
msculos das costas, e no s os seus braos. Procure
deixar suas omoplatas juntas... -- Halt ensinou quando
Will puxou a flecha para trs.
       Will fez como Halt sugeriu e teve a impresso de
que o arco ficou mais leve e de que podia segur-lo com
mais firmeza. Ele soltou a flecha de novo, mas no con-
seguiu acertar o tronco da rvore que tinha escolhido co-
mo pontaria.
       -- Voc precisa praticar -- Halt disse. -- Solte o
arco por enquanto.
       Com cuidado, Will colocou o arco no cho. Ele es-
tava ansioso para ver o que Halt iria tirar da sacola em se-
guida.
       -- Estas so as facas usadas pelos arqueiros --
Halt lhe entregou um estojo duplo igual ao que ele carre-
gava do lado esquerdo do cinto.
       Will o pegou e o examinou. As facas estavam colo-
cadas uma em cima da outra. A primeira era pequena, com
um cabo grosso e pesado feito de uma srie de discos de
couro colados um no outro. Havia uma cruzeta de bronze
entre o punho e a lmina e um boto na ponta que com-
binava com ela.
       -- Tire a faca do estojo com cuidado -- Halt pe-
diu.
       Will tirou a faca curta da bainha e notou que ela ti-
nha um formato diferente. Era estreita no cabo, alarga-
va-se no meio e tornava a se afinar na ponta extremamen-
te afiada. O garoto olhou para Halt curioso.
       -- Foi feita para ser atirada. A largura dela com-
pensa o peso do cabo, e a combinao do peso dos dois
ajuda a faz-la chegar aonde voc quer quando atirada.
Olhe.
       A mo de Halt se moveu com suavidade e rapidez
para a faca de lmina larga que carregava na cintura. Ele a
tirou da bainha e, com um movimento leve, atirou-a numa
rvore prxima.
       A faca bateu no tronco com um barulho forte. Will
olhou para o arqueiro, impressionado com sua habilidade
e velocidade.
       -- Como voc aprendeu a fazer isso? -- ele per-
guntou.
       -- Prtica -- Halt respondeu, fazendo um gesto
para que Will examinasse a outra faca.
       A segunda faca era mais comprida. O cabo era feito
com os mesmos discos de couro e tinha uma cruzeta curta
e firme. A lmina era pesada e reta, muito afiada num dos
lados, grossa e pesada no outro.
       -- Essa  para o caso em que o inimigo chega
muito perto -- Halt explicou. -- Mas, se voc for um ar-
queiro, isso nunca vai acontecer. Ela serve para ser atirada,
mas essa lmina tambm pode bloquear o ataque de uma
espada. Foi feita pelos melhores ferreiros do reino. Cuide
dela e a mantenha afiada.
        -- Est bem -- o aprendiz concordou, admirando
a faca que tinha nas mos.
        -- Ela  parecida com uma faca usada pelos escan-
dinavos -- Halt informou. -- Serve como faca e ferra-
menta. Repare que a qualidade do ao da nossa faca 
muito superior ao ao deles.
        Will examinou a faca com mais ateno, percebeu a
cor azulada da lmina e sentiu o seu equilbrio perfeito. O
cabo de couro e bronze dava a ela uma aparncia simples
e til, mas era uma arma excelente e muito superior s es-
padas grosseiras usadas pelos guerreiros do castelo Red-
mont.
        Halt mostrou a Will como prender a bainha dupla
em seu cinto para que conseguisse pegar as facas com fa-
cilidade.
        -- Agora tudo o que voc precisa fazer  aprender
a usar as facas. E voc sabe o que isso significa, no sabe?
        Will sacudiu a cabea sorrindo.
        -- Muita prtica -- ele respondeu.
Sir Rodney inclinou-se na cerca de madeira que rodeava
a rea de treinamento enquanto observava os novos cade-
tes da Escola de Guerra, que faziam exerccios com armas.
Pensativo, ele esfregou o queixo, olhando com ateno os
novos 20 recrutas, mas sempre voltando para um em es-
pecial -- o garoto alto de ombros largos da ala dos prote-
gidos que tinha selecionado no Dia da Escolha. Ele pen-
sou um instante, tentando se lembrar do nome do garoto.
       Horace, era isso.
       O exerccio era comum. Cada garoto, usando uma
malha de ferro, um capacete e carregando um escudo, fi-
cava em frente a um poste de madeira acolchoado da al-
tura de um homem. Sir Rodney achava que s fazia senti-
do praticar o uso da espada quando se estava usando todo
o equipamento pesado, como acontecia numa guerra. Ele
achava melhor que os meninos se acostumassem s limi-
taes da armadura e do peso do equipamento desde o
comeo.
       Alm do escudo, do capacete e da malha, cada ga-
roto tambm tinha uma espada para exerccios fabricada
pelo armeiro. Essas espadas eram feitas de madeira e, fora
o cabo de couro e a cruzeta, se pareciam pouco com uma
espada real. Na verdade, eram bastes compridos feitos de
nogueira forte. Mas o peso era muito parecido com o das
lminas de ao estreitas, e os cabos eram construdos para
se aproximar do peso e do equilbrio de uma espada de
verdade.
        No final, os recrutas iriam passar a exerccios com
espadas de verdade, mas sem ponta e sem corte. Porm
esse momento ainda demoraria alguns meses para chegar
e, nessa etapa, os recrutas menos capazes j teriam sido
eliminados. Era perfeitamente normal que pelo menos um
tero dos alunos da Escola de Guerra abandonasse os
duros treinamentos nos primeiros trs meses. s vezes,
era o garoto que decidia. Outras, era o instrutor ou, em
casos extremos, o prprio sir Rodney. A Escola de Guerra
era difcil, e os seus padres eram rgidos.
        No ptio de treinamento, ouviam-se as pancadas
fortes da madeira contra o forro dos postes, feito de cou-
ro grosso e endurecido pelo sol. Na entrada do ptio, o
mestre de exerccios, sir Karel, indicava os movimentos a
serem realizados.
        Cinco cadetes do 5 ano, orientados por sir Mor-
ton, um instrutor assistente, andavam entre os novos a-
prendizes, atentos aos detalhes dos golpes bsicos de es-
pada, corrigindo um movimento errado aqui, mudando o
ngulo de um golpe ali, garantindo que os garotos no a-
baixassem demais os escudos durante o exerccio.
       Era um trabalho montono e repetitivo, realizado
debaixo do sol quente da tarde, porm necessrio. Aqueles
eram os movimentos bsicos que ajudariam os garotos a
viver ou morrer em algum ponto do futuro, e era essencial
que eles estivessem muito bem treinados e capazes de agir
por instinto.
       Foi esse pensamento que fez sir Rodney observar
Horace naquele momento. Enquanto Karel ditava os mo-
vimentos bsicos, Rodney tinha percebido que Horace
estava acrescentando golpes extras  sequncia sem se a-
trasar ou perder o ritmo.
       Karel tinha acabado de iniciar outra srie de exerc-
cios, e sir Rodney se inclinou atento, com os olhos fixos
em Horace.
       -- Ataque! Golpe lateral! Cortada  esquerda! Aci-
ma do ombro! -- gritava o mestre de exerccios. -- Cor-
tada por cima!
       Quando Karel mandou realizar a cortada por cima,
Horace obedeceu, mas ento, quase ao mesmo tempo,
passou para uma cortada para o lado, deixando que o pri-
meiro movimento o preparasse instantaneamente para o
segundo. O golpe foi dado com tamanha velocidade e
fora que, num combate real, o resultado seria destruidor.
O escudo do oponente, levantado para impedir a cortada,
nunca poderia ter reagido com a rapidez necessria para
proteger as costelas descobertas do movimento rpido
que se seguiu.
       Nos ltimos minutos, Rodney se dera conta de que
o aluno estava acrescentando esses golpes  rotina. Ele os
tinha visto primeiro com o canto dos olhos ao perceber
uma leve variao no padro rgido do exerccio, uma r-
pida agitao no movimento extra que surgiu e desapare-
ceu quase depressa demais para ser visto.
       -- Descansar! -- Karel gritou.
       Rodney notou que, enquanto a maioria dos outros
deixava cair as armas e ficava  vontade, Horace mantinha
a posio de sentido, a ponta da espada ligeiramente acima
da cintura e movia os dedos do p durante a pausa como
se no quisesse perder o ritmo.
       Aparentemente, algum mais tinha percebido os
golpes adicionais de Horace. Sir Morton se inclinou para
um dos cadetes mais velhos e falou com ele, fazendo ges-
tos rpidos na direo de Horace. O aluno do 1 ano, a-
inda atento ao poste de treinamento que era seu inimigo,
no notou a conversa. Ele olhou para cima confuso
quando o cadete se aproximou e o chamou.
       -- Ei, voc! No poste 14. O que pensa que est fa-
zendo?
       Surpresa e preocupao apareceram no rosto de
Horace. Nenhum recruta do 1 ano gostava de receber a
ateno dos mestres de exerccios ou dos seus assistentes.
Todos sabiam muito bem qual a quantidade de alunos que
deixava a escola depois de algum tempo.
       -- Senhor? -- ele disse ansioso, sem entender a
pergunta.
        -- Voc no est seguindo o padro. Faa o que sir
Karel manda, est bem?
        Rodney observou tudo com ateno e ficou con-
vencido de que a surpresa de Horace era verdadeira. O
garoto alto fez um pequeno movimento com os ombros.
Ele agora estava em posio de sentido, com a espada a-
poiada no ombro direito e o escudo erguido em posio
de desfile.
        -- Senhor? -- ele chamou indeciso. O cadete mais
velho estava ficando zangado. No tinha percebido os
movimentos extras de Horace e obviamente sups que o
garoto mais jovem estava simplesmente seguindo uma
sequncia ao acaso por conta prpria. Ele se inclinou para
a frente e o seu rosto ficou apenas a alguns centmetros do
de Horace.
        -- Sir Karel indica a sequncia que quer que vocs
faam! E voc obedece! -- ele disse em voz bem alta para
aquela distncia. -- Entendeu?
        -- Senhor, eu... obedeci -- Horace respondeu com
o rosto muito vermelho.
        Ele sabia que no devia discutir com um instrutor,
mas tambm sabia que tinha feito todos os golpes exigi-
dos por Karel.
        Rodney viu que o cadete mais velho agora estava
em desvantagem. Ele no tinha visto o que Horace tinha
feito e disfarou a incerteza com raiva.
        -- Ah, obedeceu, hein? Bom, talvez voc queira
repetir a ltima sequncia para mim. Que sequncia sir
Karel pediu?
        -- A sequncia nmero 5, senhor. Ataque, golpe
lateral, cortada  esquerda, acima do ombro, cortada por
cima -- Horace respondeu sem hesitao.
        O cadete vacilou. Ele achava que Horace tinha
simplesmente feito os exerccios sem ateno e golpeado
o poste de qualquer jeito. Mas Horace tinha repetido a
sequncia com perfeio. Pelo menos era o que parecia. O
garoto mais velho no tinha certeza absoluta de qual tinha
sido a sequncia, mas o aluno tinha respondido sem ne-
nhuma hesitao. Ele percebeu que todos os outros alu-
nos estavam assistindo  cena com muito interesse, o que
era natural. Alunos sempre gostavam de ver algum ser
repreendido por um erro, pois desse modo os prprios
erros no eram notados.
        -- O que est acontecendo, Paul? -- sir Morton,
assistente do mestre de exerccios, perguntou, parecendo
aborrecido com a discusso.
        Ele tinha mandado o cadete repreender o aluno pe-
la falta de ateno. Essa repreenso j deveria ter sido da-
da, e o assunto, terminado. Em vez disso, a aula estava
sendo atrapalhada. O cadete Paul se aproximou.
        -- Senhor, o aluno disse que realizou a sequncia
-- ele respondeu.
        Horace quis protestar, mas pensou melhor e fechou
a boca.
       -- Um momento.
       Paul e sir Morton se viraram um pouco surpresos,
pois no tinham percebido a aproximao de sir Rodney.
Ao redor deles, os outros alunos tambm ficaram em po-
sio de sentido. Sir Rodney era admirado por todos os
membros da Escola de Guerra, especialmente pelos mais
novos. Morton no chegou a ficar em posio de sentido,
mas endireitou um pouco o corpo e ajeitou os ombros.
       Horace mordeu o lbio de preocupao. Ele sentiu
a possibilidade de ser dispensado da Escola de Guerra.
Primeiro, os trs cadetes do 2 ano tornaram-se seus ini-
migos e vinham fazendo de sua vida um inferno. Agora,
tinha chamado a ateno indesejada do cadete Paul e de
sir Morton. E, para terminar, o prprio mestre de guerra
estava ali presente. Para piorar as coisas, no tinha idia de
que erro havia cometido. Ele se lembrava claramente de
realizar a sequncia como tinha sido pedido.
       -- Voc se lembra da sequncia, cadete Horace? --
o mestre de guerra perguntou.
       O cadete assentiu com a cabea enftico, mas logo
percebeu que essa no era considerada uma resposta acei-
tvel para uma pergunta vinda de um oficial superior, en-
to disse:
       -- Sim, senhor. A sequncia nmero 5, senhor.
       Rodney percebeu que aquela era a segunda vez que
ele tinha identificado a sequncia. Estava inclinado a a-
postar que nenhum dos outros cadetes seria capaz de di-
zer que sequncia do manual de exerccios tinha acabado
de completar. E duvidava tambm que os cadetes mais
velhos estivessem mais bem informados. Sir Morton ia
dizer alguma coisa, mas Rodney levantou a mo para im-
pedi-lo.
       -- Talvez voc possa repeti-la para ns -- ele dis-
se, a voz sria no mostrando o interesse cada vez maior
que sentia por aquele recruta. Rodney fez um gesto na di-
reo do poste de treinamento.
       -- Tome posio. Diga os nomes dos exerccios e...
comece!
       Horace realizou a sequncia sem errar, gritando os
nomes a cada golpe.
       -- Ataque! Golpe lateral! Cortada  esquerda! Aci-
ma do ombro! Cortada por cima!
       A espada de exerccio batia com movimentos fir-
mes contra o couro que cobria o poste. O ritmo era per-
feito. A execuo dos golpes era perfeita, mas desta vez
Rodney percebeu que no houve nenhum movimento a-
dicional. O golpe lateral rpido como um raio no foi da-
do. Ele imaginou saber o motivo. Desta vez, Horace esta-
va concentrado em acertar a sequncia. Antes, ele tinha
agido instintivamente.
       Sir Karel, atrado pela interveno de sir Rodney
numa sesso de treinamento comum, passeou entre as fi-
leiras de alunos parados junto dos postes de exerccios.
Ele estava com as sobrancelhas erguidas numa pergunta
muda para sir Rodney. Como era um cavaleiro antigo, ti-
nha direito a esse tipo de comportamento informal. O
mestre de guerra levantou a mo novamente. No queria
que nada atrapalhasse a concentrao de Horace naquele
momento. Mas estava satisfeito por Karel estar ali para
testemunhar o que tinha certeza de que iria acontecer.
        -- Outra vez -- ele disse no mesmo tom de voz
srio, e Horace reiniciou a sequncia.
        Quando terminou, a voz de Rodney soou como um
chicote.
        -- Outra vez!
        E novamente Horace executou a quinta sequncia.
        -- Sequncia 3! -- Rodney disparou quando o ra-
paz terminou.
        -- Ataque! Ataque! Passo para trs! Parada cruzada!
Bloqueio de escudo! Golpe lateral! -- Horace disse en-
quanto realizava os movimentos.
        Rodney notou que o garoto se movimentava com
leveza sobre os dedos dos ps, enquanto a espada parecia
uma lngua que danava de um lado para outro. Sem per-
ceber, Horace estava anunciando a cadncia de movi-
mentos quase to rpido quanto o mestre de exerccios
tinha feito.
        Karel olhou para Rodney e acenou com ar de satis-
fao. Mas Rodney ainda no tinha terminado. Antes que
Horace tivesse tempo para pensar, ele anunciou a quinta
sequncia de novo e o garoto reagiu.
        -- Ataque! Golpe lateral! Cortada  esquerda! Aci-
ma do ombro! Cortada por cima!
       -- Cortada  esquerda! -- Sir Rodney disparou
instantaneamente e, em resposta, quase como se tivesse
vontade prpria, a espada de Horace se movimentou na-
quele golpe extra e mortal.
       Sir Rodney escutou os sons de surpresa de Morton
e Karel. Eles perceberam a importncia do que tinham
visto. O cadete Paul demorou a entender o que tinha a-
contecido. Para ele, o aluno tinha respondido a uma or-
dem extra do mestre de guerra. Em sua opinio, Horace
tinha realizado o exerccio com perfeio, sabia manejar a
espada, mas isso era tudo o que tinha visto.
       -- Descansar! -- Sir Rodney ordenou, e Horace
apoiou a mo no punho da espada encostada no cho, os
ps separados, o cabo da arma na frente da fivela do cinto
na posio de descanso de desfile.
       -- Agora, Horace -- o mestre de guerra disse de-
vagar --, voc se lembra de ter acrescentado aquela cor-
tada lateral  esquerda  sequncia na primeira vez?
       Horace franziu a testa e ento compreendeu. Ele
no tinha certeza, mas agora que o mestre de guerra re-
frescara sua memria, achou que isso podia ter aconteci-
do.
       -- Ahn... sim, senhor. Acho que sim. Sinto muito,
senhor. Eu no tinha a inteno.  que... simplesmente
aconteceu.
       Rodney olhou rapidamente para os seus mestres de
exerccio e viu que eles entendiam a importncia do que
tinha acontecido ali. Ele fez um gesto com a cabea para
os homens, passando a mensagem silenciosa de que no
queria que nada fosse feito a respeito disso... ainda.
       -- Bem, no aconteceu nada de errado, mas preste
ateno no restante do perodo e s faa os exerccios pe-
didos por sir Karel, est certo?
       -- Sim, senhor! -- Horace respondeu em posio
de sentido. -- Desculpe, senhor! -- ele disse para o mes-
tre de exerccios, que respondeu com um aceno de mo.
       -- Preste mais ateno no futuro -- Karel fez um
gesto de cabea para sir Rodney ao perceber que o mestre
de guerra queria se afastar. -- Obrigado, senhor. Pode-
mos continuar?
       -- Prossiga, mestre -- sir Rodney concordou e
comeou a se virar, mas, como se se lembrasse de algo,
voltou e acrescentou como quem no quer nada: -- Ah,
por falar nisso, posso conversar com voc no meu gabi-
nete no fim da tarde, depois que as aulas terminarem?
       -- Claro, senhor -- Karel respondeu no mesmo
tom, sabendo que sir Rodney queria discutir aquele fen-
meno, mas sem querer que Horace percebesse seu inte-
resse.
       Sir Rodney voltou lentamente para a sede da Escola
de Guerra. Atrs dele, escutou Karel dando ordens e de-
pois o som repetitivo da madeira batendo no couro.
Halt examinou o alvo no qual Will estivera atirando e as-
sentiu com um gesto de cabea.
       -- Nada mal -- ele elogiou. -- A sua pontaria est
mesmo melhorando.
       Will no conseguiu evitar um sorriso. Aquele era
realmente um grande elogio, vindo de Halt. Este viu a ex-
presso do garoto e imediatamente acrescentou:
       -- Com mais prtica, muito mais prtica, voc at
pode alcanar a mediocridade.
       Will no tinha muita certeza do que aquela palavra
queria dizer, mas teve a impresso de que no era uma
coisa boa. O sorriso desapareceu, e Halt abandonou o as-
sunto com um aceno de mo.
       -- Chega de treino de arco-e-flecha por ora. Vamos
-- ele disse e saiu, caminhando numa trilha estreita pela
floresta.
       -- Para onde estamos indo? -- Will perguntou,
quase correndo para acompanhar as passadas largas do
arqueiro.
      -- Por que esse menino faz tantas perguntas? --
Halt perguntou, olhando para as rvores acima dele.
       claro que elas no responderam.




       Os dois andaram por uma hora antes de chegar a
um pequeno grupo de casas enterradas no fundo da flo-
resta.
       Will estava louco para fazer mais perguntas, mas j
tinha aprendido que Halt no ia respond-las, ento re-
solveu ter pacincia. Ele sabia que cedo ou tarde descobri-
ria por que estavam ali.
       Halt foi at a maior das cabanas em runas, parou e
fez sinal para que Will o seguisse.
       -- Ol, Velho Bob! -- ele chamou.
       Will ouviu algum se mexendo dentro da cabana e
ento um vulto enrugado e encurvado apareceu na porta.
O homem era quase careca, e sua barba era comprida,
manchada e de um branco sujo. Quando ele andou na di-
reo dos dois, sorrindo e cumprimentando Halt com um
aceno de cabea, Will prendeu a respirao. O Velho Bob
cheirava a estbulo, e dos mais sujos, por sinal.
       -- Bom-dia, arqueiro! -- o velho cumprimentou.
-- Quem voc trouxe a?
       Ele olhou para Will com interesse. Seus olhos eram
brilhantes e atentos, apesar da aparncia suja e descuidada.
       -- Este  Will, meu novo aprendiz -- Halt disse.
-- Will, este  o Velho Bob.
       -- Bom-dia, senhor -- Will cumprimentou educa-
do, e o velho riu.
       -- Ele me chamou de senhor! Viu s, arqueiro, ele
me chamou de senhor! Esse vai ser um excelente arqueiro!
       Will sorriu para ele. Por mais sujo que fosse, havia
algo de cativante nele, talvez fosse o fato de no parecer
se deixar intimidar por Halt, Will no conseguia se lem-
brar de ter visto ningum falar to  vontade com o ar-
queiro. Halt grunhiu impaciente:
       -- Eles esto prontos? -- perguntou.
       O velho riu outra vez e acenou vrias vezes com a
cabea.
       -- Esto mais que prontos! -- ele respondeu. --
Venha at aqui e veja.
       Ele os levou para o fundo da cabana, onde havia
um pequeno cercado com o porto aberto. Na outra ex-
tremidade, havia um abrigo coberto por um telhado sus-
tentado por quatro postes. No havia paredes. O Velho
Bob soltou um assobio agudo que fez Will dar um pulo.
       -- Eles esto ali, est vendo? -- falou, apontando
para o abrigo. Will viu dois cavalos pequenos trotando
pelo terreno para cumprimentar o velho. Quando se apro-
ximaram, o rapaz percebeu que um deles era um pnei,
mas os dois eram animais pequenos e desgrenhados, em
nada parecidos com os cavalos de batalha fortes e lustro-
sos em que o baro e seus guerreiros cavalgavam para a
guerra.
        O maior dos dois trotou imediatamente para perto
de Halt, que acariciou seu pescoo e lhe deu uma ma
tirada de um cesto perto da cerca. O cavalo a mastigou
agradecido. Halt se inclinou para a frente e murmurou al-
gumas palavras em seu ouvido. O cavalo virou a cabea e
relinchou, como se os dois estivessem achando graa de
alguma piada particular.
        O pnei esperou at que o Velho Bob tambm lhe
tivesse dado uma ma para mastigar e ento virou o olhar
inteligente para Will.
        -- Esse se chama Puxo -- o velho homem con-
tou. -- Parece que  do seu tamanho, no ?
        Ele passou a rdea de corda para Will, que a segu-
rou e observou os olhos do cavalo. Ele era um animal
pequeno e desgrenhado. Suas pernas eram curtas, mas
fortes. O corpo tinha a forma de um barril, a crina e a
cauda estavam speras e precisavam ser escovadas. Para
falar a verdade, em se tratando de cavalos, Will achou que
aquele no era uma figura muito impressionante.
        Sempre tinha sonhado com um cavalo que algum
dia o levasse a uma batalha. Nesses sonhos, o cavalo era
alto e majestoso, forte e negro, penteado e escovado at
brilhar como uma armadura.
        O cavalo quase pareceu sentir o que ele estava
pensando e encostou a cabea delicadamente no ombro
do garoto.
       "Talvez eu no seja muito grande", os olhos dele
pareciam dizer, "mas posso surpreender voc."
       -- Bom -- Halt disse. -- O que voc achou dele?
-- perguntou, acariciando o focinho macio do animal.
       Era bvio que o arqueiro e aqueles bichos eram
velhos amigos. Will hesitou, pois no queria ofender nin-
gum.
       -- Ele ... meio... pequeno -- disse finalmente.
       -- Voc tambm  -- Halt ressaltou.
       Will no conseguiu encontrar uma resposta para
isso. O Velho Bob se torcia de tanto rir.
       -- Ele no  um cavalo de batalha, no , garoto?
-- o velho perguntou.
       -- Bem... no, no  -- Will respondeu sem jeito.
       Ele gostava de Bob e sentiu que qualquer crtica ao
pnei poderia ser levada para o lado pessoal. Mas o velho
s riu de novo:
       -- Mas ele ganha de qualquer um daqueles cavalos
de batalha sofisticados! -- disse com orgulho. -- Ele 
muito forte, este garoto aqui! Consegue andar o dia intei-
ro, muito tempo depois que os cavalos elegantes se deita-
ram e morreram.
       Indeciso, Will olhou para o pequeno animal des-
grenhado.
       -- Tenho certeza que sim -- ele disse com educa-
o.
       -- Por que voc no experimenta? -- Halt per-
guntou, recostando-se na cerca. -- Voc  um corredor
rpido. Solte ele e veja se consegue pegar outra vez.
       Will sentiu o desafio na voz do arqueiro e soltou a
rdea. O cavalo, como se percebesse que aquilo era algum
tipo de teste, se afastou um pouco para o centro do pe-
queno cercado. Will passou por baixo da cerca, andou de-
vagar at o pnei e estendeu a mo num gesto convidati-
vo.
       -- Venha, garoto -- ele disse. -- Fique quieto a.
       Will tentou pegar a rdea e, de repente, o pequeno
cavalo virou, afastou-se para um lado e depois para o ou-
tro, deu alguns passos ao redor de Will e caminhou para
trs, para fora de seu alcance.
       Will tentou novamente.
       Mais uma vez, o cavalo escapou com facilidade.
Will estava comeando a se sentir um idiota. Ele avanou
para o cavalo, e o animal recuou. Em seguida, exatamente
quando Will pensou que o pegaria, ele danou com agili-
dade para o lado e fugiu outra vez.
       Will perdeu o humor e correu atrs dele. O cavalo,
gostando da brincadeira, relinchou e correu para fora de
seu alcance.
       E assim eles continuaram. Will se aproximava, o
cavalo se abaixava, desviava e escapava. At mesmo no
espao reduzido do pequeno cercado, ele no conseguiu
apanh-lo.
         Will parou consciente de que Halt o observava com
ateno. Pensou por alguns instantes, pois achou que ti-
nha de haver uma sada. Nunca conseguiria pegar um ca-
valo gil e rpido como aquele. Tinha que haver um outro
jeito...
         Seu olhar caiu sobre o cesto de mas do lado de
fora da cerca. Rapidamente, ele passou por baixo da grade
e pegou uma ma. Ento, voltou para o cercado e ficou
parado feito uma esttua, estendendo a fruta.
         -- Venha, garoto -- ele chamou.
         Puxo levantou as orelhas. Gostava de mas e a-
chou que tambm gostava do garoto -- ele sabia jogar
esse jogo. Sacudindo a cabea de um jeito aprovador, tro-
tou para a frente e pegou a ma com delicadeza. Will a-
panhou a rdea, e o pnei mastigou a ma. Se fosse pos-
svel dizer que um cavalo parece feliz, aquele parecia.
         Will olhou para cima e viu Halt fazer um aceno de
aprovao:
         -- Bem pensado!
         O Velho Bob deu um cutuco nas costelas do ho-
mem vestido de cinza.
         -- Garoto esperto, esse a! Esperto e educado! Vai
formar uma boa equipe com o Puxo, voc no acha?
         Will deu tapinhas no pescoo desgrenhado do ca-
valo e olhou para o velho.
         -- Por que o nome dele  Puxo? -- ele quis saber.
         No mesmo momento, o brao de Will foi quase ar-
rancado quando o pnei jogou a cabea para trs de re-
pente. Will cambaleou e recuperou o equilbrio. A garga-
lhada do Velho Bob se fez ouvir na clareira.
       -- Vamos ver se voc adivinha! -- ele disse delici-
ado.
       O riso dele era contagioso, e Will no conseguiu
no rir tambm. Halt olhou para o sol, que desaparecia
depressa atrs das rvores que cercavam a clareira do Ve-
lho Bob e as campinas alm.
       -- Leve Puxo para o abrigo, Bob vai lhe mostrar
como tratar do plo e como alimentar ele -- ele mandou.
-- Vamos ficar com voc esta noite, Bob, se voc con-
cordar -- acrescentou, dirigindo-se ao velho homem.
       -- Vou gostar da companhia, arqueiro -- o velho
respondeu com prazer. -- s vezes, passo tanto tempo
com os cavalos que comeo a pensar que tambm sou um
deles.
       Sem perceber, ele mergulhou uma das mos no
cesto de maas e escolheu uma, dando-lhe uma mordida
como Puxo tinha feito alguns minutos antes. Halt o ob-
servou com surpresa.
       -- Acho que chegamos na hora certa -- ele mur-
murou secamente. -- Ento, amanh vamos ver se Will 
to bom para montar o Puxo quanto para pegar ele --
continuou, imaginando que seu aprendiz no iria dormir
muito naquela noite depois de ouvir suas palavras.
       Ele tinha razo. A pequena cabana do Velho Bob
s tinha dois aposentos. Portanto, depois do jantar, Halt
se estendeu no cho perto da lareira e Will se ajeitou na
palha limpa e quente do celeiro, ouvindo os suaves sons
da respirao dos dois cavalos. A Lua nasceu e desapare-
ceu, e o garoto permaneceu acordado, questionando-se e
preocupando-se com o que o dia seguinte iria trazer. Ser
que ele conseguiria montar o Puxo? Nunca tinha caval-
gado. Ser que cairia assim que tentasse?
       Ser que ficaria machucado? Ou, pior ainda, ficaria
numa situao constrangedora? Ele gostava do Velho Bob
e no queria parecer idiota na sua frente. Nem na frente
de Halt, ele se deu conta um tanto surpreso. Quando fi-
nalmente adormeceu, ainda se perguntava em que mo-
mento a opinio de Halt tinha se tornado to importante
para ele.
-- Ento, voc viu o que aconteceu. O que achou? -- sir
Rodney perguntou.
        Karel estendeu a mo e tornou a encher sua caneca
com cerveja da jarra que estava na mesa entre eles. Os a-
posentos de Rodney eram bem simples, quando se pensa-
va que ele era o chefe da Escola de Guerra. Mestres de
guerra em outros feudos tiravam vantagem da posio
para se cercar de comodidades e luxo, mas esse no era o
estilo de Rodney. O seu quarto era mobiliado com simpli-
cidade -- uma mesa de pinho no lugar da escrivaninha,
cercada por seis cadeiras tambm de pinho, de encosto
reto.
        Num canto,  claro, havia uma lareira. Rodney pre-
feria viver com simplicidade, mas isso no queria dizer
que gostasse de desconforto, e os invernos no castelo
Redmont eram frios. Eles estavam no final do vero, e as
grossas paredes de pedra dos prdios do castelo serviam
para manter o frescor do interior. Quando o frio chegava,
essas mesmas paredes grossas retinham o calor do fogo.
Em uma delas, uma grande janela com sacada se abria pa-
ra o campo de treinamento da Escola de Guerra. De
frente para a janela, na parede oposta, havia um vo de
porta coberto por uma cortina grossa que levava para o
quarto de dormir de Rodney, onde havia uma simples ca-
ma de soldado e mveis de madeira. Quando a esposa,
Antoinette, ainda estava viva, o local era mais decorado,
mas ela tinha morrido alguns anos antes, e os quartos a-
gora tinham um toque inconfundivelmente masculino,
sem qualquer objeto que no fosse til e sem nenhum en-
feite.
       -- Sim, eu vi -- Karel concordou. -- No sei se
acreditei, mas vi.
       -- Voc s o viu uma vez -- Rodney disse. -- Ele
fez isso vrias vezes durante toda a sesso, e estou con-
vencido de que o fez inconscientemente.
       -- To depressa quanto aquele que eu vi? -- Karel
perguntou, e Rodney assentiu energicamente.
       -- Quem sabe, at mais depressa. Ele adicionou
um golpe extra  rotina, mas acompanhou o ritmo do e-
xerccio -- ele hesitou e finalmente disse o que os dois
estavam pensando: -- O garoto tem um dom natural.
       Karel inclinou a cabea pensativo. Com base no
que tinha visto, no estava preparado para contestar o fa-
to. E sabia que o mestre de Guerra tinha observado o ga-
roto por algum tempo durante o treino. Mas garotos com
vocao eram poucos e demoravam a aparecer. Eles eram
aquelas pessoas especiais para quem a habilidade com a
espada funcionava numa dimenso totalmente diferente.
Era mais um instinto do que uma habilidade.
       Esses eram os que se tornavam campees. Os mes-
tres da espada. Guerreiros experientes como sir Rodney e
sir Karel eram espadachins hbeis, mas aqueles com vo-
cao levavam a tcnica para outro plano. Era como se
para eles a espada nas mos se tornasse uma real extenso
no s de seus corpos, mas tambm de suas personalida-
des. A espada parecia atuar em comunho e em harmonia
instantnea com a mente do espadachim, agindo at mais
rpido do que o pensamento consciente. Os que tinham o
dom possuam habilidades nicas no que se referia  velo-
cidade, ao equilbrio e ao ritmo.
       Assim sendo, representavam uma grande responsa-
bilidade para os que estavam envolvidos com seu treina-
mento, pois essas habilidades e tcnicas inatas tinham que
ser cuidadosamente alimentadas e desenvolvidas em pro-
gramas de treinamento para que o guerreiro, j muito efi-
ciente naturalmente, desenvolvesse o seu verdadeiro po-
tencial de genialidade.
       -- Tem certeza? -- Karel disse por fim, e Rodney
assentiu outra vez, olhando pela janela.
       Em pensamento, ele via o treino do garoto e seus
movimentos adicionais rpidos como um raio.
       -- Tenho -- ele disse simplesmente. -- Vamos ter
que dizer a Wallace que ele vai ter outro aluno no prximo
semestre.
       Wallace era o mestre espadachim da Escola de
Guerra Redmont e tinha a responsabilidade de dar o po-
limento final nas habilidades bsicas que Karel e os outros
ensinavam. No caso de um aluno brilhante -- como Ho-
race evidentemente era -- ele daria aulas particulares de
tcnicas avanadas. Karel refletiu sobre o prazo que Rod-
ney tinha sugerido.
       -- S depois disso? -- ele perguntou. Faltavam a-
inda quase trs meses para o semestre seguinte. -- Por
que no imediatamente? Pelo que vi, ele j domina as tc-
nicas bsicas.
       Mas Rodney sacudiu a cabea.
       -- Ainda no avaliamos a personalidade -- retru-
cou. -- Ele parece um bom garoto, mas nunca se sabe. Se
se mostrar desajustado, no quero lhe dar o tipo de ins-
truo avanada que Wallace pode oferecer.
       Quando pensou a respeito, Karel concordou com o
mestre de Guerra. Afinal, caso Horace tivesse de ser dis-
pensado da Escola de Guerra por causa de alguma outra
falha, isso seria embaraoso e at perigoso se ele j esti-
vesse no caminho de ser um espadachim altamente quali-
ficado. Muitas vezes, alunos dispensados reagiam com
ressentimento.
       -- E tem outra coisa -- Rodney acrescentou. --
Vamos manter esta conversa entre ns e dizer a mesma
coisa a Morton. No quero que o garoto escute nada so-
bre isso ainda. Ele pode ficar convencido, e isso pode ser
perigoso para ele.
       -- Tem toda a razo -- Karel concordou. Ele ter-
minou a cerveja em dois goles rpidos, colocou a caneca
na mesa e se levantou. -- Bem, acho melhor ir. Tenho
uns relatrios para acabar.
       -- E quem no tem? -- perguntou o mestre de
guerra com cansao, e os dois velhos amigos trocaram
sorrisos pesarosos. -- Nunca imaginei que dirigir a Escola
de Guerra envolvesse tanta papelada. -- Rodney comen-
tou, fazendo Karel rir.
       -- s vezes, acho que deveramos esquecer o trei-
namento com armas e simplesmente jogar toda a papelada
sobre o inimigo e enterrar ele nela.
       Ele fez uma saudao informal, apenas tocando a
testa com o dedo indicador, como mostra de respeito.
Ento se virou e se dirigiu para a porta. Parou quando
Rodney acrescentou um ltimo ponto  discusso.
       -- Fique de olho no garoto. Mas no deixe que ele
perceba.
       -- Claro -- Karel respondeu. -- No queremos
que comece a pensar que tem alguma coisa de especial.




       Naquele momento, no havia a menor possibilida-
de de Horace imaginar que tinha algo de especial -- pelo
menos no num sentido positivo. O que ele realmente
sentia era que tinha o dom de atrair problemas.
        As pessoas estavam falando sobre a estranha cena
que tinha acontecido na rea de exerccios. Seus colegas,
sem entender o que tinha ocorrido, haviam presumido
que, de alguma forma, Horace aborrecera o mestre de
guerra e agora esperava pelo inevitvel castigo. Eles sabi-
am que a regra durante o 1 semestre era que, quando um
membro da classe cometesse um erro, toda a classe paga-
ria por ele. Como resultado, o clima no dormitrio estava,
no mnimo, tenso. Horace tinha sado do quarto com in-
teno de ir at o rio para escapar  condenao e a crti-
cas, que podia sentir no rosto dos outros. Infelizmente,
quando fez isso, foi direto para os braos de Alda, Bryn e
Jerome.
        Os trs garotos mais velhos tinham ouvido uma
verso distorcida da cena na quadra de treinamento. Eles
imaginaram que Horace tinha sido criticado por seus e-
xerccios com a espada e decidiram faz-lo sofrer por isso.
        Entretanto, sabiam que suas atitudes no seriam
aprovadas pelos funcionrios da Escola de Guerra. Hora-
ce, como recm-chegado, no tinha como saber que esse
tipo de ataque sistemtico era totalmente condenado por
sir Rodney e pelos outros instrutores. Simplesmente pres-
sups que as coisas tinham que ser assim e, sem ter noo
do que acontecia, permitiu-se ser atacado e insultado.
        Foi por esse motivo que os trs cadetes do 2 ano
fizeram Horace marchar at a margem do rio, para onde
ele ia de qualquer jeito, para longe da vista dos instrutores.
Ali, fizeram que ele entrasse no rio at que a gua batesse
na altura da sua coxa e ficasse em posio de sentido.
        -- O beb no sabe usar a espada -- disse Alda.
        -- O beb deixou o mestre de guerra zangado --
Brian acrescentou, usando o mesmo refro. -- O lugar do
beb no  na Escola de Guerra, bebs no devem brincar
com espadas.
        -- O beb devia jogar pedras, em vez disso -- Je-
rome concluiu com sarcasmo. -- Pegue uma pedra, beb.
        Horace hesitou e ento olhou  sua volta. A mar-
gem do rio estava cheia de pedras, e ele se inclinou para
pegar uma. Quando fez isso, a manga e a parte superior de
sua jaqueta ficaram encharcadas.
        -- Uma pedra pequena, no, beb -- Alda disse
sorrindo maldosamente para ele. -- Voc  um bebezo,
ento precisa de uma pedra grande.
        -- Uma pedra muito grande -- Bryn acrescentou,
mostrando com as mos que ele queria que Horace apa-
nhasse uma pedra enorme.
        Horace olhou ao redor e viu vrias pedras maiores
na gua cristalina. Ele se abaixou e pegou uma delas. Ao
fazer isso, cometeu um erro. Dentro da gua, foi fcil le-
vantar a pedra que escolheu, mas, quando a trouxe acima
da superfcie, mal suportou o peso.
        -- Vamos ver, beb -- Jerome disse. -- Levante-a.
        Horace apoiou os ps no cho com firmeza. A
corrente rpida do rio no o deixava manter o equilbrio e
segurar a pedra pesada ao mesmo tempo, ento ele a le-
vantou at a altura do peito para que seus atormentadores
pudessem v-la.
       -- Mais alto, beb -- Alda ordenou. -- Acima da
cabea.
       Sofrendo, Horace obedeceu. A pedra parecia pesar
mais a cada segundo que passava, mas ele a levantou aci-
ma da cabea, e os trs garotos ficaram satisfeitos.
       -- Muito bom, beb -- Jerome elogiou, e Horace,
com um suspiro de alvio, comeou a abaixar a pedra.
       -- O que est fazendo? -- Jerome perguntou zan-
gado. -- Eu disse que est bom. Isso quer dizer que  a
que a pedra deve ficar.
       Horace se esforou e levantou a pedra acima da
cabea outra vez, estendendo os braos. Alda, Bryn e Je-
rome fizeram um gesto de aprovao.
       -- Agora voc pode ficar a e contar at 500 --
Alda disse. -- Depois pode voltar ao dormitrio.
       -- Comece a contar -- Bryn mandou, rindo da i-
dia.
       -- Um, dois, trs... -- Horace comeou, mas todos
gritaram com ele quase imediatamente.
       -- No to depressa, beb! Devagar e sempre.
Comece de novo.
       -- Um... dois... trs... -- Horace contou e eles a-
provaram.
       -- Assim est melhor. Agora, conte devagar at
500 e depois pode ir -- Alda disse.
        -- No tente nos enganar, porque vamos descobrir
-- Jerome ameaou. -- E ento voc vai ter que voltar
aqui e contar at mil.
        Rindo, os trs estudantes voltaram para os seus
dormitrios. Horace ficou no meio do rio com os braos
tremendo por causa do peso da pedra e com lgrimas de
frustrao e humilhao enchendo seus olhos. Num de-
terminado momento, ele perdeu o equilbrio e caiu na -
gua. Depois disso, suas roupas pesadas e encharcadas di-
ficultaram ainda mais a tarefa de segurar a pedra acima da
cabea, mas ele no desistiu. No tinha certeza de que os
garotos no estavam escondidos em algum lugar, vigian-
do-o e, se estivessem, eles o fariam pagar por desobedecer
a suas ordens.
        "Se  assim que as coisas tm que acontecer, ento
que sejam," ele pensou. Mas prometeu a si mesmo que, na
primeira oportunidade que tivesse, faria algum pagar pela
humilhao que estava passando.
        Muito mais tarde, com as roupas ensopadas, os
braos doloridos e um profundo ressentimento queiman-
do seu corao, voltou ao dormitrio s escondidas. Ele
chegou tarde demais para o jantar, mas no se importou.
Estava sofrendo demais para comer.
-- Leve-o para dar uma volta -- Halt sugeriu.
       Will olhou para o pnei desgrenhado que o obser-
vava com um olhar inteligente.
       -- Vamos, garoto -- ele chamou, puxando o ca-
bresto.
       No mesmo instante, Puxo firmou as pernas dian-
teiras e recusou-se a se mexer. Will puxou a corda com
mais fora e tentou de tudo para fazer o pequeno pnei
teimoso se mover.
       O Velho Bob se torcia de tanto rir.
       -- Ele  mais forte do que voc!
       Envergonhado, Will sentiu as bochechas ficarem
quentes. Ele puxou com mais fora. Puxo agitou as ore-
lhas e resistiu. Era como tentar puxar uma casa.
       -- No olhe para ele -- Halt ensinou com suavi-
dade. -- Apenas pegue a corda e se afaste. Ele vai acom-
panhar voc.
       Will tentou desse jeito. Virou as costas para Puxo,
segurou a corda com firmeza nas mos e comeou a an-
dar. O pnei trotou docilmente atrs dele. Will olhou para
Halt e sorriu. O vigilante fez um gesto de cabea na dire-
o do porto na outra extremidade do cercado. Will o-
lhou para l e viu uma pequena sela colocada sobre a cer-
ca.
       -- Ponha os arreios nele -- o vigilante mandou.
       Puxo trotou para a cerca com facilidade. Will
prendeu as rdeas na cerca, colocou a sela nas costas do
pnei e se abaixou para apertar as tiras da barrigueira.
       -- Puxe com bastante fora -- o Velho Bob acon-
selhou.
       Finalmente, a sela estava firme no lugar, e Will o-
lhou ansiosamente para Halt.
       -- Posso montar nele agora?
       O vigilante acariciou a barba irregular com um ar
pensativo antes de responder.
       -- Se voc acha que  uma boa idia, v em frente
-- ele disse finalmente.
       Will hesitou por um momento. A frase despertou
uma lembrana vaga dentro dele, mas a ansiedade superou
a cautela. Ele colocou um p no estribo e jogou o corpo
com agilidade nas costas do animal. Puxo no se mexeu.
       -- Vamos! -- Will ordenou, batendo os calcanha-
res na lateral do pnei.
       Por um momento, nada aconteceu. Ento Will sen-
tiu um leve movimento estremecer o corpo do pnei.
       De repente, Puxo arqueou as costas pequenas e
musculosas e deu um salto no ar, fazendo que as quatro
patas deixassem o cho ao mesmo tempo. Ele se virou vi-
olentamente para um lado, pousou nas patas dianteiras e
chutou as traseiras na direo do cu. Will foi parar em
cima das orelhas do pnei, deu uma cambalhota no ar e
caiu de costas na terra. Ele se levantou, esfregando as
costas.
        Puxo ficou parado perto dele de orelhas empina-
das, observando-o com ateno.
        "Por que voc foi fazer uma coisa boba como es-
sa?", ele parecia perguntar.
        O Velho Bob se recostou na cerca, sacudindo-se de
riso. Will olhou para Halt.
        -- O que eu fiz de errado?
        Halt passou por baixo da cerca e foi at onde Pu-
xo estava parado olhando para os dois, esperando para
ver o que ia acontecer. Ele devolveu as rdeas para Will e
pousou uma das mos em seu ombro.
        -- Nada, se esse fosse um cavalo comum -- ele
respondeu. -- Mas Puxo foi treinado especialmente para
os arqueiros.
        -- Qual  a diferena? -- Will interrompeu zanga-
do, e Halt levantou a mo pedindo silencio.
        -- A diferena  que se deve pedir permisso a to-
dos os cavalos dos arqueiros antes de montar nele pela
primeira vez -- Halt explicou. Eles so treinados desse
jeito para que nunca possam ser roubados.
        -- Nunca ouvi falar de uma coisa dessas -- Will
disse, coando a cabea.
       -- Poucas pessoas ouviram -- ele disse, sorrindo
ao se aproximar. --  por isso que os cavalos dos arquei-
ros nunca so roubados.
       -- Bom -- disse Will -- o que se deve dizer ao
cavalo de um arqueiro antes de montar nele?
       Halt deu de ombros.
       -- Isso varia de um cavalo para outro. Cada um
reage a um pedido diferente -- ele fez um gesto na dire-
o do cavalo maior. -- O meu, por exemplo, reage s
palavras permettez-moi.
       -- Permettez-moi? -- Will repetiu. -- Que palavras
so essas?
       -- Isso  gals e quer dizer: "Voc me d permis-
so?"  que os pais dele vieram da Glia, entende? --
Halt explicou e ento se virou para o Velho Bob. --
Quais so as palavras para o Puxo, Bob?
       Bob fechou os olhos, fingindo que no conseguia
lembrar, e ento seu rosto se iluminou.
       -- Ah, sim, eu lembro! Para esse aqui a gente tem
que perguntar: "Tudo bem?"
       -- Tudo bem? -- Will repetiu, e Bob sacudiu a ca-
bea.
       -- No  para mim que deve dizer isso, jovem! Fale
isso no ouvido do cavalo!
       Sentindo-se um pouco idiota e sem ter certeza de
que os outros no estavam se divertindo s suas custas,
Will se aproximou e disse suavemente no ouvido de Pu-
xo:
       -- Tudo bem?
       Puxo relinchou levemente. Will olhou desconfiado
para os dois homens, e Bob acenou, encorajando-o.
       -- Vamos! Suba agora! O jovem Puxo no vai
mais lhe fazer mal!
       Com muito cuidado, Will subiu no lombo desgre-
nhado do pnei outra vez. Suas costas ainda doam da
tentativa anterior. Ele ficou ali por um momento e nada
aconteceu. Ento, bateu nas costelas de Puxo com os
calcanhares delicadamente.
       -- Vamos l, garoto -- disse baixinho.
       As orelhas de Puxo se levantaram e ele deu um
passo  frente devagar.
       Ainda com cuidado, Will deixou que ele andasse ao
redor do cercado uma ou duas vezes e ento deu mais
uma batidinha com os calcanhares. Puxo comeou a tro-
tar levemente. Will se movia com facilidade ao ritmo do
trote do cavalo, e Halt observava tudo com olhar de a-
provao. O garoto era um cavaleiro nato.
       O arqueiro soltou a corda que fechava o cercado e
abriu o porto.
       -- Leve ele para fora, Will -- mandou --, e veja o
que ele realmente sabe fazer!
       Obediente, Will dirigiu o pnei na direo do por-
to e, quando passaram por ele rumo ao campo aberto,
bateu mais uma vez nas costelas do animal com os calca-
nhares. Ele sentiu o pequeno corpo musculoso do animal
se encolher um pouco, e ento Puxo disparou num galo-
pe rpido.
       O vento zunia nos ouvidos de Will quando ele se
inclinou para a frente sobre o pescoo do pnei, estimu-
lando-o a correr ainda mais. Como resposta, as orelhas de
Puxo se empinaram e ele andou ainda mais depressa do
que antes.
       Ia rpido como o vento. Suas pernas curtas se mis-
turavam  paisagem enquanto ele levava o garoto a toda
velocidade pela beira das rvores. Com delicadeza, sem ter
certeza de como o pnei iria reagir, Will fez um pouco de
presso na rdea esquerda.
       No mesmo instante, Puxo virou para a esquerda,
afastando-se das rvores em diagonal. Will continuou e-
xercendo uma leve presso na rdea at que Puxo foi ou-
tra vez levado na direo do cercado. O garoto abafou um
grito de surpresa quando viu a distancia que tinham per-
corrido. Halt e Velho Bob eram figuras minsculas ao
longe, mas cresciam rapidamente enquanto Puxo voava
sobre a grama spera para perto deles.
       Um tronco cado apareceu no meio do caminho e,
antes que Will pudesse fazer qualquer coisa para contor-
n-lo, Puxo se preparou, firmou as patas e saltou sobre o
obstculo. Will soltou um grito de entusiasmo, e o pnei
relinchou levemente em resposta.
       Eles j estavam quase de volta ao cercado quando
Will puxou delicadamente as duas rdeas. No mesmo ins-
tante, Puxo diminuiu o passo para meio galope, depois
para um trote e finalmente passou a andar, enquanto Will
continuava a segurar as rdeas. Ele fez que o pnei paras-
se ao lado de Halt. Puxo agitou a cabea desgrenhada e
relinchou outra vez. Will se inclinou e acariciou o pescoo
do animal.
       -- Ele  fantstico! -- disse sem flego. --  to
rpido quanto o vento!
       -- Talvez no to rpido, mas certamente sabe
correr -- Halt disse srio. -- Voc fez um bom trabalho
com ele, Bob -- elogiou, virando-se para o velho.
       O Velho Bob curvou a cabea num sinal de agrade-
cimento e se inclinou para tambm afagar o pnei des-
grenhado. Ele tinha passado a vida criando, treinando e
preparando cavalos para o Corpo de Arqueiros, e esse es-
tava entre os melhores que j tinha visto.
       -- Ele consegue manter esse ritmo o dia todo --
garantiu orgulhoso. -- Pe qualquer cavalo de batalha no
chinelo. O rapaz at que cavalga bem, no , arqueiro?
       -- No foi to mal -- Halt concordou, coando a
cabea e escandalizando Bob.
       -- No foi to mal? Voc  um homem muito du-
ro, arqueiro! O garoto parecia leve como uma pena na-
quele salto! -- o velho olhou para Will, sentado de lado
no pnei, e fez um gesto de apreciao. -- E tambm sa-
be usar as rdeas, ao contrrio de muitos. Ele sabe lidar
com o animal.
       Will sorriu ao ouvir o elogio do velho treinador de
cavalos. Arriscou uma olhada para Halt, mas o arqueiro
estava srio como sempre.
       "Ele nunca sorri", Will pensou. Comeou a des-
montar, mas parou de repente.
       -- Tem alguma coisa que eu devo dizer a ele antes
de descer?
       -- No, garoto -- Bob garantiu rindo. -- Basta a
primeira vez, e Puxo vai lembrar, contanto que seja voc
a montar nele.
       Aliviado, Will desmontou e ficou ao lado do pnei,
que o empurrava com a cabea carinhosamente. Will o-
lhou para a tina de mas.
       -- Posso dar outra para ele?
       -- S mais uma -- Halt respondeu. -- Mas no
faa disso um hbito. Ele vai ficar gordo demais para cor-
rer se voc lhe der comida o tempo todo.
       Puxo resfolegou alto. Aparentemente, ele e Halt
discordavam quanto  quantidade de mas que um pnei
devia ganhar todos os dias.
       Will passou o resto do dia recebendo dicas do Ve-
lho Bob sobre como montar e aprendendo a cuidar da se-
la e a consertar os arreios de Puxo. Tambm ficou sa-
bendo de todos os detalhes de como cuidar do pequeno
cavalo.
       Ele escovou e tratou o plo desgrenhado at dei-
x-lo brilhando, e Puxo pareceu gostar dos cuidados. Fi-
nalmente, cansado, com os braos doloridos do esforo,
ele se deixou cair num monte de feno. Este,  claro, tinha
que ser o exato momento em que Halt entrou no estbulo.
        -- Venha -- ele disse. -- No temos tempo para
ficar por a  toa.  melhor irmos andando se quisermos
chegar em casa antes de escurecer.
        E, ao dizer isso, ele jogou uma sela nas costas de
seu cavalo. Will no se preocupou em reclamar e dizer que
no tinha ficado " toa", como o arqueiro tinha dito. Para
comear, sabia que no ia adiantar. E, em segundo lugar,
estava animado com a idia de voltar a cavalo para a pe-
quena cabana de Halt na beira da floresta. Parecia que os
dois cavalos passariam a ser parte permanente do local.
Will tinha chegado  concluso de que o animal de Halt j
vivia l e que o arqueiro s estava esperando que o garoto
mostrasse habilidade para cavalgar para ento lhe entregar
Puxo e poder levar tambm seu cavalo de volta para casa.
        Os cavalos relinchavam um para o outro de tempos
em tempos enquanto trotavam de volta na floresta escura
e verde. Era como se estivessem participando de uma
conversa s deles. Will estava explodindo de curiosidade e
tinha mil perguntas a fazer, mas ainda no se sentia 
vontade para tagarelar demais na presena do arqueiro.
        Finalmente, no conseguiu mais se conter.
        -- Halt? -- ele comeou com cautela.
        O arqueiro grunhiu. Will entendeu isso como um
sinal de que podia continuar a falar.
        -- Qual  o nome do seu cavalo?
       Halt olhou para ele. O seu animal era um pouco
maior do que Puxo, mas no chegava perto dos gigan-
tescos cavalos de batalha que havia no estbulo do baro.
       -- Acho que  Abelard -- ele contou.
       -- Abelard? -- Will repetiu. -- Que raio de nome
 esse?
       --  glico -- o arqueiro explicou, obviamente
pondo fim na conversa.
       Eles cavalgaram alguns quilmetros em silncio. O
sol j estava descendo sobre as rvores, e suas sombras
estavam compridas e distorcidas no cho. Will observou a
sombra de Puxo. O pnei parecia ter pernas extrema-
mente compridas e um corpo ridiculamente curto. Ele
queria chamar a ateno de Halt para o fato, mas imagi-
nou que um comentrio bobo como aquele no iria im-
pressionar o arqueiro. Em vez disso, reuniu coragem para
fazer outra pergunta que tinha ocupado seus pensamentos
durante alguns dias.
       -- Halt? -- ele disse outra vez.
       O arqueiro soltou um leve suspiro.
       -- O que  agora?
       Seu tom definitivamente no encorajava o incio de
uma conversa, mas Will insistiu.
       -- Voc lembra que me contou que um arqueiro
foi responsvel pela derrota de Morgarath?
       -- Hum -- Halt grunhiu.
       -- Bom, eu estava s pensando... Qual era o nome
do arqueiro? -- o garoto quis saber.
       -- Nomes no so importantes -- Halt disse. -- E
eu no lembro.
       -- Foi voc? -- Will continuou, certo de que o ar-
queiro sabia a resposta.
       Halt jogou o seu olhar tranquilo e srio sobre ele.
       -- J disse, nomes no so importantes.
       Houve um silncio entre eles por alguns segundos e
ento o arqueiro disse:
       -- Voc sabe o que  importante?
       Will sacudiu a cabea.
       -- O jantar  importante! E ns vamos nos atrasar
para o jantar se no corrermos.
       Ele bateu os calcanhares na barriga de Abelard e o
cavalo disparou para a frente como uma flecha, deixando
Will e Puxo bem para trs em questo de segundos.
       Will bateu nos lados do pnei com os calcanhares e
o pequeno animal saiu correndo em perseguio a seu
amigo maior.
       -- Vamos, Puxo! -- Will estimulou. -- Vamos
mostrar a eles como corre o verdadeiro cavalo de um ar-
queiro!
Will   conduziu Puxo lentamente pela lotada feira que
tinha sido montada fora dos muros do castelo. Todos os
habitantes da vila e do castelo pareciam estar l, e ele tinha
que cavalgar com cuidado para que Puxo no pisasse no
p das pessoas.
       Era o Dia da Colheita, ocasio em que toda a safra
era reunida e armazenada para os meses de inverno que
viriam. Depois de um ms difcil de colheita, tradicional-
mente o baro dava esse feriado ao povo. Todos os anos,
nessa poca, a feira itinerante vinha para o castelo e ar-
mava barracas e tendas. Havia engolidores de fogo e ma-
labaristas, cantores e contadores de histrias. Havia bar-
racas em que se podia tentar ganhar prmios jogando bo-
las macias de couro em pirmides feitas de pedaos de
madeira ou jogando argolas em cubos. s vezes, Will ti-
nha a impresso que os cubos eram um pouquinho maio-
res do que as argolas e, para falar a verdade, ele nunca ti-
nha visto ningum ganhar nenhum prmio. Mas as brin-
cadeiras eram muito divertidas, e o baro pagava tudo do
prprio bolso.
       Naquele momento, porm, Will no estava preo-
cupado com a feira e suas atraes. Ele teria tempo para
elas mais tarde naquele dia. Agora, estava a caminho de se
encontrar com seus antigos colegas protegidos.
       Segundo a tradio, todos os mestres de ofcio da-
vam folga aos seus aprendizes no Dia da Colheita, mesmo
que no tivessem participado da colheita em si. Will tinha
se perguntado durante semanas se Halt estaria ou no de
acordo com a prtica. O arqueiro parecia no dar impor-
tncia s tradies e tinha seu jeito de fazer as coisas. Mas,
duas noites antes, sua ansiedade tinha sido tranquilizada.
Halt tinha dito, de mau humor, que o garoto podia tirar
uma folga, mesmo que provavelmente fosse esquecer tudo
o que tinha aprendido nos ltimos trs meses.
       Aqueles trs meses tinham sido uma poca de trei-
no constante com o arco e as facas que Halt lhe tinha da-
do. Trs meses rastejando pelos campos fora do castelo,
movendo-se entre um minguado esconderijo e outro, ten-
tando se movimentar sem que os olhos de guia de Halt o
vissem. Trs meses cavalgando e cuidando de Puxo,
formando um elo especial de amizade com o pequeno
pnei.
       "Essa foi a melhor parte de todas", ele pensou.
Agora, estava pronto para o feriado e para se divertir um
pouco. Mesmo o pensamento de que Horace estaria l,
no diminua seu prazer. Talvez alguns meses de treina-
mento na Escola de Guerra tivessem mudado um pouco
os modos agressivos do garoto.
       Jenny tinha arranjado o encontro para o feriado,
encorajando os outros a se juntar a ela com a promessa de
uma fornada de tortas de carne que traria da cozinha. Ela
j era uma das melhores alunas de mestre Chubb, e ele a-
lardeava a habilidade dela para quem quisesse ouvir --
dando bastante nfase ao papel essencial que seu treina-
mento tinha desempenhado no aprendizado,  claro.
       O estmago de Will roncou com prazer ao pensar
nas tortas. Ele estava morrendo de fome, j que no tinha
tomado caf de propsito para deixar lugar para elas. As
tortas de Jenny j eram famosas no Castelo Redmont.
       Ele tinha chegado cedo ao ponto de encontro,
desmontando de Puxo e o levando para a sombra de uma
macieira. O pequeno pnei levantou a cabea e olhou de-
sejosamente para as mas nos galhos, totalmente fora de
seu alcance. Will sorriu para ele, subiu na rvore depressa,
apanhou uma fruta e a deu ao animal.
       -- S vai ganhar uma -- ele disse. -- Voc sabe o
que Halt acha de comer demais.
       Puxo balanou a cabea impaciente. Esse ainda era
um ponto de divergncia entre ele e o arqueiro. Will olhou
ao redor. No havia sinal dos outros, ento ele se sentou 
sombra da rvore e se recostou no tronco nodoso para
esperar.
       -- Ora,  o jovem Will, no  mesmo? -- pergun-
tou uma voz grave logo atrs dele.
       Will se levantou rapidamente e tocou a testa num
cumprimento educado. Era o baro Arald, sentado no seu
gigantesco cavalo de batalha e acompanhado por vrios de
seus principais cavaleiros.
        -- Sim, senhor -- Will respondeu nervoso. Ele no
estava acostumado a ver o baro lhe dirigir a palavra. --
Um bom Dia da Colheita para o senhor.
        O baro fez um gesto de cabea e se inclinou para a
frente, apoiado confortavelmente na sela. Will teve que
levantar a cabea para olhar para ele.
        -- Devo dizer, meu jovem, que voc parece fazer
parte da paisagem -- o baro comentou. -- Quase no o
vi com essa capa cinza de arqueiro. Halt j lhe ensinou
todos os seus truques?
        Will olhou para a capa cinza e verde que estava u-
sando. Halt a tinha dado algumas semanas atrs e tinha lhe
mostrado como essa combinao de cores disfarava a si-
lhueta de quem a usava e o ajudava a se misturar  paisa-
gem. Aquela era uma das razes pelas quais os arqueiros
podiam se deslocar sem serem vistos com tanta facilidade.
        --  a capa, senhor -- Will afirmou. -- Halt a
chama de camuflagem.
        O baro assentiu, pois certamente j conhecia o
termo, que ainda era um conceito novo para Will.
        -- S no a use para roubar mais bolos -- ele disse
com uma severidade fingida, e Will sacudiu a cabea de-
pressa.
        -- Ah, no, senhor! Halt me disse que, se eu fizer
outra coisa desse tipo, vai dar umas palmadas no meu tra-
se... -- ele parou envergonhado, pois no sabia se "trasei-
ro" era uma palavra que se podia dizer na presena de al-
gum to importante como o baro.
       O baro assentiu novamente, tentando no deixar
que um sorriso largo aparecesse em seu rosto.
       -- Tenho certeza que sim. E como voc est se
dando com ele, Will? Est gostando de aprender a ser um
arqueiro?
       Will ficou quieto. Para falar a verdade, no tinha
tido tempo para pensar se estava gostando ou no. Passa-
va os dias muito ocupado aprendendo novas habilidades,
treinando com o arco e as facas e trabalhando com Puxo.
Aquela era a primeira vez em trs meses que tinha alguns
instantes para realmente pensar no assunto.
       -- Acho que sim -- ele disse hesitante. --  que...
-- a voz dele desapareceu, e o baro o olhou com aten-
o.
       --  que...? -- ele insistiu.
       Will mudou de posio, desejando que sua boca
no continuasse a coloc-lo sempre nessas situaes por
falar demais. As palavras acabavam surgindo antes que ele
tivesse tempo de pensar se queria diz-las ou no.
       --  que... Halt nunca sorri -- continuou pouco 
vontade. -- Ele est sempre to srio.
       Ele teve a impresso de que o baro estava escon-
dendo um sorriso.
       -- Bem, voc sabe que ser um arqueiro  um neg-
cio srio -- o baro falou. -- Tenho certeza de que Halt
d essa impresso a voc.
       -- O tempo todo -- Will disse arrependido e, desta
vez, o baro no conseguiu deixar de sorrir.
       --  s prestar ateno ao que ele diz, jovem. Voc
est aprendendo um trabalho muito importante.
       -- Sim, senhor. -- Will ficou um pouco surpreso
por perceber que concordava com o baro.
       Arald estendeu a mo para apanhar as rdeas. Se-
guindo um impulso, antes que os nobres se afastassem,
Will deu um passo  frente.
       -- Desculpe, senhor -- ele disse hesitante, e o ba-
ro se virou para olh-lo.
       -- Sim, Will?
       Will mexeu os ps de novo e continuou.
       -- Senhor, lembra-se de quando seus exrcitos lu-
taram contra Morgarath?
       O rosto alegre do baro Arald foi tomado por um
ar pensativo.
       -- No vou esquecer isso to depressa, garoto. Por
que quer saber?
       -- Senhor, Halt me disse que foi um arqueiro que
mostrou  cavalaria o caminho secreto atravs de Slip-
sunder para que ela pudesse atacar o inimigo pelas costas...
       -- Isso  verdade -- Arald confirmou.
       -- Eu tenho me perguntado, senhor, qual era o
nome do arqueiro -- Will terminou, sentindo-se corar
com sua ousadia.
       -- Halt no lhe contou? -- o baro perguntou. Will
deu de ombros.
       -- Ele disse que nomes no so importantes. Disse
que o jantar era importante, mas nomes, no.
       -- Mas voc acha nomes importantes, apesar do
que o seu mestre lhe disse? -- o baro retrucou, parecen-
do franzir o cenho novamente.
       Will engoliu em seco e prosseguiu.
       -- Acho que foi o prprio Halt, senhor. E me
perguntei por que ele no foi condecorado ou homenage-
ado por sua habilidade.
       O baro pensou por um momento e ento tornou a
falar.
       -- Bem, voc est certo, Will -- ele confirmou. --
Foi Halt. E eu quis homenage-lo, mas ele no permitiu.
Ele disse que arqueiros no recebem esse tipo de home-
nagem.
       -- Mas... -- Will comeou num tom perplexo, mas
a mo erguida do baro o impediu de falar mais.
       -- Vocs, arqueiros, tm costumes prprios, Will,
como tenho certeza de que est aprendendo. s vezes,
outras pessoas no os compreendem. Apenas escute o que
Halt diz e faa o que ele faz, e estou certo de que voc vai
ter uma vida honrosa.
       -- Sim, senhor.
       Will fez outra saudao quando o baro bateu as
rdeas levemente no pescoo do cavalo e o fez virar em
direo ao galpo da feira.
       -- Agora, chega de conversa. No podemos taga-
relar o dia inteiro. Vou jogar. Talvez este ano eu consiga
acertar uma argola num daqueles benditos cubos.
       O baro comeou a se afastar, mas ento pareceu
lembrar-se de algo e parou por um segundo.
       -- Will -- ele chamou.
       -- Sim, senhor?
       -- No conte a Halt que eu lhe disse que ele con-
duziu a cavalaria. No quero que ele fique zangado comi-
go.
       -- Sim, senhor -- Will concordou com um sorriso.
       Quando o baro se afastou, ele voltou a se sentar
para esperar pelos amigos.
Jenny, Alyss e George chegaram logo depois. Como ti-
nha prometido, Jenny trouxe uma poro de tortas frescas
embrulhadas num tecido vermelho. Ela as colocou cuida-
dosamente no cho debaixo da macieira enquanto os a-
migos se reuniam  sua volta. At Alyss, normalmente e-
quilibrada e sria, parecia ansiosa para pr as mos numa
das obras-primas de Jenny.
       -- Vamos! -- George disse. -- Estou morrendo de
fome.
       -- Devemos esperar o Horace -- Jenny retrucou,
balanando a cabea, olhando  sua volta a procurar pelo
colega, mas sem o ver no meio da multido.
       -- Ah, vamos l -- George pediu. -- Fiquei traba-
lhando feito um escravo numa petio para o baro a
manh toda!
       -- Talvez a gente deva ir comendo -- Alyss disse,
revirando os olhos para o cu. -- Seno ele vai comear
uma discusso legal e vamos ficar aqui o dia todo. Ns
podemos guardar algumas para o Horace.
       Will sorriu. Agora, George estava totalmente dife-
rente do garoto tmido e gaguejante do Dia da Escolha.
Era evidente que a Escola de Escribas o tinha feito de-
senvolver-se. Jenny serviu duas tortas para cada um e se-
parou duas para Horace.
       Os outros comearam a comer ansiosamente, e lo-
go comeou o coro de elogios para as tortas. A reputao
de Jenny era merecida.
       -- Isto no pode ser descrito como uma simples
torta, Vossa Excelncia -- George disse, levantando-se
acima deles e estendendo os braos para os lados como se
estivesse se dirigindo a um tribunal imaginrio. Descrever
isto como uma torta seria um grosseiro erro da justia, do
tipo que este tribunal nunca viu antes!
       -- H quanto tempo ele est assim? -- Will per-
guntou para Alyss.
       -- Todos ficam assim depois de alguns meses de
prtica legal -- ela respondeu sorrindo. -- Ultimamente,
o problema  fazer o George calar a boca.
       -- Ah, sente-se, George -- Jenny ordenou, coran-
do com o elogio, mas muito satisfeita. -- Voc  mesmo
um bobo.
       -- Talvez, cara senhorita. Mas foi a simples magia
destas obras de arte que revirou o meu crebro. Elas no
so tortas, elas so sinfonias! -- ele levantou o que restava
de sua torta para os outros, fingindo fazer um brinde. --
Eu lhe dou... a sinfonia de tortas da srta. Jenny!
       Alyss e Will, rindo um para o outro e para George,
levantaram suas tortas em resposta e repetiram o brinde.
Ento, os quatro aprendizes explodiram numa gargalhada.
       Era uma pena que Horace tivesse escolhido exata-
mente aquele momento para chegar. Ele se sentia mal em
sua nova situao. O trabalho era duro e incessante, e a
disciplina, firme. Naturalmente, tinha esperado que, em
circunstncias normais, pudesse cuidar de tudo. Mas ser o
alvo do rancor de Bryn, Alda e Jerome estava tornando a
sua vida um pesadelo -- literalmente. Os trs cadetes do
2 ano o levantavam da cama a qualquer hora da noite e o
arrastavam para fora para realizar as tarefas mais humi-
lhantes e exaustivas.
       A falta de sono e a preocupao de nunca saber
quando eles poderiam aparecer para atorment-lo ainda
mais estava fazendo que ele se prejudicasse nos trabalhos
da classe. Seus colegas de quarto, ao perceber que, se
mostrassem qualquer solidariedade para com ele, tambm
poderiam se tornar alvos, o deixavam de lado, e assim ele
se sentia totalmente sozinho em seu sofrimento. A nica
coisa que sempre quis estava se transformando em cinzas
rapidamente. Ele detestava a Escola de Guerra, mas no
via uma sada para essa situao difcil sem ficar ainda
mais constrangido e humilhado.
       Agora, no nico dia em que poderia escapar das
restries e das tenses da Escola de Guerra, chegou e
encontrou os antigos colegas j ocupados com seu ban-
quete. Ficou zangado e magoado porque eles no se im-
portaram em esperar por ele. No tinha idia de que Jenny
havia separado algumas tortas para ele e sups que ela j
as tinha dividido, e isso doeu mais que tudo. De todos os
seus antigos colegas protegidos, ela era a pessoa de quem
se sentia mais prximo. Jenny sempre estava alegre, sim-
ptica, disposta a ouvir os problemas dos outros. Ele per-
cebeu que tinha estado ansioso para v-la outra vez na-
quele dia e sentiu que ela o tinha decepcionado.
       Estava predisposto a pensar mal dos outros. Alyss
sempre pareceu se manter longe dele, como se no fosse
bom o suficiente para ela, e Will sempre pregava peas
nele para depois sair correndo e subir naquela rvore i-
mensa onde no podia alcan-lo. Pelo menos era assim
que via as coisas, vulnervel como estava no momento.
Convenientemente, esqueceu as vezes em que tinha dado
uma bofetada na orelha de Will ou uma chave de brao
at que o garoto menor se visse obrigado a pedir, aos gri-
tos, que parasse.
       Quanto a George, Horace nunca tinha dado muita
ateno a ele. O garoto magro era estudioso e dedicado
aos seus livros, e Horace sempre o tinha considerado uma
pessoa montona e desinteressante. Agora, estava ali se
exibindo enquanto os outros riam e comiam as tortas e
no deixavam nada para ele. De repente, Horace odiou
todos.
       -- Bom, isso  muito legal, no  mesmo? -- disse
com amargura, e todos se viraram para ele com o riso
morrendo em seus rostos.
       Como no podia deixar de ser, Jenny foi a primeira
a se recuperar.
       -- Horace! Finalmente voc chegou! -- ela disse.
       Ela comeou a andar na direo dele, mas o olhar
frio no rosto do garoto a fez parar.
       -- Finalmente? -- ele repetiu. -- Eu me atraso al-
guns minutos e, de repente, chego aqui "finalmente"? E
tarde demais, porque vocs j devoraram todas as tortas.
       Aquilo no era nada justo para com a pobre Jenny.
Como a maioria dos cozinheiros, depois de preparar uma
refeio, ela tinha pouco interesse em comer. Seu verda-
deiro prazer era ver os outros apreciarem os resultados de
seu trabalho. E ouvir os elogios. Consequentemente, no
tinha comido nenhuma de suas tortas. Ela ento se virou
para as duas que tinha coberto com um guardanapo e
guardado para ele.
       -- No, no -- ela disse depressa. -- Ainda sobra-
ram algumas! Veja.
       Mas a raiva de Horace no deixou que ele agisse ou
falasse racionalmente.
       -- Bem -- ele disse com a voz cheia de sarcasmo
--, talvez eu deva voltar mais tarde para que vocs te-
nham tempo de acabar com elas tambm.
       -- Horace!
       Lgrimas surgiram nos olhos de Jenny. Ela no ti-
nha idia do que estava errado com o amigo. Tudo o que
sabia era que o plano para uma reunio agradvel com os
antigos colegas do castelo estava caindo por terra.
       George deu um passo  frente e observou Horace
com curiosidade. O garoto alto e magro inclinou a cabea
para o lado a fim de analisar o aprendiz de guerreiro mais
de perto, como se fosse uma pea em exibio ou uma
prova num tribunal de justia.
       -- No h motivo para ser to desagradvel -- ele
disse com sensatez.
       Mas Horace no queria ouvir conselhos sensatos.
Zangado, ele empurrou o outro garoto para o lado.
       -- Fique longe de mim -- ele disse. -- E veja bem
como fala com um guerreiro!
       -- Voc ainda no  um guerreiro -- Will zombou.
-- Ainda  s um aprendiz como todos ns.
       Jenny fez um pequeno gesto com as mos, pedindo
para Will esquecer o assunto. Horace, que estava se ser-
vindo das tortas restantes, olhou para cima devagar. Ele
mediu Will dos ps  cabea por alguns segundos.
       -- Ah! Ento o aprendiz espio est com a gente
hoje!
       Ele olhou para ver se os outros estavam rindo de
sua piada. No estavam, e isso s serviu para deix-lo mais
desagradvel.
       -- Acho que Halt est ensinando voc a andar es-
condido por ai, espiando todo mundo, no ?
       Horace deu um passo  frente sem esperar resposta
e, sarcstico, cutucou a capa manchada de Will com o de-
do.
       -- O que  isso? Voc no tinha bastante tinta para
que ela ficasse s de uma cor?
       --  uma capa de arqueiro -- Will informou com
calma, controlando a raiva que estava crescendo dentro
dele.
       Horace resfolegou zombeteiro, enfiando metade de
uma torta na boca e espalhando migalhas para os lados.
       -- No seja to desagradvel -- George pediu.
       Com o rosto vermelho, Horace se virou para o a-
prendiz de escriba.
       -- Veja como fala, garoto! -- ele disparou. -- Vo-
c sabe que est falando com um guerreiro!
       -- Um aprendiz de guerreiro -- Will repetiu com
firmeza, dando nfase  palavra "aprendiz".
       Horace ficou mais vermelho e olhou zangado para
os dois. Will ficou tenso, sentindo que o garoto maior es-
tava pronto para atacar. Mas havia alguma coisa no olhar
de Will e na sua atitude determinada que fez Horace pen-
sar duas vezes. Ele nunca tinha visto aquele olhar de desa-
fio antes. No passado, sempre tinha visto medo quando
ameaava Will. Essa confiana recm-encontrada o per-
turbou um pouco.
       Em vez disso, ele se voltou para George e lhe deu
um forte empurro no peito.
       -- E isso? Acha desagradvel tambm? -- ele disse
quando o garoto magro e alto cambaleou para trs.
       Os braos de George giraram no ar quando ele
tentou evitar uma queda. Acidentalmente, deu um soco
rpido na lateral de Puxo. O pequeno pnei, que pastava
tranquilamente, empinou-se de repente.
       -- Quieto, Puxo -- Will ordenou, e o cavalo se
acalmou imediatamente.
       Foi ento que Horace o notou pela primeira vez.
Ele se aproximou e observou o pnei desgrenhado com
mais ateno.
       -- O que  isso? -- perguntou zombeteiro. -- Al-
gum trouxe um cachorro grande e feio para a festa?
       -- Ele  o meu cavalo -- Will disse com calma,
fechando os punhos.
       Ele podia suportar as zombarias de Horace, mas
no ia aguentar ver seu cavalo ser insultado.
       Horace soltou uma forte gargalhada.
       -- Um cavalo? Isso no  um cavalo! Na Escola de
Guerra montamos cavalos de verdade! No cachorros
despenteados! Tambm acho que ele precisa de um bom
banho!
       Horace franziu o nariz e fingiu cheirar o pnei.
       O animal olhou de lado para Will. "Quem  esse
cara irritante?", seus olhos pareciam dizer. Ento Will,
escondendo com cuidado o sorriso malvado que estava
tentando aparecer em seu rosto, disse como quem no
quer nada:
       -- Ele  um cavalo de arqueiro. Somente um ar-
queiro pode montar nele.
       -- Minha av poderia montar esse cachorro des-
grenhado! -- Horace retrucou rindo.
        -- Talvez ela pudesse, mas duvido que voc possa
-- Will respondeu.
        Antes mesmo de terminar o desafio, Horace estava
desamarrando as rdeas. Puxo olhou para Will, e o garo-
to quase jurou que o cavalo assentiu de leve com a cabea.
        Horace pulou facilmente nas costas de Puxo. O
pnei ficou parado.
        -- Muito fcil -- Horace exultou. Em seguida, en-
terrou os calcanhares nos lados de Puxo. -- Vamos, ca-
chorrinho! Vamos dar uma corrida.
        Will viu o conhecido retesar dos msculos das per-
nas e do corpo de Puxo. Ento, o pnei saltou no ar com
as quatro patas, virou-se violentamente, desceu nas patas
dianteiras e jogou as traseiras no ar.
        Horace voou como um pssaro durante vrios se-
gundos e caiu estirado de costas na poeira. George e Alyss
assistiram a tudo deliciados. O encrenqueiro ficou deitado
por uns segundos, espantado e tonto. Jenny se levantou
para ver se ele estava bem, mas ento, com uma expresso
dura no rosto, parou. Ele tinha pedido aquilo.
        Havia ento uma chance, apenas uma chance, de
que todo o incidente terminasse ali. Mas Will no resistiu 
tentao de fazer um ltimo comentrio.
        -- Por que voc no pergunta  sua av se ela pode
ensinar voc a montar? -- perguntou srio.
        George e Alyss conseguiram esconder o sorriso
mas, infelizmente, foi Jenny quem no conseguiu parar o
risinho que escapou de sua boca.
       Num instante, Horace se levantou com uma ex-
presso furiosa. Ele olhou  sua volta, viu um galho cado
da macieira e o agarrou, sacudindo-o sobre a cabea en-
quanto corria na direo de Puxo.
       -- Voc vai ver, cavalo maldito! -- ele gritou furi-
oso, agitando o pau na direo do animal com selvageria.
       O pnei danou para o lado, para fora do alcance
do brao de Horace. Antes que o rapaz pudesse atacar
outra vez, Will estava em cima dele.
       Aterrissou nas costas de Horace, e seu peso e a
fora do salto jogaram os dois no cho. Rolaram na terra
atracados, cada qual tentando vencer o outro. Puxo, as-
sustado ao ver o dono em perigo, relinchou nervosamente
e se empinou.
       Um dos braos livres que Horace agitava louca-
mente conseguiu desferir um soco na orelha de Will. Este,
por sua vez, conseguiu libertar o brao direito e deu um
soco forte no nariz de Horace.
       O sangue escorria do rosto do garoto maior. Os
braos de Will estavam fortes e musculosos depois de trs
meses de treinamento com Halt, mas Horace tambm ti-
nha aulas numa escola exigente. Ele atingiu o estmago de
Will com o punho, e este abriu a boca como se estivesse
sufocando.
       Horace se levantou com dificuldade, mas Will, num
movimento que Hall tinha lhe mostrado, girou as pernas
formando um arco, atingiu as pernas de Horace e o fez
cair outra vez.
       "Sempre ataque primeiro", Halt tinha metido em
sua cabea nas horas em que passaram praticando com-
bate desarmado. Quando Horace desabou no cho outra
vez, Will mergulhou sobre ele e tentou prender seus bra-
os atrs dos joelhos.
       Ento Will sentiu uma mo de ferro na parte de
trs de seu colarinho. Ele foi levantado no ar como um
peixe no anzol, debatendo-se e protestando.
       -- O que est acontecendo aqui, seus dois desor-
deiros? -- perguntou a voz alta e zangada em seu ouvido.
       Will se virou e percebeu que estava sendo segurado
por sir Rodney, o mestre de guerra. E o grande guerreiro
parecia muito zangado. Horace se levantou com dificul-
dade e ficou em posio de sentido. Sir Rodney soltou o
colarinho de Will. O aprendiz de arqueiro caiu no cho
como um saco de batatas e logo ficou em posio de sen-
tido tambm.
       -- Dois aprendizes brigando feito desordeiros e
estragando o feriado -- sir Rodney disse zangado. -- E,
para piorar as coisas, um deles  meu aprendiz!
       Will e Horace estavam de olhos baixos, incapazes
de encarar o rosto furioso do mestre de guerra.
       -- Muito bem, Horace, o que est acontecendo a-
qui?
       Horace se remexeu inquieto e ficou vermelho. Ele
no respondeu. Sir Rodney olhou para Will.
       -- Certo, ento voc, garoto dos arqueiros! O que
foi tudo isso?
       -- S uma briga, senhor -- Will murmurou depois
de hesitar um pouco.
       -- Isso eu estou vendo! -- o mestre de guerra ber-
rou. -- No sou idiota, sabia?
       Ele fez uma pausa e esperou para ver se um dos
garotos tinha mais alguma coisa a acrescentar. Os dois fi-
caram em silncio. Sir Rodney suspirou exasperado. Ga-
rotos! Se eles no estavam debaixo da sua vista, brigavam!
E, se no estavam brigando, estavam roubando ou que-
brando alguma coisa.
       -- Muito bem -- ele disse finalmente. -- A briga
acabou. Agora, apertem as mos e esqueam o assunto.
       Ele fez uma pausa e, como nenhum dos meninos
tomou a iniciativa, rugiu com sua voz retumbante:
       -- Faam o que mandei!
       Estimulados a tomar uma atitude, porm relutantes,
Will e Horace apertaram as mos. Mas, assim que Will
olhou nos olhos do colega, viu que a questo estava longe
de ser resolvida.
       "Ns vamos terminar isso outra hora", dizia o o-
lhar zangado de Horace.
       "Quando voc quiser", os olhos do aprendiz de
arqueiro responderam.
A primeira neve do ano formava uma camada grossa no
cho quando Will e Halt cavalgaram lentamente para casa
vindos da floresta.
       Seis semanas tinham se passado desde o confronto
do Dia da Colheita e a situao com Horace continuava
sem soluo. Houve poucas oportunidades para que os
dois garotos recomeassem a discusso, visto que seus
respectivos mestres os mantinham ocupados e seus cami-
nhos raramente se cruzavam.
       Will tinha visto o aprendiz de guerreiro ocasional-
mente, mas sempre de longe. Eles no tinham se falado,
nem mesmo tido a oportunidade de perceber a presena
um do outro. Mas Will sabia que o sentimento hostil ainda
estava l e algum dia viria  tona.
       Estranhamente, essa possibilidade no o perturbava
como teria feito alguns meses antes. No que esperasse
ansiosamente pela continuao da luta com Horace, mas
sentiu que podia encarar a idia com uma certa tranquili-
dade. Ele sentia uma grande satisfao quando se lembra-
va do soco forte e slido que tinha dado no nariz de Ho-
race. Tambm se dava conta, com uma leve surpresa, de
que a lembrana do incidente se tornava mais agradvel
pelo fato de que tinha acontecido na presena de Jenny e
-- era ali que estava a surpresa -- Alyss. Mesmo que o
acontecimento no tivesse produzido resultados concre-
tos, ele ainda encerrava muitos fatos que faziam Will pen-
sar.
        Mas ele se deu conta de que no podia faz-lo na-
quele momento, pois o tom de voz zangado de Halt o ar-
rastou de volta ao presente.
        -- Ser que podemos continuar procurando pega-
das ou voc tem alguma coisa mais importante para fazer?
        No mesmo instante, Will se virou, tentando enxer-
gar o que Halt tinha mostrado. Enquanto cavalgavam pela
neve firme e branca, e os cascos dos cavalos faziam ape-
nas leves rudos, Halt tinha mostrado alteraes na co-
bertura clara e regular. Eram pegadas deixadas por ani-
mais, e era tarefa de Will identific-las. Ele tinha bons o-
lhos e uma boa cabea para o trabalho. Normalmente,
gostava dessas lies de caa, mas agora sua ateno tinha
se desviado e ele no tinha idia de para onde deveria o-
lhar.
        -- Ali -- Halt disse como quem no esperava ter
que repetir a indicao.
        Will ficou em p nos estribos para ver as marcas na
neve com mais clareza.
        -- Coelho -- ele disse prontamente, e Halt olhou
de lado.
       -- Coelho? -- repetiu, e Will olhou novamente,
corrigindo-se quase de imediato.
       -- Coelhos -- disse, dando nfase ao plural, pois
Halt insistia em ser preciso.
       -- Isso mesmo -- Halt murmurou. -- Afinal, se as
pegadas fossem de escandinavos, voc precisaria saber
quantos eram.
       -- Acho que sim -- Will respondeu com humilda-
de.
       -- Voc acha que sim? -- Halt retrucou sarcstico.
-- Acredite, Will, h uma grande diferena entre saber se
h um escandinavo por perto ou uma dzia.
       Will balanou a cabea num gesto de desculpas.
Uma das mudanas que tinha acontecido no relaciona-
mento deles ultimamente era o fato de que Halt quase
nunca mais se referia a ele como "garoto". Naqueles dias,
era sempre "Will". Will gostava disso, pois o fazia sentir
que, de certa forma, tinha sido aceito pelo arqueiro com
cara de poucos amigos. Ao mesmo tempo, gostaria que
Halt sorrisse vez ou outra quando dissesse o nome dele.
       Ou mesmo s uma vez.
       A voz baixa de Halt o arrancou de seus devaneios.
       -- Pois bem... coelhos. Isso  tudo?
       Will olhou de novo. Era difcil enxergar na neve
remexida, mas depois que Halt tinha chamado sua aten-
o, viu outra srie de pegadas.
       -- Um arminho! -- disse triunfante, e Halt assentiu
outra vez.
        -- Um arminho. Mas voc deveria saber que havia
outra coisa, Will. Olhe como essas pegadas de coelho so
fundas.  bvio que alguma coisa os assustou. Quando
voc vir um sinal como esse,  uma indicao para procu-
rar mais alguma coisa.
        -- Entendi -- Will disse, mas Halt balanou a ca-
bea.
        -- No. Muitas vezes voc no entende porque no
se concentra. Voc tem que trabalhar nisso.
        Will no disse nada. Ele simplesmente aceitou a cr-
tica. Tinha aprendido que Halt no criticava sem motivo
e, quando havia um, no havia desculpas que pudessem
salv-lo.
        Eles continuaram a cavalgar em silncio. Will exa-
minava o cho ao redor deles com ateno, procurando
mais pegadas e mais sinais de animais. Andaram aproxi-
madamente mais 1 quilmetro e estavam comeando a ver
alguns dos marcos conhecidos que lhes diziam que esta-
vam perto da cabana quando uma coisa chamou a ateno
de Will.
        -- Olhe! -- ele exclamou, apontando para um tre-
cho de neve remexida ao lado da trilha. -- O que  isso?
        Halt se virou para olhar. As pegadas, se  que eram
pegadas, eram diferentes de todas as que Will tinha visto
at ento. O arqueiro fez seu cavalo se aproximar da beira
da trilha e as analisou com ateno.
       -- Hum -- ele murmurou pensativo. -- Essa 
uma que ainda no lhe mostrei. No se vem muitas des-
sas atualmente, portanto d uma boa olhada, Will.
       O arqueiro desceu da sela com facilidade e, seguido
por Will, andou pela neve na altura dos joelhos at as
marcas.
       -- O que ? -- o garoto quis saber.
       -- Porco selvagem -- Halt disse apenas. -- E dos
grandes.
       Will olhou em volta nervoso. Ele talvez no sou-
besse qual era a aparncia das pegadas de um porco sel-
vagem na neve, mas tinha ouvido bastante sobre as cria-
turas para saber que elas eram muito, mas muito perigo-
sas.
       Halt percebeu o olhar e fez um gesto tranquilizador
com a mo.
       -- Relaxe -- ele disse. -- Ele no est por perto.
       -- Voc consegue dizer isso por causa das pegadas?
-- Will perguntou.
       Ele olhou para a neve fascinado. Os sulcos pro-
fundos obviamente tinham sido feitos por um animal
muito grande e, aparentemente, tambm muito zangado.
       -- No -- Halt respondeu com calma. --  por
causa dos nossos cavalos. Se um porco selvagem desse
tamanho estivesse aqui por perto, esses dois estariam res-
folegando, batendo as patas e relinchando tanto que no
poderamos nem ouvir nossos pensamentos.
        -- Ah -- Will retrucou, sentindo-se um pouco
bobo.
       Ele afrouxou a mo que segurava o arco. Entre-
tanto, apesar das palavras tranquilizadoras do arqueiro,
no resistiu e deu s mais uma olhada em volta. Quando
fez isso, seu corao comeou a bater cada vez mais de-
pressa.
       O mato do outro lado da trilha estava se mexendo,
mesmo que s levemente. Normalmente, ele teria culpado
a brisa pelo movimento, mas o treinamento com Halt ti-
nha melhorado seu raciocnio e seu senso de observao.
Naquele momento, no havia brisa nem mesmo a mais
leve aragem.
       Mas, mesmo assim, os arbustos continuavam a se
mexer.
       A mo de Will desceu lentamente para a aljava.
Muito devagar, para no assustar a criatura nos arbustos,
ele pegou uma flecha e a colocou na corda do arco.
       -- Halt? -- ele tentou falar em voz baixa, sem
conseguir evitar que ela tremesse um pouco.
       Ele se perguntou se seu arco conseguiria parar um
porco selvagem furioso. Achava que no.
       Halt olhou ao redor e viu a flecha posicionada no
arco de Will virada na direo para a qual o garoto estava
olhando.
       -- Espero que voc no esteja pensando em atirar
no pobre velho fazendeiro que est escondido atrs desses
arbustos -- ele disse srio e em voz alta para que chegasse
at o grupo compacto de arbusto do outro lado da trilha.
       No mesmo instante, houve um movimento nas
plantas, e Will escutou uma voz nervosa gritando:
       -- No atire, meu bom senhor! Por favor, no ati-
re! Sou s eu!
       Os arbustos se abriram quando um homem velho
de aparncia desgrenhada e assustada se levantou e correu
para a frente. Mas a pressa foi sua desgraa, pois seu p
ficou preso nos galhos dos arbustos e ele caiu estendido
na neve. Levantou-se com esforo, desajeitado, as mos
estendidas para mostrar que no estava armado. Ao se
aproximar, continuou a falar sem parar, confuso.
       -- Sou s eu, senhor! No precisa atirar, senhor!
Sou s eu, juro, e no sou perigoso para pessoas como
vocs!
       Ele correu para o centro da trilha com os olhos
presos no arco e na ponta cintilante e afiada da flecha de
Will. Lentamente, depois de examinar melhor o intruso, o
garoto afrouxou a tenso na corda e abaixou o arco. O
velho era extremamente magro. Vestido com um macaco
de fazendeiro esfarrapado e sujo, tinha braos e pernas
compridos e esquisitos e cotovelos e joelhos nodosos. Sua
barba era grisalha e manchada, e ele estava ficando calvo
no alto da cabea.
       O homem parou a alguns metros deles e sorriu
nervosamente para os dois vultos cobertos pela capa.
       -- Sou s eu -- ele repetiu pela ltima vez.
Will no conseguiu evitar um sorriso, pois no pde i-
maginar nada menos parecido com um porco feroz e sel-
vagem.
       -- Como voc sabia que ele estava ali? -- pergun-
tou a Halt em voz baixa, e o arqueiro sacudiu os ombros.
       -- Eu o vi alguns minutos atrs. Voc vai acabar
aprendendo a perceber quando algum o estiver obser-
vando e ento vai saber procurar a pessoa.
       Will balanou a cabea admirado. O poder de ob-
servao de Halt era excepcional. No era de surpreender
que as pessoas no castelo o admirassem tanto.
       -- Ento me diga por que estava se escondendo ali.
Quem mandou voc nos espiar? -- perguntou Halt.
       O velho esfregou as mos nervoso, os olhos pas-
sando da expresso sria de Halt para a ponta da flecha,
agora abaixada, mas ainda posicionada na corda do arco
de Will.
       -- Espiando, no, senhor! No, no! Espiando,
no! Ouvi vocs se aproximando e pensei que aquele
porco selvagem monstruoso estivesse voltando!
       -- Voc pensou que eu era um porco selvagem? --
Halt perguntou desconfiado.
       Novamente, o fazendeiro balanou a cabea.
       -- No, no, no -- murmurou. -- Pelo menos
no depois que vi voc! Mas eu no tinha certeza de quem
eram. Podiam ser bandidos!
       -- O que voc est fazendo aqui? -- Halt quis sa-
ber. -- Voc no vive na regio, vive?
       O fazendeiro, ansioso por agradar, balanou a ca-
bea de novo.
       -- Vim de Willowtree Creek! Venho seguindo esse
animal e esperando encontrar algum para me ajudar a
transformar ele em toicinho.
       De repente, Halt ficou extremamente interessado
no assunto e abandonou o tom srio em que vinha falan-
do.
       -- Quer dizer que voc viu o porco selvagem? --
ele perguntou, e o fazendeiro esfregou as mos de novo,
olhando ao redor assustado, como se estivesse nervoso
com a possibilidade de o animal aparecer a qualquer mi-
nuto.
       -- Vi e ouvi. No quero ver mais. Ele  um bicho
malvado, senhor, escute bem.
       Halt observou as pegadas novamente.
       -- Ele  mesmo um dos grandes -- comentou di-
vertido.
       -- E malvado, senhor! -- o fazendeiro repetiu. --
Esse bicho tem o temperamento de um demnio. Ora, ele
 capaz de despedaar um homem ou um cavalo para o
caf-da-manh, com certeza!
       -- Ento, o que pensou em fazer com ele? -- Halt
perguntou. -- Alis, como voc se chama?
       O fazendeiro inclinou a cabea e fez um cumpri-
mento encostando os dedos na testa.
       -- Peter, senhor. Sal Peter  como me chamam,
pois gosto de um pouco de sal na minha carne, senhor.
       -- Tenho certeza de que gosta -- Halt concordou
com pacincia. -- Mas o que pretendia fazer com esse
porco selvagem?
       Sal Peter coou a cabea, parecendo perdido.
       -- No sei bem. Talvez esperasse encontrar um
soldado, um guerreiro ou um cavaleiro para acabar com
ele. Ou talvez um arqueiro -- ele acrescentou depois de
pensar.
       Will sorriu. Halt se levantou de onde estava exami-
nando as pegadas. Limpou a neve do joelho e voltou para
onde Sal Peter estava parado nervoso, apoiando o peso do
corpo ora num p, ora noutro.
       -- Ele tem causado muitos problemas? -- o ar-
queiro perguntou, recebendo sinais positivos de cabea do
velho fazendeiro.
       -- Se tem, senhor! Se tem! Matou trs cachorros.
Estragou campos e cercas, isso ele fez. E quase matou
meu genro quando ele tentou parar a fera. Como eu disse,
senhor, ele  um bicho malvado!
       Pensativo, Halt esfregou o queixo.
        -- Hum. Bom, no tenho dvidas sobre o que de-
vemos fazer a respeito.
        Ele olhou para o sol, que estava baixo no horizon-
te, e ento se virou para Will.
        -- Quanta luz voc acha que ainda temos, Will?
        Will examinou a posio do sol. Naqueles dias, Halt
nunca perdia uma oportunidade para ensinar alguma coisa,
para questionar ou testar os conhecimentos e habilidades
que Will estava desenvolvendo. Este sabia que era melhor
pensar bem antes de responder. Halt preferia respostas
precisas, no respostas rpidas.
        -- Pouco mais de uma hora?
        Ele viu as sobrancelhas de Halt se juntarem numa
expresso aborrecida e se lembrou de que o arqueiro
tambm no gostava de receber uma pergunta como res-
posta.
        -- Voc est perguntando ou respondendo? -- ele
retrucou. Will balanou a cabea chateado consigo mes-
mo.
        -- Pouco mais de uma hora -- respondeu com
mais confiana e, desta vez, o arqueiro assentiu concor-
dando.
        -- Certo.
        Ele se virou para o fazendeiro outra vez.
        -- Muito bem, Sal Peter, quero que leve uma men-
sagem para o baro Arald.
        -- Baro Arald? -- o fazendeiro perguntou nervo-
so, e Halt franziu a testa novamente.
       -- Viu o que voc fez? -- ele perguntou para Will.
-- Voc o fez responder perguntas com perguntas!
       -- Desculpe -- Will murmurou sorrindo, sem sa-
ber o que fazer.
       Halt balanou a cabea e continuou a conversar
com Sal Peter. -- Isso mesmo, o baro Arald. Voc vai
encontrar o castelo dele a alguns quilmetros desta trilha.
       Sal Peter espiou a trilha com uma das mos sobre
os olhos, como se j pudesse enxergar o castelo.
       -- Voc est falando de um castelo? -- ele per-
guntou num tom sonhador. -- Nunca vi um castelo!
       Halt suspirou impaciente. Manter esse tagarela com
o pensamento fixo no assunto estava comeando a lhe ti-
rar o bom humor.
       -- Isso mesmo, um castelo. Quando chegar, voc
fala com os guardas no porto...
       -- O castelo  grande? -- o velho perguntou.
       --  enorme! -- Halt rugiu, e Sal Peter recuou as-
sustado, com um olhar magoado.
       -- No precisa gritar, meu jovem -- ele disse o-
fendido. -- Eu s estava perguntando, s isso.
       -- Bom, ento pare de me interromper -- o ar-
queiro ordenou. -- Estamos perdendo tempo. Agora, est
prestando ateno?
       Sal Peter assentiu com um gesto.
       -- timo. Fale com o guarda no porto e diga que
voc tem uma mensagem de Halt para o baro Arald.
       Um olhar de reconhecimento brilhou no rosto do
velho homem.
       -- Halt? -- ele perguntou. -- No  o Halt, o ar-
queiro, ?
       -- Sim -- Halt respondeu cansado. -- Halt, o ar-
queiro. -- Aquele que conduziu a emboscada para os
Wargals de Morgarath? -- Sal Peter perguntou.
       -- Esse mesmo -- Halt respondeu com a voz pe-
rigosamente baixa.
       Sal Peter olhou em volta.
       -- Bom, onde ele est? -- o velho perguntou.
       -- Eu sou Halt! -- o arqueiro trovejou, colocando
o rosto a poucos centmetros do de Sal Peter.
       Novamente, o velho fazendeiro recuou alguns pas-
sos; ento, recuperou a coragem e sacudiu a cabea, sem
acreditar no que ouvia.
       -- No, no, no -- ele disse determinado. -- Vo-
c no pode ser ele. Ora, o arqueiro Halt  to alto e largo
quanto dois homens. Ele  um gigante! Corajoso, deter-
minado na batalha, isso sim. Voc no pode ser ele.
       Halt se virou, tentando recuperar o controle. Will
no conseguiu evitar sorrir novamente.
       -- Eu... sou... Halt -- o arqueiro disse, espaando
as palavras para que Sal Peter entendesse bem. -- Eu era
mais alto quando jovem e muito mais largo. Mas agora
estou deste tamanho.
       Ele olhou para o fazendeiro com os olhos semicer-
rados.
       -- Voc entendeu?
       -- Bom, se voc est dizendo... -- Sal Peter repli-
cou.
        Ele ainda no acreditava no arqueiro, mas havia um
brilho perigoso no olhar de Halt que o avisou que no se-
ria sensato continuar discordando dele.
        -- Bom -- Halt respondeu num tom gelado. --
Ento, diga ao baro que Halt e Will...
        Sal Peter abriu a boca para fazer outra pergunta.
Halt tapou a boca do velho com a mo imediatamente e
apontou para onde Will estava parado, ao lado de Puxo.
        -- Aquele  Will.
        Sal Peter assentiu com um gesto de cabea, olhando
a mo que lhe apertava a boca com os olhos muito aber-
tos, sem mais perguntas ou interrupes.
        -- Diga a ele que Halt e Will esto seguindo um
porco selvagem. Quando encontrarmos sua toca, vamos
voltar ao castelo. Enquanto isso, o baro deve reunir seus
homens para uma caada amanh cedo -- continuou.
        Lentamente, ele tirou a mo de cima da boca do
fazendeiro.
        -- Voc entendeu tudo o que eu disse? -- o ar-
queiro perguntou.
        Sal Peter balanou a cabea afirmativamente. --
Ento repita o que eu disse -- Halt mandou. -- Ir para o
castelo, dizer ao guarda do porto que tenho um recado
de voc... Halt... para o baro. Dizer ao baro que voc...
Halt... e ele... Will... esto seguindo um porco selvagem
para encontrar sua toca. Dizer para ele para preparar seus
homens para uma caada amanh.
       -- timo -- Halt disse.
       Ele fez um gesto para Will, e os dois tornaram a
subir em suas selas. Sal Peter ficou parado na trilha o-
lhando para eles, sem saber bem o que fazer.
       -- V andando -- Halt ordenou, apontando na di-
reo do castelo. O velho fazendeiro deu alguns passos e,
quando achou que estava numa distncia segura, virou-se
e chamou o arqueiro de expresso zangada.
       -- No acredito em voc, viu? Ningum fica mais
baixo e mais estreito!
       Halt suspirou e virou o cavalo na direo da flores-
ta.
Eles cavalgaram lentamente sob a luz que diminua aos
poucos, inclinando-se para os lados nas selas para acom-
panhar a trilha deixada pelo porco selvagem.
       Os dois no tiveram problemas em segui-lo. O
corpo enorme tinha deixado uma vala funda na neve alta.
Will se deu conta de que teria sido fcil mesmo sem a ne-
ve. Era bvio que o animal estava de pssimo humor. Ele
tinha atacado as rvores e os arbustos com suas presas,
deixando um caminho de destruio bem delineado na
floresta.
       -- Halt? -- Will chamou devagar, depois de terem
entrado cerca de 1 quilmetro entre as rvores densas.
       -- Hum -- Halt resmungou distrado.
       -- Por que incomodar o baro? No podemos
simplesmente matar o porco com nossas flechas?
       Halt sacudiu a cabea.
       -- Esse  dos grandes, Will. Veja o tamanho da
trilha que ele deixou. Poderamos usar umas seis flechas
para atac-lo e mesmo assim ele demoraria a morrer. Com
um animal desses  melhor se garantir.
       -- E como fazemos isso?
       -- Acho que voc nunca viu uma caada a um
porco selvagem -- Halt comentou, olhando para Will.
       Will sacudiu a cabea negativamente. Halt parou e
Will fez Puxo parar ao lado dele.
       -- Bem, primeiro precisamos de ces -- Halt co-
meou. -- Esse  outro motivo pelo qual no podemos
simplesmente acabar com ele com nossos arcos. Quando
o encontrarmos, provavelmente ter entrado no bosque
ou se escondido no meio de arbustos densos e no pode-
remos chegar perto dele. Os ces vo fazer que ele saia, e
vamos ter um crculo de homens ao redor da toca com
lanas especiais para porcos selvagens.
       -- E vo atirar as lanas nele? -- Will perguntou.
       -- No se usarem a cabea. A lana para porcos
selvagens tem mais de 2 metros de comprimento, uma
lmina de dois gumes e uma cruzeta atrs da lmina. A i-
dia  fazer o animal atacar o lanceiro. Ele ento enterra a
base da lana na terra e deixa o porco correr por cima de-
la. A cruzeta impede o animal de correr por cima do cabo
e atingir o lanceiro.
       -- Isso parece perigoso -- Will respondeu hesitan-
te.
       -- E  -- Halt concordou. -- Mas homens como o
baro, sir Rodney e os outros cavaleiros adoram isso. Eles
no perderiam a oportunidade de caar um porco selva-
gem por nada neste mundo.
       -- E voc? -- Will perguntou. -- Tambm vai usar
uma lana para porcos selvagens?
       -- Eu vou ficar sentado bem aqui, em cima de A-
belard. E voc vai estar montado no Puxo, no caso de o
porco selvagem atravessar o crculo de homens  sua vol-
ta. Ou no caso de ele ser ferido e escapar.
       -- O que vamos fazer se isso acontecer? -- Will
quis saber.
       -- Vamos derrub-lo antes que ele fuja outra vez
-- Halt disse sombrio. -- E ento vamos matar ele com
nossos arcos.
       O dia seguinte era um sbado e, depois do ca-
f-da-manh, os alunos da Escola de Guerra estavam li-
vres para passar o dia como quisessem. No caso de Hora-
ce, isso geralmente significava desaparecer sempre que
Alda, Bryn e Jerome vinham procur-lo. Ultimamente,
porm, eles tinham percebido que Horace os evitava e re-
solveram esper-lo do lado de fora do refeitrio. Quando
saiu para a rea de exerccios naquela manh, l estavam
os trs. Horace hesitou. Era tarde demais para voltar.
Com o corao apertado, continuou a andar na direo
deles.
       -- Horace!
       Ele se assustou com a voz que vinha bem de trs
dele. Virou-se e viu sir Rodney observando-o com curio-
sidade. Em seguida, o homem olhou rapidamente para os
trs cadetes do 2 ano. Horace se perguntou se o mestre
de guerra sabia do tratamento que vinha recebendo. Pro-
vavelmente sim. Devia fazer parte do processo de fortale-
cimento da Escola de Guerra.
       -- Senhor! -- ele respondeu, perguntando-se o que
tinha feito de errado.
       As feies de Rodney se suavizaram e ele sorriu
para o jovem rapaz. Parecia muito satisfeito com alguma
coisa.
       -- Relaxe, Horace. Afinal, hoje  sbado. J parti-
cipou de alguma caada a um porco selvagem?
       -- Hum... No, senhor.
       Apesar do convite para que Horace relaxasse, ele
continuou rgido na posio de sentido.
       -- Ento est na hora de participar. Pegue uma
lana e uma faca de caa na sala de armas, pea a Ulf para
lhe preparar um cavalo e volte aqui em vinte minutos.
       -- Sim, senhor -- Horace respondeu.
       Sir Rodney esfregou as mos com evidente prazer.
       -- Parece que Halt nos conseguiu um porco selva-
gem.  hora de todos termos um pouco de diverso!
       Animado, o homem sorriu para o aprendiz e ento
se afastou entusiasmado para preparar o prprio equipa-
mento. Quando Horace se virou para o ptio, percebeu
que Alda, Bryn e Jerome no estavam em lugar nenhum.
Ele deveria ter pensado melhor sobre por que os trs en-
crenqueiros desapareciam quando sir Rodney estava por
perto, mas naquele momento estava mais preocupado
com a caada ao porco selvagem.
       A manh j estava pela metade quando Halt condu-
ziu o grupo de caa para a toca do porco selvagem.
       O imenso animal tinha se escondido numas moitas
densas no fundo da floresta. Halt e Will tinham encon-
trado o esconderijo logo depois que escureceu, na noite
anterior.
       Naquele momento, quando se aproximaram, Halt
fez um sinal, e o baro e seus caadores desmontaram,
deixando os cavalos aos cuidados dos cavalarios que os
tinham acompanhado. Eles cobriram as ltimas centenas
de metros a p. Halt e Will eram os nicos que continua-
vam em seus cavalos.
       Havia 15 caadores ao todo, cada um armado com
uma lana do tipo que Halt tinha descrito. Eles se espa-
lharam em um grande crculo ao se aproximar da cova do
porco selvagem. Will ficou um pouco surpreso ao reco-
nhecer Horace como um dos participantes do grupo de
caa. Ele era o nico aprendiz de guerreiro. Todos os de-
mais eram cavaleiros.
       Quando ainda estava a centenas de metros do local,
Halt levantou a mo, fazendo sinal para os caadores pa-
rarem. Ele fez que Abelard trotasse e foi at onde Will se
encontrava, sentado sobre Puxo. O pequeno cavalo se
movia inquieto por sentir a presena do porco selvagem.
       -- Lembre-se -- o arqueiro disse em voz baixa pa-
ra Will --, se voc tiver que atirar, mire num ponto bem
atrs do ombro esquerdo. Se ele estiver atacando, atingir o
corao  sua nica chance de parar o animal.
       Will assentiu, molhando os lbios secos nervosa-
mente. Ele estendeu a mo e tranquilizou Puxo com um
rpido afago no pescoo. O pequeno cavalo mexeu a ca-
bea em resposta ao toque do dono.
       -- E fique perto do baro -- Halt lembrou, antes
de se mover e retomar seu lugar no lado oposto do crculo
de caadores.
       Halt estava na posio de maior perigo, acompa-
nhando os caadores menos experientes e, portanto, com
maior probabilidade de cometer um erro. Se o porco sel-
vagem atravessasse o crculo na sua direo, ele teria que
ca-lo e mat-lo. Tinha determinado que Will ficasse com
o baro e os caadores mais experientes, pois era mais se-
guro. Isso tambm o colocava junto de Horace. Sir Rod-
ney tinha posicionado o aprendiz entre ele e o baro. Afi-
nal, aquela era a primeira caada do garoto, e o mestre de
guerra no queria assumir nenhum risco indevido. Horace
estava ali para ver e aprender. Se o porco selvagem dispa-
rasse na direo deles, devia deixar que o baro ou sir
Rodney cuidassem do animal.
       Horace olhou para cima uma vez, fazendo contato
visual com Will No havia animosidade no olhar. Na ver-
dade, ele deu ao aprendiz de arqueiro um meio sorriso
tenso. Will se deu conta, ao observar Horace molhando os
lbios repetidas vezes, de que o outro garoto estava to
nervoso quanto ele.
       Halt fez outro sinal, e o crculo comeou a se fe-
char sobre a toca. Quando o crculo se tornou menor, Will
perdeu seu mestre e os outros homens de vista. Ele sabia,
por causa da contnua inquietao de Puxo, que o porco
selvagem ainda devia estar no meio dos arbustos. Mas
Puxo era bem treinado e continuava a andar sempre que
seu cavaleiro o impelia delicadamente para a frente.
        Um rugido forte veio de dentro da cova, e os cabe-
los de Will se arrepiaram. Ele nunca tinha ouvido o grito
de um porco selvagem furioso antes. Por um instante, os
caadores hesitaram.
        -- Ele est l! -- o baro gritou, sorrindo animado
para Will. -- Vamos torcer para que ele venha para o
nosso lado, no , rapazes?
        Will no tinha muita certeza de que queria que o
porco selvagem viesse em disparada para o lado deles. Na
verdade, gostaria muito que ele fosse para o lado oposto.
        Mas o baro e sir Rodney riam como colegiais en-
quanto preparavam suas lanas. Eles estavam apreciando a
caada, como Halt tinha previsto. Depressa, Will tirou o
arco do ombro e posicionou uma flecha na corda. Tocou
a ponta por um momento, certificando-se de que ainda
estava afiada como uma navalha. Sua garganta estava seca.
Ele no tinha certeza de que poderia falar se algum lhe
dirigisse a palavra.
        Os ces puxavam suas guias, enchendo a floresta
com os ecos de seus latidos nervosos. Foi esse barulho
que agitou o porco selvagem.
        Naquele momento, enquanto eles continuavam a
latir, Will ouviu o imenso animal derrubar com suas lon-
gas presas alguns arbustos que formavam seu esconderijo.
        O baro se virou para Bert, que cuidava dos ces, e
fez um sinal com a mo para que os animais fossem sol-
tos.
        Os ces grandes e fortes dispararam pelo espao
aberto at o esconderijo e desapareceram em meio s
moitas. Eram animais robustos, criados especialmente pa-
ra a caa ao porco selvagem.
        O barulho vindo do esconderijo era indescritvel.
Os latidos furiosos dos ces foram acompanhados pelos
gritos de gelar o sangue do porco selvagem enraivecido.
Galhos de arbustos e rvores jovens se quebraram e esta-
laram, e a mata pareceu estremecer.
        Ento, de repente, o porco selvagem apareceu na
clareira.
        O bicho parou no meio do crculo, entre os locais
em que estavam Will e Halt. Com um grito enfurecido, se
livrou de um dos ces que ainda estava agarrado ao seu
corpo e ento disparou na direo dos caadores com uma
velocidade inacreditvel.
        O jovem cavaleiro diretamente na frente dele no
hesitou: se apoiou num joelho, enterrou a base de sua
lana no cho e direcionou a ponta cintilante para o ani-
mal que corria em sua direo.
        O porco selvagem no teve chance de se virar. Sua
pressa o fez cair sobre a cabea da lana. Ele deu um salto
para cima, gritando de dor e fria, tentando arrancar o
pedao de ao mortal. Mas o jovem guerreiro o prendeu
impiedosamente com a lana, segurando-o junto do cho
e no dando nenhuma chance ao animal enraivecido de se
libertar.
        Assustado e de olhos arregalados, Will viu o cabo
forte da lana se curvar como um arco sob o peso do
porco selvagem, mas ento a ponta cuidadosamente afiada
penetrou no corao do animal e tudo terminou.
        Com um ltimo rugido lancinante, o enorme porco
selvagem caiu para o lado e morreu.
        O corpo manchado era quase to grande quanto o
de um cavalo e era todo formado de puro msculo. As
presas, agora inofensivas, curvavam-se para trs sobre seu
focinho feroz. Elas estavam sujas da terra que ele tinha
revirado e do sangue de pelo menos um dos ces.
        Will olhou para o corpo macio e estremeceu. Se
aquele era um porco selvagem, ele no tinha a menor
pressa de ver outro.
Os outros caadores se reuniram em volta do jovem ca-
valeiro que tinha matado o animal, cumprimentando-o e
dando tapinhas em suas costas. O baro Arald comeou a
andar em sua direo, mas parou ao lado de Puxo, o-
lhando para Will enquanto falava.
       -- Voc no vai ver outro desse tamanho durante
muito tempo, Will -- ele disse de mau humor. -- Pena
que ele no veio na minha direo. Eu gostaria de um tro-
fu desses para mim.
       Ele continuou a andar at sir Rodney, que j estava
com o grupo de guerreiros em volta do porco selvagem
morto.
       Consequentemente, Will se viu, pela primeira vez
em algumas semanas, frente a frente com Horace. Houve
uma pausa constrangedora em que nenhum dos garotos
quis dar o primeiro passo. Horace, entusiasmado com os
acontecimentos da manh e o corao ainda batendo forte
por causa da emoo causada pelo medo que tinha sentido
quando o porco selvagem apareceu, queria partilhar o
momento com Will.  luz do que tinham acabado de ver,
sua briga infantil parecia sem importncia e agora ele se
sentia mal por seu comportamento naquele dia, seis se-
manas antes, mas no conseguia encontrar as palavras pa-
ra expressar seus sentimentos e no se viu encorajado pela
expresso sombria de Will. Ento, com um leve dar de
ombros, comeou a passar por Puxo para cumprimentar
o jovem caador. Ao fazer isso, o pnei se enrijeceu e le-
vantou as orelhas, relinchando levemente.
       Will olhou para o matagal e seu sangue pareceu ge-
lar nas veias.
       Ali, parado bem ao lado da proteo dos arbustos,
estava outro porco selvagem: maior at do que o que es-
tava morto na neve.
       -- Cuidado! -- ele gritou quando o enorme animal
raspou a terra com as presas.
       A situao era perigosa. A linha de caadores tinha
se desfeito; a maioria estava admirando o tamanho do
porco selvagem e elogiando seu matador. Apenas Will e
Horace ficaram no caminho da outra fera, Will percebeu
que isso era principalmente porque Horace tinha hesitado
por aqueles poucos segundos vitais.
       Horace se virou de repente quando ouviu o grito de
Will. Ele olhou para o colega e ento para o novo perigo.
O porco selvagem abaixou a cabea, raspou o cho outra
vez e atacou. Tudo aconteceu numa velocidade aterrori-
zante. Num momento, o imenso animal estava raspando o
cho com as presas; no outro, disparava na direo deles.
Colocando-se entre Will e o porco selvagem, Horace se
virou sem hesitao para o animal, preparando a lana
como sir Rodney e o baro tinham lhe mostrado.
       Mas, ao fazer isso, seu p escorregou na trilha gela-
da coberta de neve e ele caiu indefeso para o lado, soltan-
do a lana no cho.
       No havia nenhum segundo a perder. Horace esta-
va deitado desarmado na frente daquelas presas mortfe-
ras. Will tirou os ps dos estribos e pulou no cho, no
mesmo tempo em que preparava a flecha. Ele sabia que
aquele pequeno arco no teria chance de parar a investida
louca do porco selvagem. S desejava poder distrair o
animal enraivecido e fazer que se desviasse do garoto des-
protegido no cho.
       Ele atirou e no mesmo instante correu para o lado,
para longe do aprendiz cado na neve. Em seguida, gritou
com toda a fora dos pulmes e atirou novamente.
       As flechas ficaram espetadas na pele grossa do
porco selvagem como agulhas numa almofada para alfine-
tes. Elas no provocaram grandes danos, mas a dor que
causaram atravessava seu corpo como uma faca quente.
Seus olhos vermelhos e zangados se prenderam na pe-
quena figura saltitante, e o animal furioso saltou atrs de
Will.
       No havia tempo para atirar novamente. Horace
estava em segurana naquele momento. Agora era Will
que estava em perigo. Ele procurou o abrigo de uma r-
vore e se agachou atrs dela bem a tempo.
       O ataque enraivecido do porco selvagem o levou
diretamente para o tronco da rvore. Seu corpo enorme se
chocou contra ela, sacudiu-a at as razes e mandou uma
chuva de neve para o cho, cada dos galhos.
       Surpreendentemente, o porco selvagem no pare-
ceu ter sentido o choque. Ele recuou alguns passos e ata-
cou Will novamente. O garoto se escondeu atrs do tron-
co outra vez, mal conseguindo evitar as presas cortantes
quando o porco selvagem passou por ele feito um trovo.
       Gritando furioso, o imenso animal se virou, desli-
zando na neve, e foi para cima do garoto novamente.
Desta vez, no havia tempo de Will desviar para o lado no
ltimo instante. O porco selvagem veio trotando, a fria
visvel em seus olhos vermelhos, seu hlito quente sol-
tando vapor no ar gelado de inverno.
       Atrs de si, Will ouviu os gritos dos caadores, mas
sabia que chegariam tarde demais para ajud-lo. Ele pre-
parou outra flecha, sabendo que no tinha chance de atin-
gir um ponto vital. Ento, o porco se aproximou de fren-
te.
       O rapaz escutou um trovejar abafado de cascos na
neve, e um vulto pequeno e desgrenhado se atirou contra
o monstro furioso.
       -- No, Puxo! -- Will gritou, temendo pela vida
de seu cavalo.
       Mas o pnei investiu contra o imenso porco selva-
gem, virou-se de costas e o atacou com as patas traseiras
quando ele ficou ao seu alcance. Os cascos traseiros de
Puxo atingiram o porco nas costelas com toda a fora e
fizeram a fera girar de lado na neve.
        O porco selvagem se levantou no mesmo instante,
ainda mais furioso do que antes. O pnei tinha feito que
perdesse o equilbrio, mas o chute no causou grandes
danos. Agora, o animal selvagem cortava e derrubava o
que via  sua frente para se aproximar de Puxo, enquanto
o pequeno pnei se empinava assustado e danava para os
lados para escapar do alcance das presas cortantes.
        -- Puxo! Fuja! -- Will gritou novamente com o
corao na garganta.
        Se aquelas presas atingissem os tendes sensveis
das pernas do cavalo, Puxo ficaria aleijado por toda a vi-
da. Will no conseguia ficar ali e simplesmente ver seu ca-
valo se colocar em tal perigo para defend-lo. Ele se pre-
parou e atirou novamente, em seguida tirou a longa faca
de arqueiro do cinturo e disparou pela neve na direo
do animal imenso e furioso.
        A terceira flecha atingiu o porco de lado. Mais uma
vez, Will tinha perdido um ponto vulnervel e s feriu o
animal. Ele gritou enquanto corria, insistindo para que
Puxo se afastasse. O porco selvagem viu o cavalo se a-
proximar e reconheceu a pequena figura que o tinha feito
ficar to furioso. Seus olhos vermelhos cheios de dio fi-
xaram-se nele e sua cabea se abaixou para um ltimo a-
taque mortal.
        Will viu os msculos das patas traseiras do animal
se contrarem. Estava longe demais de um lugar para se
proteger e teria que enfrentar o ataque em terreno aberto.
Ele se ajoelhou e, sem esperanas, estendeu uma faca afi-
ada na sua frente enquanto o animal corria para cima dele.
Vagamente, ouviu o grito rouco de Horace quando o a-
prendiz de guerreiro se jogou para a frente com a lana
em punho.
        Ento, ouviu-se um assobio agudo e profundo mais
forte do que o dos cascos do porco selvagem, seguido por
um som slido e molhado. O porco selvagem torceu o
corpo para trs, virou-se em agonia e caiu morto como
uma pedra na neve.
        A flecha de Halt, comprida e de haste pesada, esta-
va enterrada no lado do corpo do animal depois de ser a-
tirada com toda a fora de seu poderoso arco. Ele tinha
atingido o monstro em movimento bem atrs do ombro
esquerdo, fazendo que a ponta da flecha penetrasse e a-
travessasse o grande corao do porco.
        Um disparo perfeito.
        Halt fez Abelard se aproximar e pulou para o cho,
jogando os braos ao redor do garoto trmulo. Will, to-
mado de alvio, enterrou o rosto no tecido spero da capa
do arqueiro. Ele no queria que ningum visse as lgrimas
que corriam em sua face.
        Com delicadeza, Halt tirou a faca da mo de Will.
        -- Que raios voc estava esperando fazer com isso?
        Will apenas balanou a cabea. Ele no conseguia
falar. Sentiu o focinho macio de Puxo cutucando-o com
delicadeza e encarou os olhos grandes e inteligentes do
animal.
        E ento tudo foi barulho e confuso quando os ca-
adores se reuniram  volta deles, admirando o tamanho
do segundo porco selvagem e batendo nas costas de Will
por sua coragem. Ele ficou parado entre os homens, uma
figura pequena ainda envergonhada das lgrimas que des-
lizavam por seu rosto, no importa quanto tentasse pa-
r-las.
        -- Eles so gigantescos -- sir Rodney disse, cutu-
cando o porco selvagem morto com a bota. -- Achamos
que havia s um porque eles nunca deixam o esconderijo
juntos.
        Will se virou ao sentir algum tocar seu ombro e
encontrou o olhar de Horace. O aprendiz de guerreiro es-
tava balanando a cabea lentamente, admirado e incr-
dulo.
        -- Voc salvou a minha vida -- ele disse. -- Foi a
coisa mais corajosa que j vi.
        Will tentou fazer que Horace parasse de agradecer,
mas o colega continuou a falar. Ele se lembrou de todas as
vezes no passado em que tinha provocado e agredido Will.
Agora, agindo instintivamente, o garoto menor o tinha
salvado das presas cortantes e assassinas. E Horace pro-
vou sua crescente maturidade quando esqueceu atitudes
instintivas e se colocou entre o animal raivoso e o apren-
diz de arqueiro.
       -- Mas por que, Will? Afinal, ns... -- ele no
conseguiu terminar a frase, mas Will sabia o que ele queria
dizer.
       -- Horace, ns podemos ter brigado no passado,
mas no odeio voc. Nunca odiei.
       Horace fez um gesto de cabea, e uma expresso de
entendimento tomou conta de seu rosto. Ele pareceu to-
mar uma deciso.
       -- Eu lhe devo minha vida, Will -- ele disse num
tom determinado. Nunca vou esquecer essa dvida. Se
voc alguma vez precisar de um amigo, se precisar de aju-
da, pode me chamar.
       Os dois garotos se encararam por um instante, en-
to Horace estendeu a mo e Will a apertou. O crculo de
cavaleiros em volta ficou em silncio, testemunhando sem
querer interromper aquele momento importante para os
dois rapazes. O baro Arald se aproximou e ps os braos
ao redor dos garotos, um de cada lado.
       -- Belas palavras, as de vocs dois! -- ele disse
com entusiasmo, sendo seguido pelo coro animado dos
cavaleiros.
       O baro ria satisfeito. Pensando bem, tinha sido
uma manh perfeita. Um pouco de animao. Dois gran-
des porcos selvagens mortos. E agora dois de seus garotos
formando o tipo de ligao especial que somente nascia
do perigo partilhado.
       -- Temos dois timos jovens aqui! -- ele disse pa-
ra todo o grupo e novamente se ouviu o coro entusias-
mado de concordncia. -- Halt, Rodney, vocs dois po-
dem se orgulhar de seus aprendizes!
       -- Ns nos orgulhamos, senhor -- sir Rodney
respondeu, fazendo um gesto de aprovao para Horace.
       Ele tinha visto como o garoto se virou sem hesitar
para enfrentar o ataque e aprovou a oferta franca de ami-
zade a Will. Ele se lembrava muito bem da briga dos dois
no Dia da Colheita. Parecia que tinham deixado as dis-
cusses infantis para trs. Ficou profundamente satisfeito
por ter escolhido Horace para a Escola de Guerra.
       Halt, por sua vez, no disse nada, mas, quando Will
se virou para seu mentor, os olhares de ambos se encon-
traram e ele simplesmente fez um gesto de cabea.
       Will sabia que isso equivalia a vrios vivas de Halt.
Nos dias que se seguiram  caada ao porco selvagem,
Will percebeu uma mudana na forma como era tratado.
Havia uma certa diferena, at respeito, no jeito como as
pessoas falavam com ele e o olhavam quando passava. O
fato era mais visvel entre o povo da vila. Como eram
pessoas simples, com o dia-a-dia bastante limitado, ten-
diam a glamourizar e exagerar qualquer acontecimento
que, de alguma forma, escapava do comum.
       No fim da primeira semana, os acontecimentos da
caada tinham sido aumentados de tal forma que diziam
que Will tinha matado os dois porcos selvagens com uma
s mo quando eles saram em disparada do bosque. Al-
guns dias depois disso, ao ouvir contarem a histria, era
quase possvel acreditar que ele tinha realizado o feito
com uma nica flecha que atravessou o primeiro porco
selvagem e foi se alojar direto no corao do segundo.
       -- Na verdade, eu no fiz muita coisa -- ele disse
para Halt, numa noite, quando estavam sentados perto do
fogo na pequena cabana aquecida que dividiam na beira da
floresta. -- Quer dizer, no planejei nem decidi o que fa-
zer. A coisa simplesmente aconteceu. E, afinal, foi voc
quem matou o porco selvagem, no eu.
       Halt apenas assentiu, olhando fixamente para as
chamas amarelas e saltitantes na lareira.
       -- As pessoas pensam o que querem -- ele disse
devagar. -- Nunca d ateno demais a elas.
       Mesmo assim, Will estava perturbado com a baju-
lao. Achava que as pessoas estavam dando importncia
exagerada aos fatos. Will sentia, em seu corao, que tinha
feito uma coisa que valia a pena e, talvez, at honrosa.
Mas estava sendo tratado como uma celebridade por a-
contecimentos totalmente fictcios e, como era uma pes-
soa essencialmente honesta, no conseguia sentir-se orgu-
lhoso disso.
       Will tambm se sentia um pouco constrangido
porque era um dos poucos que tinha percebido o ato ori-
ginal de Horace, instintivamente corajoso, colocando-se
em frente ao porco selvagem. Ele sentia que talvez o ar-
queiro tivesse a oportunidade de elogiar a ao altrusta de
Horace para sir Rodney, mas seu professor simplesmente
tinha assentido e dito apenas:
       -- Sir Rodney sabe. Ele no perde muita coisa. Es-
t um pouco acima da mdia das outras pessoas.
       E Will teve que se satisfazer com isso.
       No castelo, com os cavaleiros da Escola de Guerra,
os vrios chefes de ofcio e os aprendizes, as atitudes eram
diferentes. Ali, Will apreciava a simples aceitao e o re-
conhecimento do fato de que tinha se sado bem. Perce-
beu que agora as pessoas geralmente sabiam seu nome e
cumprimentavam Halt e ele quando os dois tinham traba-
lho a fazer na rea do castelo. O prprio baro estava mais
amistoso do que nunca. Era motivo de orgulho ver um
dos garotos do castelo apresentar um bom desempenho.
        Horace era a pessoa com quem Will gostaria de
discutir o assunto. Mas, como seus caminhos raramente se
cruzavam, a oportunidade no tinha surgido. Ele queria se
certificar de que o aprendiz de guerreiro no tinha dado
grande importncia s histrias ridculas que tinham var-
rido a vila e esperava que seu antigo colega do castelo
soubesse que ele no tinha feito nada para espalhar aque-
les boatos.
        Enquanto isso, as lies e o treinamento de Will
continuavam num ritmo acelerado. Halt tinha lhe dito que
no prazo de um ms eles partiriam para a Reunio: um
acontecimento anual no calendrio dos arqueiros.
        Era nessa ocasio que todos os 50 arqueiros se reu-
niam para trocar informaes, discutir quaisquer proble-
mas que pudessem ter surgido no reino e fazer planos. O
mais importante para Will era o fato de que tambm era
poca de avaliar os aprendizes e ver se eles estavam pre-
parados para passar ao prximo ano do treinamento. Infe-
lizmente, ele estava treinando somente h sete meses. Se
no passasse na avaliao da Reunio daquele ano, teria
que esperar mais um ano at que surgisse outra oportuni-
dade. Como resultado, treinava incansavelmente, do nas-
cer at o fim de cada dia. O descanso do sbado era um
luxo h muito esquecido. Will atirava flechas e mais fle-
chas em alvos de diferentes tamanhos, em diferentes con-
dies, de p, ajoelhado, sentado. Ele at atirava escondi-
do nas rvores.
       E praticava o uso das facas em p, ajoelhado, sen-
tado, lanando-se para a esquerda e para a direita. Ele
treinava jogar a maior das duas facas para que ela atingisse
o alvo primeiro com o cabo. Afinal, como Halt tinha dito,
s vezes era preciso apenas assustar a pessoa em quem es-
tava atirando, portanto era uma boa idia saber como fa-
z-lo.
       Will praticava andar furtivamente, ficar parado co-
mo uma esttua mesmo quando tinha certeza de que tinha
sido descoberto e aprendeu que, com muita frequncia, as
pessoas simplesmente no o notavam at que ele real-
mente se mexia. Aprendeu o truque que os buscadores
usavam, deixando que o olhar passasse de um determina-
do ponto e de repente voltasse a olhar para ele para captar
qualquer movimento, por menor que fosse. Aprendeu so-
bre as sentinelas da retaguarda, que seguiam um grupo si-
lenciosamente na esperana de pegar qualquer pessoa que
no tivesse sido vista, e ento saam do esconderijo quan-
do o grupo tivesse passado.
       Ele trabalhava com Puxo, fortalecendo o elo e a
afeio que tinham se formado muito depressa entre os
dois. Aprendeu a usar os sentidos aguados do faro e da
audio do pequeno cavalo para o avisar de qualquer pe-
rigo e aprendeu a interpretar os sinais que o cavalo envia-
va para seu cavaleiro.
       Assim, no era de surpreender que, no final do dia,
Will no tivesse disposio para subir o caminho sinuoso
que levava ao Castelo Redmont e procurar Horace para
conversar. Will aceitava o fato de que, cedo ou tarde, a
oportunidade surgiria. Enquanto isso, ele s podia esperar
que o desempenho de Horace estivesse sendo reconheci-
do por sir Rodney e pelos outros membros da Escola de
Guerra.
       Infelizmente para Horace, parecia que nada estava
mais longe da verdade.
       Sir Rodney estava perplexo diante do jovem e
musculoso aprendiz. Ele parecia ter todas as qualidades
que a Escola de Guerra procurava: era corajoso, cumpria
ordens imediatamente e mostrava enorme habilidade no
treinamento com as armas. Mas seu trabalho de classe fi-
cava abaixo da mdia. As tarefas eram entregues com a-
traso ou feitas com desleixo. Ele parecia ter problemas em
prestar ateno nos instrutores -- como se estivesse dis-
trado o tempo todo. Alm disso, suspeitava-se de que ti-
nha uma preferncia por brigas. Nenhum integrante da
equipe o tinha visto brigando, mas frequentemente era
visto com hematomas e contuses leves e parecia no ter
feito amigos entre os colegas de classe. Tudo isso servia
para criar a imagem de um recruta briguento, anti-social e
preguioso que tinha uma certa habilidade com as armas.
        Considerando todos os aspectos e com muita relu-
tncia, o mestre de guerra estava comeando a sentir que
teria que expulsar Horace da Escola de Guerra. Todos os
fatos pareciam indicar isso. No entanto, seus instintos lhe
diziam que estava enganado, que havia algum outro fator
que ele desconhecia.
        Na verdade, havia trs outros fatores: Alda, Bryn e
Jerome. E, no mesmo momento em que o mestre de
Guerra estava pensando no futuro de seu recruta mais jo-
vem, eles cercaram Horace mais uma vez.
        Parecia que, cada vez que ele conseguia encontrar
um lugar para escapar, os trs alunos mais velhos desco-
briam seu paradeiro.  claro que isso no era difcil para
eles, j que tinham uma rede de espies e informantes en-
tre os outros garotos mais jovens que tinham medo deles,
dentro e fora da Escola de Guerra. Desta vez, encurrala-
ram Horace atrs do depsito de armas, num local calmo
que ele tinha descoberto alguns dias antes. Estava preso
contra a parede de pedra do edifcio do depsito de armas,
e os trs valentes estavam parados em meio crculo na
sua frente. Cada um deles segurava uma bengala grossa, e
Alda tinha um saco pesado dobrado sobre um brao. --
Ns estvamos procurando voc, beb -- Alda disse.
Horace no respondeu. Seus olhos passavam de um para
outro enquanto ele se perguntava quem faria o primeiro
movimento.
        -- O beb nos fez de bobos -- Bryn falou.
        -- Fez toda a Escola de Guerra de boba -- acres-
centou Jerome. Horace franziu a testa confuso com as pa-
lavras dos garotos. Ele no tinha idia do que eles estavam
dizendo, mas Alda logo esclareceu sua dvida.
        -- O beb teve que ser resgatado do porco selva-
gem grande e malvado.
        -- Por um pequeno e rastejante aprendiz que vive
se escondendo -- Bryn acrescentou num tom claramente
zombeteiro.
        -- E isso faz mal para a imagem de todos ns.
        Jerome empurrou o ombro de Horace enquanto
falava, fazendo que se chocasse contra a pedra spera da
parede. Seu rosto estava vermelho e zangado, e Horace
sabia que ele estava se preparando para alguma coisa. Suas
mos se fecharam ao lado do corpo, e Jerome percebeu o
movimento.
        -- No me ameace, beb!  hora de aprender uma
lio.
        Ele se aproximou ameaador. Horace se virou para
encar-lo e, no mesmo instante, sabia que tinha cometido
um erro. O movimento de Jerome foi um artifcio. O
verdadeiro ataque veio de Alda, que jogou o pesado saco
de estopa na cabea de Horace antes que ele pudesse re-
sistir e puxou uma corda com fora para que ele ficasse
imobilizado da cintura para cima, vendado e indefeso.
        Horace sentiu vrias voltas da corda caindo sobre
seus ombros, amarrando-o, e ento os golpes comearam.
       Ele cambaleou s cegas sem poder se defender,
enquanto os trs garotos o atacavam com as pesadas ben-
galas que estavam carregando.
       Ele se chocou contra a parede e caiu, incapaz de se
proteger, com os braos imobilizados ao lado do corpo.
Os golpes continuaram, recaindo na cabea, nos braos e
nas pernas desprotegidos. Os trs garotos continuavam
sua ladainha irracional de dio.
       -- Chame o rastejador para salvar voc agora, be-
b.
       -- Isso  por nos fazer parecer idiotas.
       -- Aprenda a ter respeito por sua Escola de Guer-
ra, beb.
       E eles continuaram sem parar enquanto Horace se
retorcia no cho, tentando escapar dos golpes em vo. Foi
a pior surra que j tinham lhe dado e continuaram at que,
gradativamente, misericordiosamente, ele ficou imvel e
semiconsciente. Cada um bateu nele ainda algumas vezes,
e ento Alda retirou o saco. Horace respirou fundo e en-
cheu o pulmo de ar fresco. Todo o seu corpo doa vio-
lentamente. De muito longe, ele ouviu a voz de Bryn.
       -- Agora vamos ensinar a mesma lio para o ras-
tejador.
       Os outros riram e Horace escutou quando se afas-
taram. Ele gemeu baixinho, desejando que a inconscincia
o libertasse, querendo se deixar mergulhar em seus braos
escuros e confortveis para que a dor fosse embora, pelo
menos durante um tempo.
       Ento ele compreendeu o significado das palavras
de Bryn. Eles iam dar o mesmo tratamento a Will, sim-
plesmente porque achavam que a atitude dele ao salvar
Horace tinha, de certa forma, depreciado a Escola de
Guerra. Com um esforo sobre-humano, ele empurrou as
agradveis dobras da escurido para longe e se levantou
com esforo, gemendo por causa da dor, respirando com
dificuldade, apoiando-se na parede, a cabea girando. Ele
se lembrou da promessa que tinha feito a Will: "Se voc
precisar de um amigo, pode me chamar."
       Tinha chegado a hora de cumprir a promessa.
Will estava treinando na vasta campina atrs da cabana
de Halt. Ele tinha colocado quatro alvos em distncias di-
ferentes e estava alternando os tiros aleatoriamente entre
os quatro, nunca atirando no mesmo duas vezes seguidas.
Halt tinha preparado o exerccio para ele antes de ir ao es-
critrio do baro para discutir um comunicado do rei.
       -- Se voc atirar duas vezes no mesmo alvo, vai
comear a contar com o primeiro tiro para determinar sua
direo e elevao. Dessa forma, nunca vai aprender a ati-
rar instintivamente. Sempre vai precisar atirar primeiro
num alvo visvel.
       Will sabia que seu mestre estava certo. Mas isso no
tornou o exerccio mais fcil. Para aumentar a dificuldade,
Halt tinha determinado que ele no deveria deixar passar
mais que cinco segundos entre um tiro e outro.
       Com a testa franzida pela concentrao, ele soltou
as cinco ltimas flechas de um conjunto. Uma aps outra,
numa sucesso rpida, elas dispararam pela campina, atin-
gindo os alvos. Will, com a aljava vazia pela dcima vez
naquela manh, parou para analisar os resultados e balan-
ou a cabea satisfeito. Todas as flechas tinham atingido o
alvo, e a maioria estava amontoada no crculo central ou
na mosca. Sua pontaria era excelente e o fez valorizar a
prtica constante.  claro que ele no sabia, mas havia
poucos arqueiros no reino fora do Corpo de Arqueiros
que podiam se comparar a ele. At mesmo os arqueiros do
exrcito do rei no eram treinados para atirar com essa
velocidade e preciso individual. Eles eram treinados para
atirar em grupo e mandar uma grande quantidade de fle-
chas contra uma fora atacante. Como resultado, o seu
treinamento se concentrava mais em aes coordenadas
para que todas as flechas fossem atiradas ao mesmo tem-
po.
        Will tinha acabado de soltar o arco e estava se pre-
parando para recuperar as flechas quando o som de passos
atrs dele fez que se virasse. Ele ficou um pouco surpreso
ao ver trs aprendizes da Escola de Guerra observando-o,
os casacos vermelhos indicando que eram alunos do 2
ano. No reconheceu nenhum deles, mas acenou num
cumprimento amistoso.
        -- Bom-dia. O que esto fazendo aqui?
        No era comum ver aprendizes da Escola de
Guerra to longe do castelo. Will notou as grossas benga-
las que carregavam e imaginou que tinham sado para uma
caminhada. O que estava mais perto, um garoto loiro e
bonito, sorriu e disse:
        -- Estamos procurando o aprendiz de arqueiro.
       Will no conseguiu evitar devolver o sorriso. Afinal,
a capa que ele usava mostrava, sem possibilidade de erro,
que era um aprendiz de arqueiro. Mas talvez o aprendiz da
Escola de Guerra apenas estivesse sendo educado.
       -- Bom, vocs encontraram ele. O que posso fazer
por vocs?
       -- Trouxemos um recado da Escola de Guerra pa-
ra voc -- o garoto respondeu.
       Como todos os alunos da Escola de Guerra, ele e
os companheiros eram altos e musculosos. Os trs se a-
proximaram, e Will recuou um passo instintivamente, pois
achou que os garotos estavam prximos demais. Mais do
que precisariam estar para dar um recado.
       --  sobre o que aconteceu na caada ao porco
selvagem -- comeou um deles.
       Era o garoto de cabelos ruivos, muitas sardas no
rosto e um nariz que mostrava sinais claros de que tinha
sido quebrado, provavelmente num dos treinos de com-
bate em que os alunos da Escola de Guerra sempre parti-
cipavam. Will deu de ombros, pouco  vontade. Havia al-
guma coisa no ar de que ele no gostava. O garoto loiro
ainda estava sorrindo, mas nem o garoto ruivo nem o ter-
ceiro companheiro, um menino moreno que era o mais
alto dos trs, pareciam achar que havia motivos para sor-
rir.
       -- Vocs sabem que as pessoas esto falando um
monte de bobagens sobre isso. No fiz muita coisa --
Will contou.
       -- Ns sabemos -- o garoto ruivo disparou zan-
gado, e novamente Will deu um passo atrs quando eles se
aproximaram um pouco mais.
       O treinamento de Halt estava fazendo soar um a-
larme de advertncia em sua mente. "Nunca deixe as pes-
soas chegarem perto demais de voc", ele tinha dito. "Se
tentarem, fique atento, no importa quem sejam ou o
quanto voc ache que so amistosas."
       -- Mas, quando voc sai por a dizendo a todos que
salvou um aprendiz grande e desajeitado da Escola de
Guerra, voc nos faz parecer idiotas -- o garoto alto acu-
sou.
       Will olhou para ele de testa franzida.
       -- Eu nunca disse isso! -- protestou. -- Eu...
       E nesse momento, enquanto estava sendo distrado
por Bryn, Alda fez um movimento, aproximando-se rapi-
damente com o saco aberto para jog-lo na cabea de
Will. Foi a mesma ttica que usaram com sucesso com
Horace, mas Will j estava em guarda, portanto pressentiu
o ataque e reagiu.
       Inesperadamente, ele mergulhou na direo de Alda
e virou o corpo num salto mortal, passando por baixo do
saco. Em seguida, com um rpido movimento circular das
pernas, atingiu as pernas de Alda e derrubou o garoto
maior na grama. Mas eles eram trs, e Will no podia en-
frent-los ao mesmo tempo. Ele escapou de Alda e Bryn,
mas, quando completou o movimento e se levantou, Je-
rome o atacou com a bengala, atingindo as suas costas na
altura dos ombros.
       Com um grito de dor e susto, Will cambaleou para
a frente. Bryn deu novo impulso  bengala e bateu nele de
lado. Nesse momento, Alda j tinha recuperado o equil-
brio, furioso com a forma como Will tinha escapado, e
tambm o golpeou nos ombros.
       A dor era insuportvel e, com um soluo de agonia,
Will caiu de joelhos.
       No mesmo instante, os trs aprendizes da Escola
de Guerra se aproximaram e o cercaram, impedindo que
fugisse, erguendo as pesadas bengalas para continuar a
surra.
       -- J chega!
       A voz inesperada fez que parassem. Will, encolhido
no cho com a cabea coberta por um brao, esperando
que o ataque comeasse, olhou para cima e viu Horace,
contundido e machucado, parado a alguns metros de dis-
tncia. Ele segurava uma das espadas de exerccio da Es-
cola de Guerra na mo direita. Um de seus olhos estava
preto e havia sangue escorrendo do seu lbio. Mas seu o-
lhar mostrava um dio e uma determinao que, por um
momento, fez os trs garotos mais velhos hesitarem. En-
to eles lembraram que eram maioria e que a espada de
Horace no era, afinal, uma arma melhor do que as ben-
galas que usavam. Esquecendo Will por um instante, abri-
ram o crculo e se moveram na direo de Horace com as
bengalas prontas para o ataque.
       -- O beb nos seguiu -- Alda disse.
       -- O beb quer outra surra -- Jerome acrescentou.
       -- E o beb vai ter o que quer -- Bryn concluiu,
sorrindo com confiana.
       Mas ento um grito de medo foi arrancado de seus
lbios quando uma fora repentina e incontrolvel atingiu
a bengala, arrancando-a de sua mo e fazendo-a voar para
o cho a vrios metros de distncia.
       Um grito parecido  sua direita lhe disse que a
mesma coisa tinha acontecido com Jerome.
       Confuso, Bryn olhou  sua volta e procurou as duas
bengalas. Com uma sensao de desespero, viu que ti-
nham sido atravessadas por flechas de haste preta.
       -- Acho que um de cada vez  mais justo, no ?
-- Halt perguntou.
       Bryn e Jerome sentiram-se invadidos pelo terror
quando olharam para cima e viram o rosto carrancudo do
arqueiro parado nas sombras, a 10 metros de distncia,
com outra flecha j posicionada na corda do comprido
arco.
       Apenas Alda mostrou algum sinal de rebeldia.
       -- Isso  assunto da Escola de Guerra, arqueiro --
ele disse, tentando resolver a situao com um tom amea-
ador. --  melhor voc ficar de fora.
       Will, levantando-se vagarosamente, viu a raiva que
queimava no fundo dos olhos de Halt diante daquelas pa-
lavras arrogantes. Por um momento, quase sentiu pena de
Alda, mas ento a dor lancinante nas costas e nos ombros
fez que quaisquer pensamentos de simpatia fossem afas-
tados no mesmo instante.
       -- Assunto da Escola de Guerra, garoto? -- Halt
disse numa voz perigosamente baixa.
       Ele deu um passo  frente, cobrindo a distncia que
o separava de Alda com alguns passos rpidos. Antes que
Alda se desse conta, Halt estava a menos de 1 metro dele.
Mesmo assim, o aprendiz continuou com sua atitude de-
safiadora. O olhar sombrio no rosto de Halt era pertur-
bador, mas, de onde estava, Alda concluiu que era bem
mais alto que o arqueiro, e sua confiana voltou. O ho-
mem misterioso que agora estava  sua frente sempre o
deixara inquieto. Alda nunca tinha percebido que figura
insignificante ele era na realidade.
       Esse foi o segundo erro do rapaz naquele dia. Halt
era pequeno, mas insignificante no era uma palavra que
se aplicava a ele. Alm disso, Halt tinha passado a vida
toda lutando contra adversrios muito mais perigosos do
que um aprendiz do 2 ano da Escola de Guerra.
       -- Parece que eu vi um aprendiz de arqueiro sendo
atacado -- Halt disse numa voz perigosamente baixa. --
Acho que isso faz a coisa ser assunto meu tambm, no
concorda?
       Alda deu de ombros confiante de que agora poderia
lidar com qualquer atitude que o arqueiro fosse tomar.
       -- Se quer que seja assunto seu, tudo bem -- ele
respondeu em tom zombeteiro. -- Eu realmente no me
importo.
       Halt balanou a cabea vrias vezes enquanto dige-
ria aquelas palavras.
       -- Bem, ento acho que esse assunto  meu, sim,
mas no vou precisar disto -- ele respondeu, recolocando
a flecha na aljava e jogando o arco para o lado enquanto
se virava para trs.
       Inadvertidamente, os olhos de Alda seguiram os
movimentos do arqueiro, e o rapaz sentiu uma dor lanci-
nante quando Halt deu um chute para trs e atingiu o p
do aprendiz com sua bota, ferindo-o entre o tornozelo e a
canela. Quando Alda se dobrou para agarrar o p machu-
cado, o arqueiro girou sobre o calcanhar esquerdo e atin-
giu o nariz do aprendiz com o cotovelo. O golpe o jogou
para cima novamente e o fez cambalear para trs, com os
olhos marejados por causa da dor. Durante alguns segun-
dos, a viso de Alda ficou embaada e ele sentiu uma leve
sensao de formigamento debaixo do queixo. Quando
voltou a enxergar, viu que os olhos do arqueiro estavam
somente a alguns centmetros dos seus. No havia raiva
neles, apenas desprezo e descaso que, de certa forma, e-
ram muito mais assustadores.
       A sensao de formigamento ficou um pouco mais
pronunciada e, quando tentou olhar para baixo, Alda aba-
fou um grito de medo. A faca maior de Halt, afiada e com
uma ponta de agulha, estava encostada em seu queixo e
pressionava levemente a carne macia de sua garganta.
       -- Nunca mais fale comigo desse jeito, garoto -- o
arqueiro recomendou em voz to baixa que Alda teve que
se esforar para ouvir. -- E nunca mais ponha as mos no
meu aprendiz. Entendeu?
       Alda, esquecendo totalmente a arrogncia e com o
corao saltando de pavor, no conseguiu dizer nada. A
faca espetou sua garganta com um pouco mais de fora, e
ele sentiu um fio quente de sangue escorrer por seu cola-
rinho. De repente, os olhos de Halt faiscaram como bra-
sas numa lareira.
       -- Entendeu?
       -- Sim... senhor -- Alda grunhiu em resposta.
       Halt deu um passo para trs, guardando a faca na
bainha num movimento rpido. Alda caiu no cho, mas-
sageando o tornozelo dolorido. Ele tinha certeza de que
tinha rompido os tendes. Ignorando-o, Halt se virou pa-
ra os outros dois aprendizes do 2 ano. Instintivamente,
tinham se aproximado um do outro e estavam olhando
para o arqueiro assustados, sem saber o que ele faria em
seguida.
       -- Voc -- ele disse, apontando para Bryn num
tom cheio de desprezo --, pegue sua bengala.
       Com medo, Bryn foi at onde estava a bengala. A
flecha de Halt ainda estava enterrada na madeira. Sem tirar
os olhos do arqueiro, temendo algum truque, ele caiu de
joelhos e procurou a bengala na grama com a mo at
encontr-la. Em seguida se levantou, segurando-a com a
mo esquerda trmula.
       -- Agora me devolva a flecha -- o arqueiro orde-
nou.
       O garoto alto e moreno tirou a flecha da madeira
com dificuldade e se aproximou de Halt com todos os
msculos tensos, pois esperava algum movimento inespe-
rado por parte do arqueiro. Ele, no entanto, simplesmente
pegou a flecha e a colocou na aljava. Bryn se afastou a-
pressado, e Halt soltou um leve riso de desprezo. Ento se
virou para Horace.
       -- Imagino que esses trs foram os responsveis
pelos seus hematomas.
       Horace no respondeu por um momento, e ento
se deu conta de que seu silncio era ridculo. No havia
motivo para continuar a proteger os trs valentes. Nunca
tinha havido um motivo.
       -- Sim, senhor -- disse determinado. Halt assentiu,
esfregando o queixo.
       -- Foi o que pensei. Bem, ouvi dizer que voc 
muito bom com a espada. Que tal praticar com esse heri
na minha frente?
       Um leve sorriso se espalhou no rosto de Horace
quando ele entendeu o que o arqueiro estava sugerindo.
       -- Acho que vou gostar disso -- ele disse, andando
para a frente.
       -- Espere um momento! -- Bryn protestou recu-
ando. -- Voc no pode querer que eu...
       Ele no continuou. Os olhos do arqueiro cintilaram
outra vez com aquela luz perigosa. Ele deu meio passo
para a frente e colocou a mo no cabo da faca.
       -- Vocs dois tem uma arma. Agora, podem co-
mear -- ele mandou com a voz muito baixa e perigosa.
       Percebendo que estava numa armadilha, Bryn se
virou para encarar Horace. Agora que se tratava de um
confronto individual, ele se sentia muito menos confiante
para lidar com o garoto mais jovem. Todos tinham ouvido
falar da fantstica habilidade de Horace com a espada.
       Decidindo que o ataque seria a melhor defesa, Bryn
deu um passo  frente e preparou-se para dar um golpe
por cima da cabea de Horace, mas o aprendiz desviou
dele com facilidade. Horace escapou dos dois golpes se-
guintes de Bryn da mesma forma e ento, ao bloquear o
quarto ataque do garoto mais velho, escorregou a sua l-
mina de madeira ao longo da bengala do outro rapaz um
instante antes de as duas armas se separarem. No havia
nenhuma cruzeta para proteger a mo de Bryn do movi-
mento, e a espada dura atingiu os seus dedos, provocando
muita dor. Com um grito agoniado, ele deixou cair a ben-
gala pesada, saltou para trs e escondeu a mo ferida de-
baixo do brao. Horace ficou parado, pronto para reco-
mear.
       -- Eu no ouvi ningum pedir para parar -- Halt
disse com suavidade.
       -- Mas... ele me desarmou! -- Bryn choramingou.
       --  mesmo. Mas tenho certeza de que ele vai dei-
xar voc pegar sua arma e recomear -- Halt disse com
um sorriso. -- Vamos, continue.
       Bryn olhou de Halt para Horace e no viu compai-
xo no olhar dos dois.
       -- No quero -- ele disse baixinho.
       Horace achou difcil reconhecer naquela figura en-
colhida o valento arrogante que tinha transformado sua
vida num inferno nos ltimos meses. Halt pareceu pensar
na declarao de Bryn.
       -- Vamos levar seu protesto em conta -- ele disse
alegremente. -- Agora, continue, por favor.
       A mo de Bryn latejava. Mas at mesmo pior do
que a dor era o medo do que estava para acontecer, a cer-
teza de que Horace iria castig-lo sem piedade. Ele se in-
clinou e, assustado, pegou a bengala com os olhos fixos
no outro garoto. Horace esperou pacientemente at que
Bryn estivesse pronto e ento fez um repentino movi-
mento para a frente.
       Bryn gritou de medo e jogou a bengala para o lado.
Horace sacudiu a cabea aborrecido.
       -- Quem  o beb agora? -- ele perguntou.
       Bryn desviou o olhar e se encolheu envergonhado.
       -- Se ele vai bancar o beb -- Halt sugeriu --, a-
cho que voc vai ter que dar umas palmadas nele.
       Um sorriso se espalhou no rosto de Horace. Ele
deu um pulo para a frente, agarrou Bryn pela nuca e o vi-
rou. Em seguida, bateu na traseira do garoto com a espada
de exerccio repetidas vezes e seguiu-o pela clareira quan-
do tentou escapar do castigo impiedoso. Bryn uivava, sal-
tava e soluava, mas Horace o segurava com firmeza pelo
colarinho, e no havia como escapar. Finalmente, quando
sentiu que tinha retribudo as provocaes, os insultos e a
dor que tinha sofrido, Horace parou.
        Bryn cambaleou e caiu com as mos e os joelhos no
cho, soluando de dor e medo.
        Jerome tinha assistido horrorizado ao acontecido,
sabendo que logo seria sua vez. Ele comeou a se afastar,
tentando escapar enquanto o arqueiro estava distrado.
        -- D mais um passo e vou furar voc com uma
flecha.
        Will tentou usar o mesmo tom de voz calmo e a-
meaador de Halt. Ele havia tirado vrias de suas flechas
do alvo mais prximo e agora tinha uma delas preparada,
apoiada na corda do arco. Halt declarou com ar de apro-
vao:
        -- Boa idia. Mire na barriga da perna esquerda. O
ferimento  muito doloroso.
        Ele olhou para onde Bryn estava deitado, soluan-
do aos ps de Horace.
        -- Acho que ele j teve o que merecia -- comen-
tou, apontando ento o dedo para Jerome.
        -- Sua vez -- ele disse apenas.
        Horace pegou a bengala que Bryn tinha deixado ca-
ir, andou at Jerome e estendeu-a para ele. Jerome recuou.
        -- No! -- Jerome gritou de olhos arregalados. --
No  justo! Ele...
       -- Ora, claro que no  justo -- Halt concordou
num tom tranquilo. -- Imagino que voc ache que trs
contra um  justo. Agora, vamos comear.
       Muitas vezes, Will tinha ouvido o ditado que dizia
que um rato encurralado acaba reagindo. Jerome provou
que era verdade. Ele partiu para o ataque e, para sua sur-
presa, Horace recuou diante da chuva de golpes dirigidos
a ele. A confiana do valento comeou a crescer  medi-
da que ele avanava, mas no percebeu que Horace blo-
queava todos os golpes com muita facilidade, quase com
desprezo. Os melhores golpes de Jerome nem chegavam
perto de derrubar a defesa de Horace. Se o aprendiz do 2
ano estivesse batendo numa parede de pedra, o resultado
seria o mesmo.
       Ento, Horace parou de recuar. Ficou firme e blo-
queou o ltimo golpe de Jerome com punho de ferro. Os
dois ficaram frente a frente por alguns segundos, e Horace
comeou a empurrar Jerome para trs. Com a mo es-
querda, agarrou o punho direito de Jerome, fazendo que
suas armas ficassem entrelaadas. Os ps de Jerome es-
corregaram na grama macia  medida que Horace o obri-
gava a andar cada vez mais para trs. Finalmente, ele deu
um ltimo empurro e Jerome caiu estendido no cho.
       Jerome viu o que tinha acontecido com Bryn e sa-
bia que se render no era uma opo. Ele se levantou com
dificuldade e se defendeu desesperadamente quando Ho-
race comeou o ataque. Jerome foi empurrado para trs
por uma sucesso de cortadas  direita,  esquerda e para
cima. Ele conseguiu bloquear alguns dos golpes, mas a
velocidade extraordinria do ataque de Horace o derrotou.
Os golpes aterrissavam nas suas pernas, nos seus cotove-
los e nos seus ombros. Horace parecia se concentrar nos
ossos que iriam doer mais. Ocasionalmente, usava a ponta
arredondada da espada para dar estocadas nas costelas de
seu oponente -- com fora apenas suficiente para ma-
chucar, sem quebrar os ossos.
        Finalmente, Jerome ficou farto. Ele desviou do a-
taque, soltou a bengala e caiu no cho, protegendo a ca-
bea com as mos. As costas estavam levantadas convida-
tivamente no ar. Horace parou e olhou interrogativamente
para Halt. O arqueiro fez um leve gesto na direo de Je-
rome.
        -- Por que no? -- ele perguntou. -- No se tem
uma oportunidade dessas todos os dias.
        Mas at ele se encolheu diante do chute forte que
Horace deu no traseiro de Jerome. Este, com o nariz na
terra, escorregou pelo menos 1 metro para a frente.
        Halt recolheu a bengala que Jerome tinha deixado
cair. Ele a observou por um instante, testando seu peso e
equilbrio.
        -- Realmente no  uma boa arma -- ele disse. --
Por que ser que eles escolheram essa? -- perguntou, jo-
gando-a para Alda. -- Mexa-se.
        O garoto loiro, ainda agachado na grama cuidando
do tornozelo machucado, olhou descrente para a bengala.
O rosto estava manchado pelo sangue que escorria do na-
riz ferido. Ele nunca mais teria a mesma boa aparncia.
        -- Mas... mas... estou ferido! -- ele protestou, le-
vantando-se desajeitado.
        Ele no acreditava que Halt estava exigindo que
enfrentasse o mesmo castigo a que tinha acabado de assis-
tir.
        Halt pensou por um instante. Por um momento,
um raio de esperana brilhou na mente de Alda.
        --  verdade -- o arqueiro concordou. --  ver-
dade -- ele murmurou, parecendo um pouco desaponta-
do, e Alda comeou a acreditar que o senso de justia de
Halt iria poup-lo do castigo que seus amigos tinham so-
frido. Ento o rosto do arqueiro se iluminou.
        -- Mas espere um minuto... Horace tambm est
ferido. No  mesmo, Will?
        -- Com certeza, Halt -- Will respondeu sorrindo, e
a esperana de Alda desapareceu no mesmo instante.
        -- Voc tem certeza de que no est ferido demais
para continuar, Horace? -- Halt perguntou, fingindo pre-
ocupao.
        -- Ah, acho que dou conta do recado -- Horace
respondeu com um sorriso frio.
        -- Bom, ento est combinado! -- Halt disse ale-
gre. -- Vamos continuar!
        E Alda soube que ele tambm no teria escapatria.
Enfrentou Horace com determinao, e o duelo final co-
meou.
       Alda era o melhor espadachim dos trs rapazes e,
durante alguns minutos, chegou a dar um pouco de traba-
lho para Horace. Mas,  medida que se estudavam com
golpes e contragolpes, ataques e defesas, percebeu que
Horace era superior e sentiu que sua nica chance era
tentar algo inesperado.
       Ele se separou do oponente, mudou a posio da
bengala e a segurou com as duas mos como se fosse um
varapau. Em seguida, desferiu uma srie de golpes rpidos
para a direita e para a esquerda.
       Durante um segundo, Horace foi apanhado de sur-
presa e caiu para trs. Mas ele se recuperou com uma ve-
locidade felina e dirigiu um golpe por cima da cabea de
Alda. O aluno do 2 ano tentou um contragolpe normal-
mente usado com o varapau, segurando a bengala nas du-
as pontas para bloquear o golpe da espada com a parte
central. Na teoria, a ttica estava correta. Na prtica, a du-
ra espada de madeira simplesmente atravessou a bengala, e
Alda ficou segurando duas varas inteis. Totalmente desa-
nimado, ele as deixou cair e ficou indefeso na frente de
Horace.
       Horace olhou para o seu torturador de longa data e
depois para a espada em sua mo.
       -- No preciso disto -- ele murmurou e deixou a
espada cair.
       O soco de direita que ele desferiu sobre o maxilar
de Alda foi impulsionado pelo ombro, pelo peso do corpo
e por meses de sofrimento e solido -- a solido que so-
mente a vtima de maus-tratos conhece.
        Will arregalou levemente os olhos quando Alda se
levantou, cambaleou para trs e finalmente desabou na
terra ao lado dos dois amigos. Ele se lembrou das vezes
em que tinha lutado com Horace no passado. Se soubesse
que o colega era capaz de dar um soco daqueles, nunca
teria se metido com ele.
        Alda no se mexeu e provavelmente no se moveria
por muito tempo. Horace recuou, sacudindo os dedos
machucados e soltando um suspiro satisfeito.
        -- Voc no tem idia de como isso foi bom -- ele
disse. -- Graas a voc, arqueiro.
        Halt balanou a cabea compreensivo.
        -- Obrigado por ajudar quando atacaram Will. E,
por falar nisso, meus amigos me chamam de Halt.
Nas semanas que se seguiram a esse confronto final com
os trs valentes, Horace percebeu uma mudana defini-
tiva na vida na Escola de Guerra.
        O fator mais importante na mudana foi que Alda,
Bryn e Jerome foram expulsos da escola, do castelo e da
vila vizinha. Sir Rodney estava desconfiado, fazia algum
tempo, de que havia um problema entre as turmas de seus
alunos mais novos. Uma visita discreta de Halt confirmou
o problema, e a investigao resultante logo trouxe  tona
toda a histria de como Horace tinha sido maltratado. O
julgamento de sir Rodney foi rpido e inflexvel. Os trs
alunos do 2 ano tiveram meio dia para fazer as malas.
Eles receberam uma pequena quantia em dinheiro, supri-
mentos para uma semana e foram transportados para a
fronteira do feudo, onde receberam ordens claras para no
voltar.
        Depois que foram embora, o grupo de Horace me-
lhorou consideravelmente. A rotina diria da Escola de
Guerra ainda era dura e desafiadora como antes, mas, sem
a carga adicional que Alda, Bryn e Jerome colocavam so-
bre ele, Horace descobriu que podia lidar facilmente com
os exerccios, a disciplina e os estudos. Rapidamente, co-
meou a desenvolver o potencial que sir Rodney tinha
visto nele. Alm disso, seus colegas de quarto, sem medo
de ser vtimas da vingana dos valentes, comearam a ser
mais agradveis e amistosos.
       Em resumo, Horace sentia que as coisas estavam
realmente melhorando.
       Ele s lamentava no ter podido agradecer adequa-
damente a Halt por sua vida ter melhorado. Depois dos
acontecimentos na campina, Horace tinha ficado interna-
do na enfermaria durante vrios dias para tratamento dos
hematomas e das contuses. Quando foi liberado, desco-
briu que Halt e Will j tinham partido para a Reunio dos
Arqueiros.
       -- Falta muito? -- Will perguntou, talvez pela d-
cima vez naquela manh.
       Halt soltou um leve suspiro de desespero, mas no
deu nenhuma resposta. Eles estavam na estrada havia trs
dias, e Will achava que deveriam estar perto do local da
Reunio. Por vrias vezes na ltima hora, ele tinha sentido
um cheiro desconhecido no ar e mencionado o fato para
Halt.
       --  sal. Estamos chegando perto do mar -- Halt
mencionou brevemente, encerrando a explicao por ali.
       Will olhou de relance para o seu professor, espe-
rando que talvez ele se dignasse a lhe dar mais informa-
es, mas os olhos vivos do arqueiro estavam examinando
o cho na frente deles. Will percebeu que, de tempos em
tempos, Halt olhava para as rvores que cercavam a es-
trada.
       -- Voc est procurando alguma coisa? -- Will
perguntou, e Halt se virou na sela.
       -- Finalmente, uma pergunta til. Sim, na verdade,
estou. O chefe dos arqueiros colocou sentinelas ao redor
do local da Reunio. Eu sempre tento engan-los quando
estou me aproximando.
       -- Por qu? -- Will perguntou, e Halt permitiu-se
dar um leve sorriso.
       -- Isso os mantm ocupados -- ele explicou. --
Eles vo tentar se esconder atrs de ns e nos seguir para
poder dizer que me pegaram numa emboscada.  um jogo
bobo que gostam de jogar.
       -- Por que bobo?
       O que faziam se parecia exatamente com os exerc-
cios de habilidades que ele e Halt realizavam regularmen-
te. O arqueiro grisalho virou-se na sela e olhou fixamente
para Will.
       -- Por que eles nunca conseguem me pegar -- ele
respondeu. -- E neste ano vo tentar ainda com mais
vontade porque sabem que estou trazendo um aprendiz.
Querem saber se voc  mesmo bom.
       -- Isso faz parte do teste? -- Will quis saber, e
Halt assentiu.
       --  o comeo. Voc se lembra do que eu falei
ontem  noite? Will fez que sim com a cabea. Nas duas
noites anteriores, quando estavam ao redor da fogueira,
Halt tinha dado conselhos e instrues para Will com sua
voz macia e o tinha ensinado como agir na Reunio. Na
noite passada, eles arquitetaram tticas para serem usadas
no caso de uma emboscada. Exatamente o tipo de coisa
que Halt tinha acabado de mencionar.
        -- Quando ns... -- Halt comeou, mas de repente
ficou alerta. Ele levantou um dedo num pedido de siln-
cio, e Will o obedeceu.
        A cabea do arqueiro estava levemente inclinada
para o lado. Os dois cavalos continuaram sem hesitar.
        -- Escutou? -- Halt perguntou.
        Will tambm inclinou a cabea. Ele teve a ligeira
impresso de ouvir um leve barulho de cascos de cavalos
atrs deles, mas no tinha certeza. O andar dos cavalos
deles mascarava qualquer som real vindo da trilha s suas
costas. Se havia algum ali, seu cavalo estava trotando no
mesmo ritmo.
        -- Mude a marcha -- Halt sussurrou. -- No trs.
Um, dois, trs. Ao mesmo tempo, os dois cutucaram as
laterais dos cavalos com o p esquerdo. Aquele era s um
dos muitos sinais aos quais Puxo e Abelard tinham sido
treinados para responder.
        No mesmo instante, os dois cavalos hesitaram em
sua passada. Pareceram pular um passo e depois continu-
aram com passadas uniformes.
        Mas a hesitao tinha mudado o padro das batidas
dos cascos e, por um instante, Will pde ouvir outro con-
junto de cascos de cavalo atrs deles como um eco leve-
mente atrasado. Ento o outro cavalo tambm mudou o
ritmo das passadas para ficar igual aos deles e o som de-
sapareceu.
        -- Cavalo de arqueiro -- Halt disse em voz baixa.
-- Tenho certeza de que  Gilan.
        -- Como voc sabe? -- Will perguntou.
        -- S o cavalo de um arqueiro pode mudar a pas-
sada to depressa. E  Gilan, porque  sempre ele. Ele a-
dora tentar me superar.
        -- Por qu? -- Will perguntou, e Halt olhou para
ele srio.
        -- Porque ele foi o meu ltimo aprendiz -- expli-
cou. -- E, por algum motivo, antigos aprendizes sim-
plesmente adoram pegar seus antigos mestres despreve-
nidos.
        Ele olhou de um jeito acusador para o seu aprendiz
atual. Will ia protestar e dizer que nunca iria se comportar
daquela maneira depois de formado e ento se deu conta
de que talvez fizesse isso na primeira oportunidade. O
protesto morreu sem ser manifestado.
        Halt pediu silncio com um sinal e examinou a tri-
lha diante deles.
        --  aquele lugar ali -- ele apontou. -- Pronto?
        Havia uma grande rvore ao lado da trilha, com
galhos que pendiam na altura da cabea deles. Will anali-
sou-a por um momento e ento as sentiu. Puxo e Abe-
lard continuaram no seu ritmo regular em direo  rvo-
re. Quando se aproximaram, Will tirou os ps dos estri-
bos, levantou-se e ficou agachado nas costas de Puxo. O
cavalo no mudou o ritmo das passadas quando seu dono
mudou de posio.
       Ao passarem debaixo dos galhos, Will segurou o
mais baixo com a mo e pendurou-se nele. No mesmo
instante em que seu peso saiu das costas de Puxo, o pe-
queno cavalo comeou a trotar mais vigorosamente, ba-
tendo os cascos com fora no cho a cada passo para que
o rastreador que os seguia no percebesse que sua carga
tinha ficado mais leve de repente.
       Em silncio, Will subiu mais alto na rvore at en-
contrar um ponto em que pudesse se apoiar com firmeza
e enxergar bem. Ele viu Halt e os dois cavalos andando
devagar pela trilha.
       Quando chegaram  curva seguinte, Halt fez que
Puxo continuasse trotando, parou Abelard e desceu da
sela. Ele se ajoelhou e pareceu examinar o cho em busca
de pegadas.
       Naquele momento, Will conseguiu ouvir o outro
cavalo atrs deles. Ele olhou para o caminho que tinham
percorrido, mas outra curva escondia quem os seguia.
       Ento, o suave bater dos cascos parou.
       A boca de Will estava seca, e seu corao batia cada
vez mais rpido dentro do peito. Ele tinha certeza de que
o som podia ser ouvido por qualquer pessoa num raio de
cerca de 50 metros. Mas seu treinamento falou mais alto, e
ele ficou imvel no galho da rvore entre as folhas e som-
bras, observando a trilha atrs deles.
        Um movimento!
        Will o viu com o canto do olho, e ento o movi-
mento parou. Ele espiou o local com ateno durante um
ou dois segundos e se lembrou das lies de Halt: "No
concentre sua ateno num lugar. Deixe o foco aberto e
continue investigando. Voc vai ver o outro como um
movimento, no como uma figura. Lembre-se, ele tam-
bm  um arqueiro e foi treinado na arte de no ser visto."
        Will abriu o foco e examinou a floresta atrs deles.
Dentro de segundos, foi recompensado com outro sinal
de movimento. Um galho voltou ao lugar quando uma fi-
gura invisvel passou silenciosamente.
        Ento, 10 metros adiante, um arbusto se agitou de
leve. Em seguida, ele viu um feixe de grama alta voltar ao
normal depois de ter sido amassado temporariamente por
um p que passou.
        Will continuou imvel como uma esttua. Ele ficou
admirado com o fato de que seu perseguidor conseguia
andar pela floresta sem ser visto. Obviamente, o outro
arqueiro tinha deixado o cavalo para trs e estava seguindo
Halt a p. Os olhos de Will se mexeram rapidamente para
dar uma olhada em Halt. Seu professor ainda parecia estar
preocupado com algum tipo de sinal no cho.
        Outro movimento veio da floresta. O arqueiro invi-
svel tinha passado pelo esconderijo de Will e estava vol-
tando para a trilha com a inteno de surpreender Halt
pelas costas.
        De repente, uma figura alta de capa cin-
za-esverdeado pareceu sair do cho no meio da trilha uns
20 metros atrs do vulto ajoelhado de Halt. Will piscou.
Num momento, no havia ningum ali; no outro, a figura
pareceu se materializar do nada. A mo de Will comeou a
se mover na direo da aljava pendurada em suas costas,
mas ento ele interrompeu o movimento. Halt tinha dito
na noite anterior: "Espere at que estejamos conversando.
Se ele no estiver falando, vai escutar o menor movimento
que voc fizer."
        Will engoliu em seco e desejou que a figura alta no
tivesse escutado o movimento de sua mo na direo da
aljava. E ele parecia ter parado a tempo. Ouviu uma voz
alegre aos gritos vinda l de baixo.
        -- Halt, Halt!
        Halt se virou e se levantou devagar, limpando a
terra dos joelhos enquanto se erguia. Ele inclinou a cabea
para o lado e analisou o vulto no meio da trilha, apoiado
num arco comprido igual ao dele.
        -- Ora, Gilan. Vejo que voc est pregando a
mesma pea.
        -- Parece que a pea est sendo pregada em voc
este ano, Halt -- o alto arqueiro respondeu, dando de
ombros.
       Enquanto Gilan falava, a mo de Will se moveu ra-
pidamente, mas em silncio, para a aljava. Ele escolheu
uma flecha e a posicionou na corda do arco.
       --  mesmo, Gilan? E que pea  essa? -- Halt
perguntou.
       O divertimento era evidente na voz de Gilan
quando respondeu ao antigo mestre.
       -- Ora, Halt, admita. Desta vez consegui superar
voc. E voc sabe h quantos anos venho tentando!
       Pensativo, Halt esfregou a barba grisalha com a
mo.
       -- E, para falar a verdade, eu me pergunto por que
voc continua tentando, Gilan.
       -- Voc devia saber quanto prazer um antigo a-
prendiz tem ao superar o mestre, Halt. Agora, vamos l,
confesse. Este ano eu venci.
       Enquanto o homem alto falava, Will puxou a flecha
com cuidado, mirando o tronco de uma rvore uns 2 me-
tros  esquerda de Gilan. As instrues de Halt ecoavam
em seus ouvidos: "Escolha um alvo prximo para assus-
t-lo quando atirar, mas, pelo amor de Deus, no perto
demais. No v atravess-lo com a flecha!"
       Halt no tinha mudado de posio no meio da tri-
lha. Gilan agora estava inquieto, passando o peso do cor-
po de uma perna para outra. A atitude tranquila de Halt
estava comeando a perturb-lo. Parecia que, de repente,
ele no estava totalmente certo de que Halt estava so-
mente tentando blefar para escapar da armadilha.
       As prximas palavras de Halt aumentaram suas
suspeitas.
       -- Ah, sim... aprendizes e mestres.  verdade, eles
formam uma combinao estranha. Mas, diga, Gilan, meu
velho aprendiz, voc no est esquecendo nada este ano?
       Talvez tenha sido o jeito como Halt deu um pouco
mais de nfase  palavra "aprendiz", mas de repente Gilan
percebeu que tinha cometido um erro. Ele comeou a vi-
rar a cabea e a procurar o aprendiz de que tinha se es-
quecido.
       Quando comeou o movimento, Will soltou a fle-
cha.
       A arma sibilou pelo ar, passou pelo alto arqueiro e
penetrou, estremecendo, na rvore que Will tinha esco-
lhido. Gilan deu um pulo para trs assustado e ento seu
olhar saltou para os galhos da rvore onde Will estava es-
condido. Este se admirou com o fato de que, mesmo
tendo sido pego de surpresa, Gilan ainda tenha consegui-
do reagir to rapidamente e identificar a direo de onde o
atacante tinha atirado.
       Gilan balanou a cabea aborrecido. Seus olhos es-
pertos conseguiram ver o pequeno vulto cinza e verde
escondido nas sombras da folhagem da rvore.
       -- Desa, Will -- Halt chamou. -- Venha conhe-
cer Gilan. E para este:
       -- Eu lhe disse quando voc era garoto, no foi?
Nunca seja apressado. No corra para fazer as coisas.
        Gilan assentiu um tanto desanimado. E pareceu
ainda mais abatido quando Will pulou no cho e o alto
arqueiro viu como ele era pequeno e jovem.
        -- Parece que eu estava to determinado a apanhar
uma velha raposa cinzenta que ignorei o pequeno macaco
escondido nas rvores -- ele disse rindo do prprio erro.
        -- Macaco? -- Halt repetiu com aspereza. -- Eu
diria que hoje o macaco foi voc. Will, este  Gilan, meu
antigo aprendiz e agora arqueiro do feudo Meric, embora
eu no tenha idia do que eles tenham feito para merecer
ele l.
        O sorriso de Gilan se alargou, e ele estendeu a mo
para Will.
        -- E exatamente quando eu estava pensando que
finalmente tinha vencido voc, Halt -- ele disse contente.
-- Ento voc  Will -- continuou, apertando a mo do
garoto com firmeza. -- Estou satisfeito em conhecer vo-
c. Esse foi um excelente trabalho, meu jovem.
        Will sorriu para Halt, e o arqueiro mais velho fez
um leve movimento significativo com a cabea. Will se
lembrou das instrues finais que Halt tinha lhe dado na
noite anterior: "Quando voc superar um homem, nunca
se vanglorie. Seja generoso e encontre alguma coisa nas
aes dele para elogiar. Ele no vai gostar de ser vencido,
mas vai enfrentar o fato com coragem. Mostre que voc
gostou do que ele fez. Elogios podem lhe conseguir um
amigo. Divertir-se com a desgraa dos outros s cria ini-
migos."
       -- Sim, sou Will. Ser que voc pode me ensinar
como consegue se mover desse jeito? Foi timo.
       -- Acho que nem tanto -- Gilan retrucou rindo
desanimado. --  bvio que voc me viu chegando de
longe.
       Will balanou a cabea negativamente, lembran-
do-se de como tinha sido difcil ver Gilan. Seu elogio e
seu pedido eram mais verdadeiros do que tinha percebido.
       -- Vi quando voc chegou -- ele disse. -- E vi
onde voc tinha estado, mas nunca vi voc depois que fez
aquela curva. Gostaria de saber me mover assim.
       O rosto de Gilan se iluminou de prazer diante da
sinceridade de Will.
       -- Bom, Halt, vejo que esse jovem rapaz no tem
s talento. Ele tambm  muito educado.
       Halt olhou para os dois, o atual aprendiz e o antigo
aluno. Ele acenou para Will com a cabea, aprovando suas
palavras diplomticas.
       -- Movimentar-se como um ser invisvel sempre
foi a melhor habilidade de Gilan -- Halt disse. -- Voc se
daria bem se ele concordasse em lhe dar umas aulas.
       Ele foi at o ex-aprendiz e colocou o brao ao re-
dor de seus ombros.
       --  bom ver voc de novo.
       Eles se abraaram com afeto, e ento Halt se afas-
tou um pouco e o observou com ateno.
       -- Voc fica mais magro a cada ano -- ele disse fi-
nalmente. -- Quando vai pr alguma carne em cima des-
ses ossos?
       Gilan sorriu e ficou evidente que aquela era uma
velha piada entre eles.
       -- Parece que voc tem o suficiente para ns dois
-- o rapaz retrucou, cutucando as costelas de Halt com
fora. -- Esse  o comeo de uma barriguinha de cerveja?
       Ele riu para Will.
       -- Acho que ele fica sentado na cabana e deixa vo-
c fazer todo o trabalho, no ?
       Antes que Halt ou Will pudessem responder, ele se
virou e soltou um assobio. Alguns segundos depois, seu
cavalo apareceu, trotando pela curva na estrada. Quando o
jovem arqueiro foi at o animal e montou na sela, Will
notou uma espada que pendia da bainha. Ele se virou para
Halt confuso.
       -- Pensei que no podamos ter espadas -- ele
comentou em voz baixa.
       Halt franziu a testa por um momento, sem com-
preender. Ento seguiu o olhar de Will e percebeu o que
tinha provocado o comentrio.
       -- No  que no tenhamos permisso -- ele ex-
plicou enquanto os dois montavam. --  uma questo de
prioridades. Leva anos para se tornar um bom espada-
chim, e no temos esse tempo. Temos outras habilidades
para desenvolver.
       Ele viu a prxima pergunta se formando nos lbios
de Will e continuou.
       -- O pai de Gilan  um cavaleiro, ento ele j vinha
treinando com a espada durante alguns anos antes de se
juntar aos arqueiros. Foi considerado um caso especial e
teve permisso de continuar esse treinamento quando foi
meu aprendiz.
       -- Mas pensei... -- Will comeou e hesitou.
       O cavalo de Gilan se aproximava trotando, e Will
no tinha certeza de que seria educado fazer a prxima
pergunta na presena de Gilan.
       -- Nunca diga isso na frente de Halt -- Gilan dis-
se, ouvindo suas ltimas palavras. -- Ele simplesmente vai
dizer: "Voc  um aprendiz, no est aqui para pensar" ou
"Se voc tivesse pensado nisso, no iria perguntar."
       Will teve que sorrir. Halt tinha usado exatamente as
mesmas palavras em mais de uma ocasio, e a imitao de
Gilan era excelente. Naquele momento, contudo, os dois
homens estavam olhando para Will esperando ouvir a
pergunta que estava prestes a fazer, ento continuou.
       -- Se o pai de Gilan era um cavaleiro, ele no era
automaticamente candidato  Escola de Guerra? Ou a-
charam que ele tambm era muito pequeno?
       Halt e Gilan trocaram um olhar. Halt ergueu uma
sobrancelha e fez um gesto para que Gilan respondesse.
       -- Eu poderia ter ido para a Escola de Guerra, mas
preferi me juntar aos arqueiros -- ele contou.
       -- Alguns fazem isso -- Halt acrescentou com su-
avidade.
       Will pensou nisso. Ele sempre sups que os ar-
queiros no tinham ligao com os nobres do reino. Apa-
rentemente, estava enganado.
       -- Mas pensei... -- ele comeou e no mesmo ins-
tante percebeu seu erro.
       Halt e Gilan olharam para ele, depois um para o
outro e disseram em coro:
       -- Voc  um aprendiz, no est aqui para pensar.
Em seguida eles viraram os cavalos e saram trotando. Will
correu para pegar Puxo e os seguiu. Quando alcanou os
dois arqueiros, eles afastaram os cavalos para os lados,
deixando espao para ele. Gilan sorriu, mas Halt estava
sombrio como sempre. Porm, enquanto continuavam a
cavalgar num silncio amistoso, Will teve a reconfortante
sensao de que agora fazia parte de um grupo exclusivo e
fortemente unido.
       Era uma sensao agradvel, de estar no lugar cer-
to, como se, de alguma forma, ele tivesse chegado  sua
casa pela primeira vez na vida.
-- Aconteceu alguma coisa -- Halt disse em voz baixa,
fazendo sinal para os dois companheiros pararem os ca-
valos.
       Os trs cavaleiros haviam andado a meio galope no
ltimo meio quilmetro. Agora haviam aumentado um
pouco a velocidade, e o espao aberto entre as rvores es-
tava bem  sua frente, a cerca de 100 metros de distncia.
Pequenas barracas individuais se estendiam em filas orde-
nadas, e a fumaa das fogueiras usadas para o preparo da
comida enchia o ar. Um estande para prtica de ar-
co-e-flecha tinha sido instalado num dos lados do espao
aberto, e vrias dezenas de cavalos, todos pequenos e
desgrenhados cavalos de arqueiros, estavam pastando
perto das rvores.
       Os trs companheiros sentiram um ar de urgncia e
atividade em todo o acampamento. No centro das fileiras
de barracas, havia um pavilho maior, de 4 x 4 metros e
com altura suficiente para permitir que um homem alto
ficasse de p. Os panos laterais estavam enrolados para
cima naquele momento, e Will pde ver um grupo de
homens vestidos de verde e cinza parados ao redor de
uma mesa, aparentemente mergulhados numa conversa.
De repente, um dos membros do grupo se afastou e cor-
reu para um cavalo que esperava do lado de fora da en-
trada. Ele montou, virou o cavalo e disparou pelo acam-
pamento a galope na direo da trilha estreita entre as r-
vores do outro lado.
       Ele tinha acabado de desaparecer nas sombras
profundas debaixo das rvores quando outro cavaleiro
apareceu da direo oposta, galopando entre as fileiras e
parando fora da grande barraca. Seu cavalo mal tinha pa-
rado quando ele saltou para o cho e foi se juntar ao gru-
po do lado de dentro.
       -- O que aconteceu? -- Will perguntou. De testa
franzida, ele percebeu que vrias das pequenas barracas
estavam sendo desfeitas e enroladas por seus donos.
       -- No tenho certeza -- Halt respondeu, fazendo
um gesto na direo das fileiras de barracas. -- Veja se
consegue encontrar um bom lugar para acamparmos. Vou
ver o que est acontecendo.
       Ele fez Abelard ir para a frente, virou-se e gritou:
       -- No monte as barracas ainda. Pelo que parece,
talvez no precisemos delas.
       Os cascos de Abelard bateram com fora no cho
enquanto ele galopava na direo do centro do acampa-
mento.
       Will e Gilan encontraram um local para acampar
debaixo de uma arvore grande relativamente perto da rea
central de reunio. Depois disso, sem saber ao certo o que
fazer em seguida, eles se sentaram num tronco e espera-
ram a volta de Halt. Como um arqueiro de posio eleva-
da, Halt tinha acesso ao pavilho maior que, segundo a
explicao de Gilan, era a barraca de comando. O co-
mandante do grupo, um arqueiro chamado Crowley, se
encontrava ali com seu pessoal todos os dias para organi-
zar as atividades, bem como para conferir e avaliar os re-
latrios e as informaes que os arqueiros traziam para a
Reunio.
        Quase todas as barracas perto dos dois arqueiros
mais jovens estavam desocupadas, mas havia um arqueiro
magro e desengonado do lado de fora de uma delas, an-
dando impacientemente de um lado para outro, parecendo
to confuso quanto Gilan e Will. Ao v-los no tronco, ele
se aproximou.
        -- Alguma novidade? -- ele perguntou imediata-
mente, ficando desanimado quando ouviu a resposta de
Gilan.
        -- amos fazer a mesma pergunta -- Gilan disse,
estendendo a mo para cumprimentar o rapaz. -- Voc 
Merron, no ?
        Os dois trocaram um aperto de mo.
        -- Isso mesmo. E, se me lembro bem, voc  Gi-
lan.
        Gilan apresentou Will, e o recm-chegado, que pa-
recia ter uns 30 anos, olhou para ele curioso.
       -- Ento voc  o novo aprendiz de Halt -- ele
comentou. -- Ns estvamos querendo saber como voc
era. Eu ia ser um dos seus avaliadores.
       -- Ia ser? -- Gilan perguntou depressa.
       -- Sim -- Merron respondeu, olhando para ele. --
Duvido que a gente continue com a Reunio agora -- ele
hesitou e acrescentou: -- Quer dizer que vocs no esto
sabendo?
       Os dois recm-chegados balanaram a cabea nega-
tivamente.
       -- Morgarath est planejando alguma coisa outra
vez -- ele disse em voz baixa, e Will sentiu um calafrio na
espinha ao ouvir o nome perverso.
       -- O que aconteceu? -- Gilan perguntou atento.
       Merron sacudiu a cabea, remexendo a terra na sua
frente com a ponta da bota num gesto de frustrao.
       -- No h notcias claras ainda, apenas informa-
es incompletas. Mas parece que um exrcito de Wargals
saiu do desfiladeiro de Trs Passos h alguns dias. Eles
derrotaram as sentinelas e foram para o norte.
       -- Morgarath estava com eles? -- Gilan quis saber.
       Will ficou quieto e de olhos arregalados. Ele no
conseguia fazer perguntas, nem mesmo pronunciar o no-
me de Morgarath.
       -- No sabemos -- Merron respondeu. -- Acho
que no, nesse estgio, mas Crowley tem mandado patru-
lheiros para investigar nos ltimos dois dias. Talvez seja
apenas um ataque surpresa, mas, se for mais do que isso, 
possvel que signifique o incio de outra guerra. Se for is-
so, foi um pssimo momento para perder lorde Lorriac.
        -- Lorriac est morto? -- Gilan perguntou com
preocupao na voz, e Merron assentiu.
        -- Parece que foi um derrame ou um ataque do
corao. Ele foi encontrado morto alguns dias atrs e no
havia nenhuma marca em seu corpo. Estava olhando di-
reto para a frente. Morto e frio como pedra.
        -- Mas ele estava na sua melhor fase! -- Gilan ex-
clamou. -- Eu vi ele h somente um ms e ele estava
saudvel como um touro.
        Merron deu de ombros. Ele no tinha explicao,
somente conhecia os fatos.
        -- Acho que isso pode acontecer com qualquer um
-- ele disse. A gente nunca sabe.
        -- Quem  lorde Lorriac? -- Will perguntou para
Gilan em voz baixa.
        Pensativo, o jovem arqueiro balanou a cabea en-
quanto respondia.
        -- Lorriac de Steden. Ele era o lder da cavalaria
pesada do rei. Provavelmente nosso melhor comandante.
Como Merron disse, se houver uma guerra, sentiremos
muito a falta dele.
        A mo fria do medo pousou no corao de Will.
Toda a sua vida as pessoas falaram de Morgarath em voz
baixa, isso quando falavam dele. O Grande Inimigo tinha
quase assumido as propores de um mito: uma lenda de
tempos antigos e sombrios. Agora o mito estava se tor-
nando realidade mais uma vez. Uma realidade desafiadora
e apavorante. Ele olhou para Gilan em busca de tranquili-
dade, mas o rosto bonito do jovem arqueiro no mostrou
nada alm de dvida e preocupao em relao ao futuro.
       Halt demorou quase uma hora para se juntar a eles
outra vez. Como j passava do meio-dia, Will e Gilan ti-
nham preparado uma refeio com po, carne fria e frutas
secas. O arqueiro grisalho escorregou da sela de Abelard,
aceitou um prato de Will e comeu rapidamente.
       -- A Reunio terminou -- ele disse entre uma
mordida e outra. Ao ver a chegada do arqueiro mais velho,
Merron tinha voltado a se reunir ao grupo. Ele e Halt se
cumprimentaram rapidamente e ento Merron fez a per-
gunta que estava na mente de todos.
       --  a guerra? -- ele perguntou ansiosamente, e
Halt balanou a cabea.
       -- No temos certeza. As ltimas informaes
mostram que Morgarath ainda est nas montanhas.
       -- Ento por que os Wargals saram? -- Will per-
guntou. Todos sabiam que os Wargals s faziam a vonta-
de de Morgarath. Eles nunca teriam agido de forma to
radical sem ordens dele. A expresso de Halt estava som-
bria quando respondeu.
       -- Eles so apenas um grupo pequeno, talvez 50. A
inteno foi us-los para desviar a ateno. Crowley acha
que, enquanto nossos guardas estavam ocupados perse-
guindo os Wargals, os dois Kalkaras saram das Monta-
nhas e se esconderam em algum lugar da Plancie Solitria.
        Gilan assobiou baixinho, e Merron at deu um
passo para trs surpreso. O rosto dos dois jovens arquei-
ros mostrava seu grande horror diante das notcias. Will
no tinha idia do que eram os Kalkaras, mas, a julgar pela
expresso de Halt e as reaes de Gilan e Merron, as not-
cias obviamente no eram boas.
        -- Voc quer dizer que eles ainda existem? --
Merron perguntou. -- Pensei que tinham morrido anos
atrs.
        -- Ah, sim, eles ainda existem -- Halt confirmou.
-- Sobraram apenas dois, mas  o bastante para ficarmos
preocupados.
        Houve um grande silncio. Finalmente e com hesi-
tao, Will teve que perguntar:
        -- Quem so eles?
        Halt balanou tristemente a cabea. No queria
discutir aquele assunto com algum to jovem quanto
Will, mas, sabendo o que os esperava, no tinha escolha.
O garoto tinha que saber.
        -- Quando Morgarath estava planejando sua rebe-
lio, ele queria mais que um exrcito comum. Sabia que
sua tarefa seria mais fcil se conseguisse aterrorizar seus
inimigos. Assim, durante vrios anos, ele fez uma srie de
expedies para as Montanhas da Chuva e da Noite, pro-
curando.
        -- Procurando o qu? -- Will perguntou, embora
tivesse a incmoda sensao de que sabia qual seria a res-
posta.
       -- Aliados que pudesse usar contra o reino. As
montanhas so uma parte antiga e tranquila do mundo.
Elas permaneceram inalteradas durante sculos, e havia
rumores de que estranhas bestas e monstros antigos ainda
viviam ali. Acontece que os rumores se confirmaram. --
Wargals -- Will comentou, e Halt assentiu. -- Sim, War-
gals. Morgarath os escravizou rapidamente e os fez cum-
prir sua vontade -- Halt completou com um toque de
amargura na voz. -- Mas ento ele encontrou os Kalkaras.
E eles so piores que os Wargals. Muito, muito piores.
       Will no disse nada. Pensar em bestas que eram pi-
ores que os Wargals o deixava, no mnimo, perturbado.
       -- Eles eram trs, mas um foi morto h cerca de
oito anos, por isso sabemos um pouco mais sobre eles.
Pense numa criatura em algum ponto entre um macaco e
um urso que anda sobre duas patas e voc vai ter uma i-
dia da aparncia de um Kalkara.
       -- Ento Morgarath os controla com a mente, co-
mo faz com os Wargals? -- Will perguntou.
       -- No. Eles so mais inteligentes do que os War-
gals, mas so totalmente obcecados por prata. Eles ado-
ram e guardam prata e parece que Morgarath d para os
Kalkaras grandes quantidades de prata para que faam o
que ele quer. E o fazem bem. Podem ser incrivelmente
espertos quando perseguem uma presa.
       -- Presa? Que tipo de presa? -- Will quis saber.
       Halt e Gilan trocaram um olhar, e Will pde ver
que seu mentor estava relutante em falar no assunto. Mas
o arqueiro grisalho respondeu em voz baixa:
       -- Os Kalkaras so assassinos. Quando recebem
ordens para capturar uma determinada vtima, fazem tudo
o que podem para alcanar e matar essa pessoa.
       -- Podemos impedir os Kalkaras? -- Will pergun-
tou, e seu olhar passou rapidamente para o arco pesado de
Halt e a aljava repleta de flechas negras.
       --  difcil matar eles. So cobertos por plos
grossos emaranhados e to fechados que quase parecem
escamas. Uma flecha dificilmente penetra neles. Uma acha
ou uma espada de folha larga funciona melhor.
       Ou talvez um bom golpe com uma lana pesada d
resultado.
       Will sentiu um momento de alvio. Esses Kalkaras
estavam parecendo quase invencveis, mas havia muitos
cavaleiros no reino que, sem dvida, eram capazes de dar
conta deles.
       -- Ento foi um cavaleiro que matou um deles h
oito anos? Halt balanou a cabea.
       -- No foi um cavaleiro. Foram trs. Foram ne-
cessrios trs cavaleiros totalmente armados para matar a
criatura, e apenas um deles sobreviveu  batalha. E o que 
pior: ele ficou aleijado para o resto da vida -- Halt termi-
nou carrancudo.
       -- Trs homens? Todos cavaleiros? -- Will inda-
gou sem acreditar. -- Mas como...
        Gilan o interrompeu antes que pudesse terminar.
        -- O problema  que, se voc se aproximar o bas-
tante para usar uma espada ou lana, geralmente os Kal-
karas derrotam voc antes que tenha alguma chance.
        Enquanto ele falava, seus dedos batiam levemente
no cabo da espada que usava na cintura.
        -- E como eles fazem isso? -- Will quis saber, sen-
tindo o alvio momentneo ser instantaneamente afastado
pelas palavras de Gilan.
        -- Seus olhos -- explicou Merron, o arqueiro de-
sajeitado. -- Se voc olhar nos olhos deles, fica paralisado
e indefeso, do mesmo jeito que um pssaro fica paralisado
pelo olhar de uma cobra antes de ser morto por ela.
        Will olhou para os trs companheiros sem com-
preender. O que Merron tinha dito parecia improvvel
demais para ser verdade, mas Halt no o contradisse.
        -- Paralisa voc... como eles podem fazer isso?
Voc est falando de magia?
        Halt deu de ombros. Merron olhou para o lado,
pouco  vontade. Nenhum deles gostava de discutir aque-
le assunto.
        -- Algumas pessoas dizem que  magia -- Halt
disse finalmente.
        -- Acho mais provvel que seja uma forma de
hipnotismo. Seja como for, Merron esta certo. Se um
Kalkara fizer voc olhar nos olhos dele, voc fica parali-
sado de puro terror, incapaz de fazer qualquer coisa para
se salvar.
       Will olhou ao redor ansioso, como se esperasse ver
uma criatura macaco-urso sair de dentro das rvores silen-
ciosas a qualquer momento. Ele sentiu o pnico crescendo
no peito. De alguma forma, tinha acreditado que Halt era
invencvel e, no entanto, ele estava ali, aparentemente ad-
mitindo que no havia defesa contra aqueles monstros
perversos.
       -- No h nada que se possa fazer? -- ele pergun-
tou numa voz desanimada.
       -- Diz a lenda que eles so especialmente vulner-
veis ao fogo -- Halt contou, dando de ombros. -- O
problema , como j sabemos, conseguirmos nos aproxi-
mar o bastante para causar qualquer dano. Carregar uma
chama acesa dificulta a tarefa de perseguir um Kalkara.
Eles costumam caar  noite e podem ver voc se apro-
ximando.
       Will achou difcil acreditar no que estava ouvindo.
Halt parecia muito realista sobre o assunto, e Gilan e
Merron obviamente ficaram perturbados com as notcias
que ele trouxe.
       Seguiu-se um silncio estranho, quebrado por Gi-
lan.
       -- O que faz Crowley pensar que Morgarath est
usando Kalkaras? Halt hesitou. Ele tinha ouvido a opinio
de Crowley numa reunio particular. Ento deu de om-
bros. Todos precisariam saber de tudo cedo ou tarde e
todos eram membros do Grupo dos Arqueiros, at Will.
       -- Ele j usou duas vezes no ano passado: para
matar lorde Northolt e lorde Lorriac.
       Os trs homens mais jovens trocaram olhares sur-
presos, e Halt continuou:
       -- Pensou-se que Northolt havia sido morto por
um urso, lembram?
       Will acenou com a cabea de leve. Agora ele lem-
brava. No primeiro dia como aprendiz de Halt, o arqueiro
tinha recebido a notcia da morte do comandante supre-
mo.
       -- Na poca, achei que Northolt era um caador
habilidoso demais para ser morto daquele jeito.  bvio
que Crowley concorda.
       -- Mas e quanto a Lorriac? Todos dizem que foi
um derrame -- Merron comentou.
       Halt olhou para ele brevemente e ento respondeu.
       -- Voc ouviu isso, no foi? Bem, o mdico dele
ficou muito surpreso. Ele disse que nunca tinha visto ho-
mem mais saudvel. Por outro lado... -- ele fez uma pau-
sa, e Gilan terminou seu pensamento.
       -- Pode ter sido obra dos Kalkaras.
       -- Exatamente -- Halt concordou. -- No co-
nhecemos todos os efeitos do olhar paralisante. Mantido
durante um longo perodo de tempo, o terror pode muito
bem ser suficiente para parar o corao de um homem. E
houve algumas informaes vagas sobre um animal gran-
de e escuro visto na regio.
       Novamente, o silncio se instalou no pequeno gru-
po debaixo das rvores. Em volta deles, os arqueiros se
agitavam de um lado para outro, levantando acampamento
e selando os cavalos. Halt finalmente os despertou de seus
pensamentos.
       --  melhor irmos andando. Merron, voc precisa
voltar ao seu feudo. Crowley quer o exrcito alerta e mo-
bilizado. As ordens vo ser distribudas em poucos minu-
tos.
       Merron assentiu e se afastou na direo de sua bar-
raca, mas parou e voltou. Algo na voz de Halt, na forma
como tinha dito "voc precisa voltar ao seu feudo", o fez
pensar.
       -- E vocs trs? -- ele perguntou. -- Para onde
vocs vo? Antes mesmo que Halt respondesse, Will sou-
be o que ele ia dizer.
       Mas isso no tornou o fato menos assustador ou
apavorante quando as palavras foram ditas.
       -- Ns vamos atrs dos Kalkaras.
O    acampamento fervia. Barracas eram desmontadas e
arqueiros guardavam seus equipamentos, amarrando-os
nas sacolas das selas. Os primeiros integrantes do grupo j
tinham partido e voltavam para os seus feudos.
       Will estava ajustando as cordas das mochilas nas
selas depois de repor alguns itens que tinha tirado. Halt
estava sentado a alguns metros de distncia, com a testa
franzida, pensativo, estudando o mapa da regio que cer-
cava a Plancie Solitria. A plancie era uma rea grande
que ainda no tinha sido mapeada e no apresentava es-
tradas. Uma sombra caiu sobre Halt e ele olhou para cima.
Gilan estava parado ao seu lado com um ar preocupado
no rosto.
       -- Halt, voc tem certeza sobre isso? -- ele per-
guntou em voz baixa e preocupada.
       -- Toda certeza, Gilan. Isso simplesmente tem que
ser feito -- Halt respondeu, olhando-o com determina-
o.
       -- Mas ele  s um garoto! -- Gilan protestou, o-
lhando para Will que estava amarrando um saco de dormir
atrs da sela de Puxo.
       Halt suspirou e desviou o olhar.
       -- Sei disso, mas ele  um arqueiro. Aprendiz ou
no, ele  um membro da corporao como todos ns.
       Ele viu que Gilan ia protestar outra vez, preocupa-
do com Will, e sentiu uma onda de afeio pelo antigo
aprendiz.
       -- Gilan, num mundo ideal eu no colocaria Will
em risco desse jeito. Mas no estamos num mundo ideal.
Todos vo ter que desempenhar seu papel nessa campa-
nha, at meninos como Will. Morgarath est se preparan-
do para algo grande. Os agentes de Crowley ouviram dizer
que, alm de tudo, ele tem entrado em contato com os
escandinavos. -- Os escandinavos? Para qu?
       -- No sabemos os detalhes, mas na minha opinio
ele est esperando formar uma aliana com eles -- Halt
respondeu, dando de ombros. -- Eles lutam com qual-
quer um por dinheiro. E, pelo que parece, lutam por
qualquer um -- ele acrescentou, deixando clara sua anti-
patia por mercenrios. -- O caso  que estamos com falta
de pessoal. Normalmente, eu iria atrs dos Kalkaras com
um grupo de pelo menos cinco arqueiros mais antigos.
Mas Crowley simplesmente no pode ceder eles para mim.
Assim, tive que me contentar com os dois em quem mais
confio: voc e Will.
       -- Ora, obrigado.
       Gilan deu um sorriso torto. Ele estava emocionado
com a confiana de Halt. Ainda admirava seu antigo
mentor. Quase todos na Corporao de Arqueiros o fa-
ziam.
       -- Alm disso, acho que essa sua velha espada en-
ferrujada pode ser til se nos depararmos com um desses
horrores -- Halt disse.
       A Corporao de Arqueiros tinha tomado a deciso
acertada quando permitiu que Gilan continuasse o treina-
mento com a arma. Embora poucas pessoas soubessem,
Gilan era um dos melhores espadachins em Araluen.
       -- Quanto a Will -- ele continuou --, no o sub-
estime. Ele  muito habilidoso.  rpido, corajoso e j
maneja muito bem o arco e as flechas. E, o que  melhor,
pensa rpido. Meu verdadeiro plano  mandar ele buscar
reforos se encontrarmos pistas dos Kalkaras. Isso vai nos
ajudar e vai manter ele longe do perigo.
       Pensativo, Gilan coou o queixo. Agora que Halt
tinha explicado o que pretendia, aquele parecia o nico
caminho a tomar. Ele encontrou o olhar do homem mais
velho e acenou com a cabea mostrando que entendia a
situao. Ento se virou para organizar seu material, mas
descobriu que Will j tinha arrumado tudo e amarrado 
sela de seu cavalo. Ele sorriu para Halt.
       -- Voc tem razo -- ele disse. -- O garoto sabe
usar a cabea.
       Os trs partiram um pouco depois, enquanto os
outros arqueiros ainda estavam recebendo ordens. Mobi-
lizar o exrcito de Araluen no seria uma tarefa insignifi-
cante, e os arqueiros deveriam coorden-la e depois estar
preparados para guiar as foras individuais dos 50 feudos
para o ponto de reunio nas plancies de Uthal. Com Gi-
lan e Halt designados para procurar os Kalkaras, os outros
arqueiros tinham que assumir a tarefa de coordenar as
foras de seus feudos.
       Os trs companheiros pouco falaram quando Halt
os guiou para o sudeste. At a curiosidade natural de Will
foi abrandada pela magnitude da tarefa que os esperava.
Enquanto cavalgavam em silncio, a sua mente ficava
formando imagens de criaturas selvagens parecidas com
ursos e com feies de macaco. Criaturas que poderiam
muito bem se mostrar invencveis, at para algum com as
habilidades de Halt.
       Por fim, contudo, a monotonia se instalou, as ima-
gens terrveis desapareceram e ele comeou a se perguntar
que plano, se havia algum, Halt tinha em mente.
       -- Halt -- ele chamou um tanto sem flego --,
onde voc espera encontrar os Kalkaras?
       Halt observou o rosto srio ao seu lado. Eles esta-
vam viajando no ritmo da marcha forada dos arqueiros:
quarenta minutos na sela, cavalgando num galope regular,
e depois vinte minutos a p, conduzindo os cavalos e
permitindo que viajassem sem carga, enquanto os homens
corriam num trote uniforme.
       A cada quatro horas, eles paravam para uma hora
de descanso, quando faziam uma refeio rpida de carne
seca, po duro e frutas, e ento se embrulhavam em suas
capas para dormir.
       Eles j estavam viajando fazia algum tempo e Halt
achou que era hora de descansar. Ele levou Abelard para
fora da estrada, para o abrigo de um pequeno bosque. Will
e Gilan o seguiram, largando as rdeas e deixando os ca-
valos pastar.
       -- O melhor -- Halt disse em resposta  pergunta
de Will --  comear a procurar na toca e ver se eles esto
nas vizinhanas.
       -- E sabemos onde essa toca fica? -- Gilan per-
guntou.
       -- Nossos espies acham que fica em algum lugar
na Plancie Solitria, alm das Flautas de Pedra. Vamos
investigar essa regio e ver o que encontrarmos. Se eles
estiverem por ali, certamente vamos descobrir que uma ou
outra ovelha ou cabra est faltando nas vilas da vizinhan-
a. Conseguir que os moradores falem vai ser outro pro-
blema. Os habitantes das plancies so as pessoas mais
fechadas de todos os tempos.
       -- O que  essa plancie de que vocs esto falan-
do? -- Will perguntou com a boca cheia de po seco. --
E que raios  uma Flauta de Pedra?
       -- A Plancie Solitria  uma rea grande e plana.
Tem muito poucas rvores e  coberta principalmente por
massas rochosas e capim alto -- Halt contou para ele. --
Parece que o vento est sempre soprando, no importa a
poca do ano em que voc v para l.  um lugar triste e
deprimente, e as Flautas de Pedra so a parte mais som-
bria de l.
        -- Mas o que so... -- Will comeou, mas Halt s
tinha feito uma breve pausa.
        -- As Flautas de Pedra? Ningum sabe realmente.
Elas so um crculo de pedras formado pelos antigos, in-
serido no meio da parte mais ventosa da plancie. Nin-
gum descobriu qual seu verdadeiro objetivo, mas elas es-
to arranjadas de modo que o vento  desviado ao redor
do crculo e atravessa uma srie de buracos nas prprias
pedras. Elas criam um som constante e agudo, mas no
tenho idia de por que algum achou que o som se parece
com o de flautas. O barulho  misterioso e desafinado e
pode ser ouvido a quilmetros de distncia. Depois de al-
guns minutos, voc comea a ficar arrepiado, e ele conti-
nua por horas e horas.
        Will ficou em silncio. A imagem de uma plancie
triste varrida pelo vento e com pedras que emitiam um
uivo agudo e ininterrupto pareceu tirar o ltimo vestgio
de calor do sol do final da tarde. Ele estremeceu involun-
tariamente. Halt viu o movimento e se inclinou para lhe
dar um tapinha encorajador no ombro.
        -- Se alegre -- ele disse. -- Nada costuma ser to
mau quanto parece. Agora, vamos descansar um pouco.
        Eles chegaram aos arredores da Plancie Solitria ao
meio-dia do segundo dia. Halt tinha razo: era um lugar
grande e deprimente. A rea se estendia por vrios quil-
metros e era coberta por um capim alto e cinzento, resse-
cado pelo vento constante.
       O vento parecia quase um ser vivo. Ele era irritan-
te, soprando contnua e invariavelmente do oeste, do-
brando o capim alto  sua frente, varrendo o terreno a-
chatado da Plancie Solitria.
       -- Agora vocs entendem por que ela  chamada
de Plancie Solitria? -- Halt perguntou aos dois compa-
nheiros, puxando as rdeas de Abelard para que eles pu-
dessem alcan-lo. -- Quando voc sai cavalgando nesse
maldito vento, tem a sensao de que  a nica pessoa vi-
va que resta na face da Terra.
       "Isso  verdade", Will pensou. Ele se sentiu pe-
queno e insignificante diante do vazio da plancie. E essa
sensao de insignificncia foi acompanhada por outra de
impotncia. O deserto que estavam atravessando a cavalo
parecia sugerir a presena de foras ocultas, foras muito
maiores que suas habilidades. At Gilan, normalmente a-
legre e entusiasmado, parecia afetado pela atmosfera pe-
sada e deprimente do lugar. Apenas Halt parecia no ter
mudado, permanecendo sombrio e taciturno como sem-
pre.
       Aos poucos, enquanto cavalgavam, Will ficava ci-
ente de uma sensao inquietante. Havia algo oculto bem
fora do alcance de sua percepo consciente. Alguma coi-
sa que o deixava perturbado. Ele no a conseguia isolar
nem mesmo dizer de onde vinha ou que forma tinha. A
coisa simplesmente estava ali, sempre presente. Ele se
mexeu na sela e ficou de p nos estribos para investigar o
horizonte montono, na esperana de poder ver a fonte
daquilo tudo.
        -- Voc sentiu -- Halt comentou ao perceber o
movimento. -- So as Pedras.
        E, depois que Halt falou, Will se deu conta de que
tinha sido um som, to leve e to contnuo que no podia
ser isolado como tal, que criara a sensao de inquietao
em sua mente e o aperto na boca do estmago. Ou talvez
eles tivessem chegado a uma distncia em que conseguiam
ouvir as Flautas de Pedra apenas quando Halt fez o co-
mentrio, pois naquele momento Will pde isolar o som.
Era uma srie de notas musicais desafinadas tocadas ao
mesmo tempo, mas criando um som spero e desarmoni-
oso que irritava os nervos e perturbava a mente. Sua mo
esquerda escorregou discretamente para o punho da faca
enquanto cavalgava, e ele sentiu conforto ao tocar a arma
slida e confivel.
        Eles continuaram a viagem durante toda a tarde
com a impresso de que nunca avanavam. A cada passo,
o horizonte atrs e diante deles parecia nunca ficar mais
perto ou longe. Era como se estivessem marcando passo
num mundo vazio. O som constante e agudo das Flautas
de Pedra os acompanhou por todo o dia, ficando cada vez
mais forte. Aquele era o nico sinal de que estavam avan-
ando. As horas passavam e o som continuava, sem que
Will sentisse que ficava mais fcil suport-lo. O som irri-
tava seus nervos e o deixava ansioso. Quando o sol co-
meou a mergulhar na margem oeste, Halt freou Abelard.
       -- Vamos passar a noite aqui e descansar -- ele
anunciou. --  quase impossvel manter um ritmo cons-
tante no escuro. Sem caractersticas marcantes no terreno
que nos ajudem a estabelecer uma rota, poderamos facil-
mente acabar andando em crculos.
       Agradecidos, os outros desmontaram. Mesmo bem
preparados como eram, as horas passadas no ritmo de
marcha forada os tinham deixado exaustos. Will come-
ou a procurar lenha para a fogueira ao redor dos poucos
arbustos ressecados que cresciam na plancie. Halt, perce-
bendo o que ele tinha em mente, sacudiu a cabea.
       -- Nada de fogo -- recomendou. -- Vo nos ver a
quilmetros e no temos idia de quem possa estar vigi-
ando.
       Will parou e deixou o pequeno feixe que tinha reu-
nido cair no cho.
       -- Voc est falando dos Kalkaras? -- ele pergun-
tou.
       -- Eles ou o povo da plancie -- Halt respondeu,
dando de ombros.
       -- No podemos saber com certeza se alguns deles
so aliados dos Kalkaras. Afinal, vivendo to prximos
dessas criaturas, podem acabar cooperando com elas ape-
nas para garantir sua segurana. E no queremos que eles
espalhem que h estranhos na Plancie.
       Gilan estava tirando a sela de Blaze, seu cavalo bai-
o. Ele largou-a no cho e esfregou o plo do cavalo com
um punhado do sempre presente capim seco.
       -- Voc no acha que j fomos vistos? -- ele per-
guntou.
       Halt pensou na pergunta por alguns segundos antes
de responder.
       -- Talvez sim. H muitos fatos que desconhece-
mos, como onde fica realmente a toca dos Kalkaras, se o
povo das plancies  ou no seu aliado, se um deles nos
viu ou no e informou nossa presena. Mas, at sabermos
que fomos vistos, vamos fazer de conta que no fomos.
Portanto, nada de fogo.
       --  claro que voc tem toda a razo -- Gilan
murmurou relutante. --  que eu ficaria feliz em matar
algum por uma xcara de caf.
       -- Acenda o fogo para coar caf -- Halt reco-
mendou -- e isso pode ser a ltima coisa que vai fazer.
Foi um acampamento frio e desanimado. Cansados do
ritmo duro da viagem, os arqueiros comeram uma refeio
fria: po, frutas secas e carne fria mais uma vez, engolida
com gua fria de seus cantis. Will estava comeando a de-
testar aquelas raes duras e praticamente sem gosto. Halt
assumiu o primeiro turno de viglia, e Will e Gilan se en-
rolaram em suas capas para dormir.
        Aquela no era a primeira vez que Will acampava
com desconforto desde que o perodo de treinamento ti-
nha comeado. Mas era a primeira vez que no havia nem
mesmo um fogo crepitante ou, pelo menos, um canteiro
de brasas quentes ao lado do qual descansar. Ele dormiu
mal e teve sonhos desagradveis -- sonhos com criaturas
assustadoras, coisas estranhas e aterradoras que povoavam
seu subconsciente, porm perto o bastante para que ele
sentisse sua presena e ficasse perturbado por ela.
        O garoto ficou quase satisfeito quando Halt o sa-
cudiu de leve para acord-lo para seu turno de viglia.
        O vento estava empurrando as nuvens sob a Lua.
O gemido da cano das Pedras estava mais forte do que
nunca. Will sentiu um cansao de esprito e se perguntou
se as Pedras tinham sido criadas para deixar as pessoas
exaustas daquela forma. O capim alto em volta deles sibi-
lava uma melodia que se sobrepunha ao som agudo que
vinha de longe. Halt apontou para o cu, indicando um
ngulo de elevao para ser lembrado por Will.
       -- Quando a Lua alcanar aquele ngulo, passe a
guarda para Gilan -- ele disse ao aprendiz.
       Will concordou, levantando-se e esticando os ms-
culos rgidos. Ele apanhou o arco e a aljava e andou at o
arbusto que Halt tinha escolhido como ponto de obser-
vao. Arqueiros em viglia nunca ficavam em terreno a-
berto no local do acampamento, mas sempre se afastavam
20 metros das barracas e encontravam um esconderijo
Dessa forma, estranhos que se aproximassem do acam-
pamento teriam menor probabilidade de v-los. Essa era
uma das muitas habilidades que Will tinha aprendido em
seus meses de treinamento.
       Ele tirou duas flechas da aljava e as segurou entre
os dedos da mo que apoiava o arco. Iria segur-las desse
jeito durante as quatro horas de sua guarda. Se precisasse
delas, no teria que fazer movimentos exagerados para ti-
r-las da aljava -- movimento que poderia alertar o ata-
cante. Em seguida ele ps o capuz na cabea para se con-
fundir com o formato irregular do arbusto. A sua cabea e
os seus olhos se moviam constantemente de um lado para
outro como Halt tinha ensinado, sempre mudando o foco,
de perto do acampamento para o horizonte escuro  sua
volta. Dessa forma, ele teria chances melhores de perceber
algum movimento. De tempos em tempos, ele se virava
lentamente num crculo completo, examinando todo o
terreno ao seu redor, do jeito mais imperceptvel possvel.
        O som agudo das Pedras e o sibilar do vento eram
constantes. Mas Will tambm comeou a ouvir outros
sons -- o farfalhar de pequenos animais na grama e ou-
tros menos explicveis. Com cada um deles, o corao do
garoto acelerava um pouco mais, e ele se perguntava se
podiam ser os Kalkaras rastejando sobre os vultos ador-
mecidos dos amigos. Em certo momento, ficou conven-
cido de que estava ouvindo a respirao de um animal
grande. O medo tomou conta dele, apertando sua gargan-
ta, at ele perceber, com os sentidos sintonizados ao m-
ximo, que o que ouvia realmente era a respirao tranquila
dos companheiros.
        Will sabia que, a uma distncia maior do que 5 me-
tros, ficaria praticamente invisvel ao olho humano, graas
 capa, s sombras e ao formato do arbusto que o cercava.
Mas ele se perguntava se os Kalkaras contavam somente
com a viso. Talvez tivessem outros sentidos que lhes
dissessem que havia um inimigo escondido no arbusto.
Talvez, naquele momento, estivessem se aproximando,
ocultos pelo capim alto que balanava ao vento, prontos
para atacar...
        Seus nervos, j sensveis alm do suportvel por
causa da deprimente cano das Flautas de Pedra, fazi-
am-no querer se virar e identificar a fonte de cada novo
som assim que o ouvia. Mas Will sabia que iria se revelar
ao fazer isso e se obrigou a se mover devagar, virando-se
com cuidado at ficar de frente para a possvel origem do
som, avaliando cada novo risco antes de descart-lo.
       Nas longas horas da viglia tensa, ele no viu nada
alm das nuvens apressadas no cu, a Lua fugitiva e o mar
ondulante de grama que os cercava. Quando a Lua chegou
 elevao predeterminada, o rapaz estava fsica e men-
talmente esgotado. Acordou Gilan para assumir a guarda e
se enrolou em sua capa outra vez.
       Desta vez, Will no sonhou. Exausto, dormiu pro-
fundamente at a luz cinzenta do amanhecer surgir no
cu.
       Eles viram as Flautas de Pedra no meio da manh:
um crculo cinzento e surpreendentemente pequeno de
monlitos de granito que estavam no alto de uma elevao
na plancie. O caminho que tinham escolhido levou os trs
cavaleiros a cerca de 1 quilmetro de distncia das Pedras,
e Will ficou satisfeito de no se aproximar mais. O canto
deprimente estava mais alto do que nunca, flutuando e se
movendo ao sabor do vento.
       -- Vou partir em dois o lbio do prximo flautista
que eu encontrar -- Gilan ameaou com um sorriso
sombrio.
       Eles continuaram seu caminho, deixando os quil-
metros para trs, hora aps hora, uma igual  outra, sem
nada novo para ver e sempre com o leve uivo das Pedras
s suas costas, deixando os nervos  flor da pele.
        O homem da plancie surgiu de repente no meio da
grama, a uns 50 metros de distncia. Pequeno, vestido
com trapos cinza e com cabelos compridos despenteados
cados nos ombros, ele olhou para os trs companheiros
com olhos enlouquecidos durante vrios segundos.
        O corao de Will mal tinha se recuperado do susto
de seu aparecimento repentino quando ele se foi, corren-
do pela grama, parecendo mergulhar dentro dela. Em
poucos segundos, tinha desaparecido, engolido pelo ca-
pim. Halt ia colocar Abelard para persegui-lo, mas desistiu
da idia. A flecha que havia escolhido e pousado na corda
do arco no foi usada. Gilan tambm estava pronto para
atirar e tinha tido uma reao to rpida quanto a de Halt.
Ele tambm no atirou, olhando com curiosidade para seu
superior.
        -- Pode no ser nada -- Halt disse, dando de om-
bros. -- Ou talvez ele tenha corrido para contar aos Kal-
karas. Mas no podemos matar um homem s por des-
confiana.
        Gilan soltou um leve riso ruidoso, mais para liberar
a tenso causada pelo surgimento inesperado do homem.
        -- Acho que no faz diferena se acharmos os
Kalkaras ou se eles nos acharem -- ele disse.
        Os olhos de Halt se fixaram nele por um momento,
sem nenhum sinal de humor.
        -- Acredite em mim, Gilan, h uma grande dife-
rena -- afirmou. Eles tinham parado a marcha forada e
cavalgavam lentamente pela grama alta. O som das Pedras
comeou a diminuir um pouco, para grande alvio de Will.
Ele percebeu que agora o vento estava levando o som pa-
ra longe.
       Depois do repentino aparecimento do morador da
plancie, houve um perodo sem que se manifestasse outro
sinal de vida. Uma pergunta vinha incomodando Will du-
rante toda a tarde.
       -- Halt? -- ele comeou com cuidado, sem saber
se este o mandaria ficar quieto.
       O arqueiro olhou para ele com as sobrancelhas le-
vantadas, mostrando que estava preparado para responder
perguntas, e ento Will continuou.
       -- Por que voc acha que Morgarath buscou a aju-
da dos Kalkaras?
       O que ele espera ganhar?
       Halt percebeu que Gilan tambm estava esperando
pela resposta. Ele colocou os pensamentos em ordem an-
tes de responder. Estava um pouco relutante em trans-
form-los em palavras, pois parte da resposta dependia de
suposies e intuio.
       -- Quem sabe por que Morgarath faz as coisas? --
ele disse devagar. -- No posso dar uma resposta clara.
S posso dizer o que Crowley e eu pensamos.
       Ele olhou rapidamente para os companheiros. Era
bvio que os dois estavam preparados para aceitar suas
suposies como fatos consumados. "s vezes", ele pen-
sou aborrecido, "a reputao de estar certo o tempo todo
pode ser uma carga muito pesada."
        -- H uma guerra se aproximando -- ele continu-
ou. -- Todos j sabemos disso. Os Wargals esto avan-
ando, e ns ouvimos dizer que Morgarath entrou em
contato com Ragnak.
        Ele viu a expresso confusa no rosto de Will, mas
sabia que Gilan compreendia quem era Ragnak.
        -- Ragnak  o oberjarl, ou chefe supremo, se prefe-
rir, dos escandinavos, os lobos-do-mar -- explicou.
        Ele viu um claro de compreenso no rosto do a-
prendiz e continuou.
        -- Est claro que essa guerra vai ser pior do que a
anterior, e ns vamos precisar de todos os nossos recursos
e de nossos melhores comandantes para nos guiar. Acho
que  isso que Morgarath tem em mente. Ele quer nos en-
fraquecer fazendo que os Kalkaras matem nossos lderes.
Northolt, o chefe supremo do exrcito, e Lorriac, nosso
melhor comandante de cavalaria, j se foram. Certamente
outros homens vo assumir essas posies, mas inevita-
velmente vai haver alguma confuso no perodo de mu-
dana, alguma perda de unio. Acho que isso faz parte do
plano de Morgarath.
        -- H tambm outro aspecto -- Gilan acrescentou
pensativo. -- Esses dois homens foram fundamentais na
sua derrota na ltima vez. Ele est destruindo nossa es-
trutura de comando e se vingando ao mesmo tempo.
        -- Claro, isso  verdade -- Halt concordou. -- E,
para uma mente perturbada como a de Morgarath, vin-
gana  um motivo poderoso.
        -- Ento voc acha que vai haver mais mortes? --
Will perguntou, e Halt o olhou com firmeza.
        -- Acho que vai haver mais tentativas. Morgarath
agiu duas vezes com alvos definidos e teve sucesso. No
vejo nenhum motivo para que no tente de novo. Ele tem
razes para odiar muita gente no reino. Talvez at o pr-
prio rei. Ou talvez o baro Arald, pois ele causou alguns
problemas para Morgarath na ltima guerra.
        "E voc tambm", Will pensou com medo. Ele es-
tava para externar o pensamento de que Halt poderia ser
um alvo quando se deu conta de que seu mestre prova-
velmente j estava ciente do fato. Gilan estava fazendo
outra pergunta ao arqueiro mais velho.
        -- Eu no entendo uma coisa. Por que os Kalkaras
continuam voltando para seu esconderijo? Por que no
procuram simplesmente a vtima seguinte?
        -- Acho que essa  uma das poucas vantagens que
temos -- Halt afirmou. -- So selvagens, cruis e mais
inteligentes do que os Wargals, mas no so humanos. So
totalmente ingnuos. Mostre uma vtima para eles e eles
vo caar e matar ela ou morrer na tentativa. Mas s con-
seguem perseguir uma de cada vez. Entre uma morte e
outra, voltam para sua toca. Ento Morgarath, ou um de
seus subordinados, os prepara para a prxima vtima e eles
saem novamente. Nossa esperana  interceptar os Kal-
karas no caminho se tiverem recebido uma nova misso.
Ou matar eles em seu esconderijo se no tiverem.
       Will olhou pela milsima vez para a plancie mon-
tona coberta de grama que se estendia  frente deles. Em
algum lugar l fora, as duas criaturas assustadoras estavam
esperando, talvez j com uma nova vtima em mente. A
voz de Halt interrompeu seus pensamentos.
       -- O sol est se pondo -- ele disse. -- Acho que
podemos acampar aqui.
       Eles desceram agilmente das selas e soltaram a bar-
rigueira para deixar os cavalos mais confortveis.
       -- Pelo menos este maldito lugar tem uma coisa
boa -- Gilan comentou, olhando  sua volta. -- Todos os
lugares so igualmente bons para acampar. Ou igualmente
ruins.
       Will acordou de um sono sem sonhos ao toque da
mo de Halt em seu ombro. Ele jogou a capa para trs,
olhou para a Lua, que danava no cu, e franziu a testa.
No podia ter dormido mais de uma hora e ia dizer isso,
mas Halt o impediu, colocando um dedo nos lbios, pe-
dindo silncio. Will olhou ao redor e percebeu que Gilan
j estava acordado, parado perto dele com a cabea volta-
da para noroeste, para o lugar de onde tinham vindo.
       O garoto se levantou, movendo-se com cuidado
para no fazer nenhum barulho desnecessrio. Suas mos
tinham ido automaticamente para as armas, mas ele rela-
xou quando se deu conta de que no havia perigo imedia-
to. Os outros dois prestavam ateno em um som, e ento
Halt levantou a mo e apontou para o norte.
       -- L est de novo -- ele disse baixinho.
       Ento Will tambm escutou o mesmo som, acima
dos gemidos das Flautas de Pedra e do murmrio do
vento ao passar na grama. Seu sangue gelou. Era um uivo
agudo e selvagem que ululava e ficava cada vez mais alto.
Um som desumano levado at eles pelo vento e sado da
garganta de um monstro.
       Segundos depois, outro uivo respondeu ao primei-
ro. Ligeiramente mais agudo, parecia vir de um ponto um
pouco mais  esquerda do que o primeiro. Sem que lhe
dissessem, Will sabia o que o som significava.
       -- So os Kalkaras -- Halt disse num tom sombri-
o. -- Eles tm um novo alvo e esto caando.
Os trs companheiros passaram a noite sem dormir. Os
gritos de caa dos Kalkaras afastavam-se para o norte.
Quando ouviram os sons pela primeira vez, Gilan quis se-
lar Blaze, que estava nervoso com os uivos assustadores
das duas bestas. Halt, porm, fez um gesto para que pa-
rasse.
       -- No vou atrs dessas coisas no escuro -- ele
disse brevemente. Vamos esperar at o dia amanhecer e
ento vamos procurar suas pegadas.
       As pegadas foram encontradas com facilidade, pois
era bvio que os Kalkaras no tentaram esconder sua
passagem. A grama alta tinha sido esmagada pelos dois
corpos pesados, que deixaram uma trilha visvel apontan-
do para o nordeste. Halt encontrou a trilha deixada pelo
primeiro dos dois monstros e logo depois Gilan encon-
trou a segunda, cerca de 300 metros  esquerda, numa li-
nha paralela e prxima o bastante para que pudessem se
ajudar no caso de um ataque, mas longe o suficiente para
evitar qualquer armadilha preparada para o irmo.
        Halt analisou a situao por alguns momentos e
ento tomou uma deciso.
        -- Voc fica com o segundo -- ele disse para Gi-
lan. -- Will e eu vamos seguir este aqui. Quero garantir
que os dois continuem andando na mesma direo. No
quero que um deles volte e venha atrs de ns.
        -- Voc acha que eles sabem que estamos aqui? --
Will perguntou, tentando com dificuldade manter a voz
calma e desinteressada.
        --  possvel. O homem da plancie que vimos j
teve tempo para avisar eles. Ou talvez seja apenas uma
coincidncia e eles estejam saindo para a prxima misso.
        Ele olhou para a trilha de grama esmagada que ia
sempre na mesma direo.
        -- Parece mesmo que eles tm um objetivo. Ento
se virou para Gilan outra vez.
        -- Em todo caso, fique com os olhos abertos e
preste muita ateno em Blaze. Os cavalos vo sentir a
presena dessas bestas antes de ns. No queremos cair
numa emboscada.
        Gilan as sentiu e virei; Blaze na direo da segunda
trilha. A um sinal da mo de Halt, os trs arqueiros come-
aram a cavalgar para a frente, seguindo a direo que os
Kalkaras tinham tomado.
        -- Eu vou vigiar a trilha -- Halt disse a Will. --
Voc fica de olho em Gilan, s para garantir.
        Will voltou a ateno para o alto arqueiro, que es-
tava a uns 200 metros de distncia, e acompanhou seu
ritmo. A parte inferior do corpo de Blaze estava escondida
pela grama alta. De tempos em tempos, ondulaes no
cho tiravam tanto o cavalo quanto o cavaleiro da vista do
rapaz. Na primeira vez em que isso aconteceu, Will reagiu
com um grito de alarme, pois Gilan simplesmente desa-
pareceu. Halt se virou rapidamente com uma flecha j
pronta no arco, mas nesse momento Gilan e Blaze reapa-
receram, aparentemente sem saber do momento de pnico
que tinham causado.
        -- Desculpe -- Will murmurou aborrecido por ter
permitido que seu estado de nervos o dominasse.
        Halt lhe lanou um olhar penetrante.
        -- Est tudo bem -- ele disse com calma. -- Pre-
firo que me avise sempre, mesmo quando s pensar que
h um problema.
        Halt sabia muito bem que, por ter dado um falso
alarme uma vez, Will poderia relutar em reagir da prxi-
ma, e isso poderia ser fatal para todos eles.
        -- Avise para mim sempre que perder Gilan de
vista. E diga quando ele reaparecer -- ele pediu.
        Will assentiu, compreendendo o raciocnio do mes-
tre.
        E assim eles continuaram a cavalgar, com o grito
agudo das Flautas enchendo seus ouvidos novamente 
medida que se aproximavam do crculo de pedra. Will
percebeu que desta vez eles passariam muito mais perto,
pois os Kalkaras pareciam estar se dirigindo direto para o
local. A cavalgada foi marcada por informaes intermi-
tentes de Will.
       -- Ele sumiu... ainda est sumido... Tudo bem.
Apareceu de novo.
       Will nunca estava seguro de quem estava passando
por uma depresso, se Gilan ou ele. Muitas vezes, os dois
ao mesmo tempo.
       Houve um momento desagradvel em que Gilan e
Blaze sumiram e no reapareceram dentro dos habituais
poucos segundos.
       -- No consigo mais v-lo... -- Will informou. E
ento:
       -- Ainda no... ainda no... nenhum sinal... -- a sua
voz comeou a ficar aguda por causa da inquietao que
crescia dentro dele. -- Nenhum sinal... ainda nenhum si-
nal...
       Halt fez Abelard parar e preparou o arco nova-
mente enquanto examinava o cho  sua esquerda e espe-
rava Gilan reaparecer. Ele soltou um assobio agudo, trs
notas ascendentes. Houve uma pausa e depois um assobio
de resposta, as mesmas trs notas em ordem descendente,
veio claramente at eles. Will soltou um suspiro de alvio,
e Gilan em pessoa reapareceu nesse exato momento. Ele
os olhou e fez um gesto largo, com os dois braos ergui-
dos numa pergunta bvia: "Qual  o problema?"
       Halt fez um gesto negativo, e eles continuaram.
       Quando se aproximaram das Flautas de Pedra, Halt
ficou cada vez mais atento. O Kalkara que ele e Will vi-
nham seguindo estava se dirigindo diretamente para o
crculo. Ele fez Abelard parar e protegeu os olhos do sol,
estudando as pedras cinzentas e sinistras com cuidado,
procurando algum movimento ou sinal de que o Kalkara
pudesse estar deitado esperando para embosc-los.
        --  o nico esconderijo em quilmetros -- ele
explicou. -- No vamos correr o risco de que a maldita
coisa esteja escondida aqui esperando por ns. Acho que
precisamos tomar um pouco mais de cuidado.
        Ele chamou Gilan com um sinal e explicou a situa-
o. Ento eles se dividiram para cobrir uma rea maior
ao redor das pedras, cavalgando para o interior do crculo
lentamente de trs diferentes direes, procurando nos
cavalos qualquer sinal possvel de reao a medida que se
aproximavam. Mas o local estava vazio, embora no seu
interior o gemido desafinado do vento que atravessava os
buracos das flautas fosse quase insuportvel. Pensativo,
Halt mordeu o lbio olhando para o mar de grama nas
duas trilhas deixadas pelos Kalkaras.
        -- Isso est nos tomando tempo demais -- ele
disse finalmente. -- Enquanto pudermos ver as trilhas por
uns 200 metros  frente, vamos andar mais depressa. Va-
mos diminuir o passo quando chegarmos a uma colina ou
em qualquer momento em que a trilha no esteja visvel
por mais de 5 metros.
        Gilan assentiu, mostrando que tinha compreendido,
e retomou sua posio mais distante. Eles fizeram os ca-
valos trotar num passo longo e tranquilo que cobriria os
quilmetros  frente deles. Will continuou a vigiar Gilan e,
sempre que a trilha visvel diminua, Halt ou Gilan asso-
biavam e eles reduziam a velocidade at que o terreno se
abrisse novamente  sua frente.
        Quando a noite caiu, os trs acamparam de novo.
Halt ainda se recusava a seguir os dois assassinos no es-
curo, embora a Lua deixasse sua trilha facilmente visvel.
        -- Fcil demais para eles voltarem no escuro --
justificou. -- Quero estar bem preparado quando final-
mente vierem at ns.
        -- Voc acha que eles viro? -- Will perguntou,
percebendo que Halt tinha dito "quando", e no "se".
        O arqueiro olhou para seu jovem aluno.
        -- Sempre suponha que o inimigo sabe onde voc
est e que vai atacar voc ele -- ensinou. -- Desse jeito,
voc pode evitar surpresas desagradveis.
        Ele pousou a mo no ombro de Will para tranqui-
lizar o garoto. -- Ainda pode ser desagradvel, mas no
ser mais uma surpresa.
        Pela manh, eles retomaram a trilha, cavalgando no
mesmo ritmo rpido,reduzindo o passo somente quando
no podiam ver com clareza o terreno  sua frente. No
comeo da tarde, tinham chegado  beira da plancie e en-
traram mais uma vez em terreno coberto por bosques ao
norte das Montanhas da Chuva e da Noite.
        Eles descobriram que ali os Kalkaras haviam se re-
unido, no ficando mais muito separados como tinha a-
contecido nas terras da plancie. Mas o caminho continu-
ava o mesmo, sempre em direo ao noroeste. Os trs ar-
queiros seguiram esse curso por outra hora antes que Halt
freasse Abelard e fizesse sinal para os outros desmonta-
rem para uma conversa. Eles se reuniram ao redor de um
mapa do reino que ele abriu na grama, usando flechas
como pesos para que as bordas no se enrolassem.
       -- A julgar pelas pegadas, j diminumos a distncia
at eles. Mas ainda esto um bom meio dia  nossa frente.
Agora, esta  a direo que esto seguindo...
       Ele pegou outra flecha e a colocou no mapa de
modo que apontasse para o lado que os Kalkaras vinham
seguindo nos dois ltimos dias.
       -- Como vocs podem ver, se eles continuarem
nessa direo, h somente dois lugares importantes para
onde podem estar indo.
       Ele apontou para um local no mapa.
       -- Aqui, as Runas de Gorlan. Ou, mais para o
norte, o prprio Castelo de Araluen.
       -- Castelo de Araluen? -- Gilan exclamou, respi-
rando fundo. -- Voc acha que eles vo ousar tentar ma-
tar o rei Duncan?
       -- Eu simplesmente no sei -- Halt respondeu,
olhando para ele e balanando a cabea. -- No sabemos
muita coisa sobre essas bestas, e metade do que achamos
que sabemos provavelmente so mitos ou lendas. Mas
voc tem que admitir, seria algo ousado, uma tacada de
mestre, e Morgarath nunca foi contra esse tipo de coisa.
       Ele deixou que os outros digerissem essa idia por
alguns momentos e ento traou uma linha de sua posio
atual at o noroeste.
       -- Mas estive pensando. Olhe. Aqui est o Castelo
Redmont. Talvez a um dia de cavalgada de distncia e en-
to outro dia at aqui.
       De Redmont, ele traou uma linha para noroeste,
at as Runas de Gorlan, marcadas no mapa.
       -- Uma pessoa cavalgando rapidamente e usando
dois cavalos pode cobrir o trajeto em menos de um dia at
Redmont e depois conduzir o baro e sir Rodney at aqui,
nas runas. Se os Kalkaras estiverem andando no mesmo
ritmo de agora, talvez possamos barrar a passagem deles
aqui. Vai ser difcil, mas  possvel. E, com dois guerreiros
como Arald e Rodney conosco, teremos muito mais
chances de parar as malditas coisas de uma vez por todas.
       -- Um momento, Halt -- Gilan interrompeu. --
Voc disse uma pessoa cavalgando dois cavalos?
       Halt encontrou o olhar de Gilan e viu que o jovem
arqueiro j tinha adivinhado o que ele tinha em mente.
       -- Isso mesmo, Gilan. E o mais leve de ns vai vi-
ajar mais depressa. Quero que passe Blaze para Will. Se ele
se alternar entre Puxo e o seu cavalo, pode fazer isso a
tempo.
       Ele viu a hesitao no rosto de Gilan e compreen-
deu o porqu dessa expresso. Nenhum arqueiro gostava
da idia de entregar seu cavalo a outra pessoa, mesmo a
outro arqueiro. Mas, ao mesmo tempo, Gilan entendeu a
lgica da sugesto. Halt esperou que o jovem quebrasse o
silncio, enquanto Will observava os dois com os olhos
arregalados de medo ao pensar na responsabilidade que
estava prestes a ser posta em seus ombros.
        Finalmente, com relutncia, Gilan falou.
        -- Acho que faz sentido -- ele concordou. -- En-
to, o que quer que eu faa?
        -- Quero que me siga a p -- Halt disse aspera-
mente, enrolando o mapa e guardando-o na sacola da sela.
Se voc puder conseguir um cavalo em qualquer outro lu-
gar, faa isso e me alcance. Do contrrio, vamos nos en-
contrar em Gorlan. Se no virmos os Kalkaras ali, Will
poder esperar por voc com Blaze. Eu vou continuar a
seguir os Kalkaras at vocs me alcanarem.
        Gilan acenou concordando e Halt sentiu uma onda
de afeto por ele. Quando compreendia um objetivo, Gilan
no era do tipo que discutia ou fazia objees.
        -- Voc no disse que minha espada poderia ser
til? -- o rapaz perguntou um tanto desanimado.
        --  verdade -- Halt respondeu --, mas isso me
d a oportunidade de trazer uma fora de cavaleiros to-
talmente armados com machados e lanas. E voc sabe
que essa  a melhor forma de derrotar os Kalkaras.
        -- Sim, eu sei -- Gilan retrucou, pegando as rdeas
de Blaze, amarrando-as num n e jogando-as sobre o
pescoo do cavalo baio.
        -- Voc pode comear com Puxo -- ele disse pa-
ra Will. -- Assim Blaze vai poder descansar. Ele vai seguir
voc sem ser puxado pelas rdeas, e Puxo vai fazer a
mesma coisa quando voc estiver cavalgando Blaze. A-
marre as rdeas desse jeito no pescoo de Puxo quando
estiver montando Blaze para que elas no fiquem pendu-
radas e no se prendam em nada.
       Ele comeou a se virar na direo de Halt e ento
se lembrou de uma coisa.
       -- Ah, sim, antes de montar nele pela primeira vez,
lembre-se de dizer "olhos castanhos".
       -- Olhos castanhos -- Will repetiu e Gilan no
conseguiu evitar um sorriso.
       -- No para mim. Para o cavalo.
       Essa era uma antiga piada dos arqueiros e todos
sorriram. Ento Halt retomou o assunto principal.
       -- Will? Tem certeza de que consegue achar o ca-
minho para Redmont?
       Will assentiu. Ele tocou o bolso onde guardara sua
copia do mapa e olhou para o sol para se orientar.
       -- Noroeste -- ele disse tenso, indicando a direo
que tinha escolhido.
       Halt acenou com a cabea satisfeito.
       -- Voc vai chegar ao Rio Salmon antes do anoite-
cer e isso vai lhe dar um bom ponto de referncia. A es-
trada principal fica s um pouco a oeste do rio. Mantenha
um trote firme todo o tempo. No tente se apressar, por-
que os cavalos s vo ficar cansados e, no final, voc vai
acabar andando mais devagar. Viaje com cuidado.
      Halt saltou para a sela de Abelard e Will montou
Puxo. Gilan apontou para Will e falou no ouvido de Bla-
ze.
      -- Siga, Blaze, siga.
      O cavalo baio, inteligente como todos os cavalos
dos arqueiros, balanou a cabea como se tivesse com-
preendido a ordem. Antes de partir, Will tinha mais uma
pergunta que o vinha preocupando.
      -- Halt, as Runas de Gorlan... o que elas so exa-
tamente? -- ele quis saber.
      -- Isso no  uma ironia? -- Halt respondeu. --
Elas so as runas do Castelo Gorlan, o antigo feudo de
Morgarath.
A cavalgada at o Castelo Redmont logo se transformou
numa viagem cansativa. Os dois cavalos mantiveram o
passo uniforme para o qual tinham sido treinados.  claro
que houve a tentao de fazer que Puxo disparasse num
galope violento, seguido por Blaze, mas Will sabia que es-
se ritmo o levaria ao fracasso. Ele estava avanando de
acordo com a velocidade mais adequada aos cavalos.
Porque o Velho Bob, o treinador de cavalos, tinha lhe dito
que os cavalos dos arqueiros podiam trotar o dia todo sem
se cansar.
       Para o cavaleiro, a questo era muito diferente.
Alm do esforo fsico de se mover constantemente ao
ritmo do cavalo que estava montando -- e os dois animais
tinham passadas totalmente desiguais devido  diferena
de tamanho -- havia a tenso mental igualmente debili-
tante.
       E se Halt estivesse enganado? E se, de repente, os
Kalkaras tivessem desviado para o oeste e estivessem a-
gora num curso que poderia interceptar o dele? E se ele
cometesse algum erro terrvel e no conseguisse chegar a
Redmont a tempo?
       O ltimo receio, o medo causado pela insegurana,
era o mais difcil de enfrentar. Apesar do duro treinamen-
to que tinha recebido nos ltimos meses, ele ainda era
pouco mais que um garoto. E, o que era mais importante,
antes sempre tinha podido contar com o julgamento e a
experincia de Halt. Agora estava sozinho. E sabia o
quanto dependia de sua habilidade para realizar a tarefa
que tinha recebido.
       Os pensamentos, as dvidas, os medos enchiam sua
mente cansada, tropeando uns sobre os outros, acotove-
lando se em busca de posio. O Rio Salmon veio e foi
sob o ritmo constante dos cascos de seus cavalos. Will
parou rapidamente para dar de beber aos animais na ponte
e ento, j na Estrada do Rei, fez um tempo excelente,
parando apenas rapidamente em intervalos regulares para
mudar de montaria.
       As sombras do dia ficaram mais compridas, e as
rvores que pendiam sobre a estrada ficaram escuras e
ameaadoras. Cada barulho, cada movimento visto vaga-
mente nas sombras, levava seu corao  boca.
       Aqui, uma coruja piava e se lanava com as garras
prontas para apanhar um rato descuidado. Ali, um texugo
espreitava, caando sua presa como uma sombra cinzenta
nos arbustos da floresta. A cada movimento ou barulho, a
imaginao de Will trabalhava sem parar. Ele comeou a
ver enormes vultos negros -- parecidos com os Kalkaras
de sua imaginao -- em cada sombra, em cada grupo
escuro de moitas que se mexia com a leve brisa. A razo
lhe disse que seria muito improvvel que os Kalkaras o
estivessem procurando. A imaginao e o medo respon-
deram que eles estavam l fora em algum lugar. E quem
podia garantir que no estavam perto?
       A imaginao e o medo venceram.
       E assim a noite longa e cheia de pavor passou, at
que a luz baixa da madrugada encontrou um vulto curva-
do na sela de um cavalo forte de peito largo que galopava
constantemente na direo do noroeste.
       Will cochilou na sela e despertou com um susto,
sentindo o calor dos raios do sol em cima dele. Delicada-
mente, puxou as rdeas de Puxo, e o pequeno cavalo fi-
cou parado de cabea baixa, respirando fundo. Will se deu
conta de que tinha cavalgado durante muito mais tempo
do que deveria e que o medo o tinha feito manter Puxo
correndo na escurido quando deveria t-lo deixado des-
cansar muito tempo atrs. Ele desmontou rgido, com o
corpo todo dolorido, e parou para esfregar o focinho do
cavalo com afeto.
       -- Desculpe, garoto -- ele disse.
       Puxo, reagindo ao toque e  voz que agora conhe-
cia to bem, moveu a cabea e sacudiu a crina desgrenha-
da. Se Will tivesse pedido, ele teria continuado sem se
queixar, at cair. Will olhou ao redor. A luz alegre da ma-
nh tinha dispersado todos os temores sombrios da noite
anterior. Agora, ele se sentia um pouco tolo ao lembrar os
momentos de pnico paralisante. Will soltou as tiras da
barrigueira da sela e deu ao seu cavalo uma pausa de dez
minutos at que a respirao dele se acalmasse. Em segui-
da, maravilhado com o poder de recuperao e a resistn-
cia da raa de cavalos dos arqueiros, apertou a barrigueira
na sela de Blaze e saltou no lombo do baio, gemendo le-
vemente. Os cavalos dos arqueiros podiam se recuperar
rapidamente, mas seus aprendizes levavam um pouco
mais de tempo.
       A manh j estava no fim quando Will finalmente
conseguiu ver o castelo Redmont. Estava montando Pu-
xo outra vez quando atravessaram a ltima fileira de co-
linas e o vale verde do baronato Arald. O pequeno cavalo
aparentemente no tinha sido afetado pela noite dura que
tinha enfrentado.
       Exausto, Will parou por alguns segundos e se a-
poiou no alto da sela. Eles tinham vindo para muito longe
e bem depressa. Aliviado, observou os arredores conhe-
cidos do castelo e a pequena vila simptica que se aninha-
va satisfeita em sua sombra. Fumaa saa das chamins,
fazendeiros caminhavam lentamente dos campos para ca-
sa, para a refeio do meio-dia. O castelo era slido e
tranquilizador em sua magnitude no alto da colina.
       -- Parece tudo to... normal -- Will disse para o
cavalo.
       Ele percebia que, de alguma forma, tinha esperado
encontrar as coisas mudadas. O reino estava para entrar
em guerra outra vez depois de quinze anos, mas ali a vida
continuava normalmente.
       Ento, ao se dar conta de que estava perdendo
tempo, ele fez Puxo andar mais depressa at atingir um
galope, pois tanto o garoto quanto o cavalo estavam ansi-
osos para terminar esse ltimo trecho da jornada.
       Surpresas, as pessoas olhavam a passagem do pe-
queno vulto verde e cinza agachado sobre o pescoo do
cavalo empoeirado, seguido por um cavalo baio maior.
Um ou dois habitantes reconheceram Will e o cumpri-
mentaram, mas suas palavras se perderam no barulho dos
cascos.
       O estrpito se transformou num martelar resso-
nante quando dispararam sobre a ponte levadia abaixada
e entraram no ptio dianteiro do castelo. Ento, o marte-
lar se tornou um estrondo apressado sobre as pedras da
entrada. Will puxou as rdeas levemente, e Puxo parou
na porta da torre do baro Arald.
       Os dois homens armados que estavam de servio,
surpresos com o aparecimento repentino e ritmo vertigi-
noso do garoto, deram um passo  frente e barraram sua
passagem com as lanas cruzadas.
       -- Pare a, voc! -- disse um deles com aspereza.
-- Aonde pensa que vai com tanta pressa e fazendo tanto
barulho?
       Will abriu a boca para responder, mas antes de po-
der dizer alguma coisa uma voz zangada trovejou atrs
dele.
       -- Que raios voc pensa que est fazendo, seu idi-
ota? No reconhece um arqueiro do rei quando o v?
       Era sir Rodney, atravessando o ptio para ver o ba-
ro. As duas sentinelas ficaram em posio de sentido
quando Will se virou agradecido para o mestre de guerra.
       -- Sir Rodney -- ele disse. -- Tenho uma mensa-
gem urgente de Halt para lorde Arald e o senhor.
       Como Halt tinha comentado com Will depois da
caada ao porco selvagem, o mestre de guerra era um
homem esperto. Ele viu as roupas amarrotadas de Will e
os dois cavalos cansados e percebeu que no era hora de
fazer perguntas idiotas. Indicou a porta com o polegar.
       -- Melhor entrar e contar tudo. Mandem cuidar
desses cavalos -- ele ordenou aos guardas. -- Dem gua
e comida para eles.
       -- S um pouco de cada, sir Rodney, por favor --
Will acrescentou depressa. Apenas uma pequena quanti-
dade de gros e gua e talvez uma escovada. Vou precisar
deles logo.
       Sir Rodney o olhou surpreso. Will e os cavalos da-
vam a impresso de necessitar de um longo descanso.
       -- Deve ser alguma coisa muito urgente -- ele
respondeu. -- Ento, cuidem dos cavalos. E peam para
algum levar comida e uma jarra de leite frio para o escri-
trio do baro -- ele pediu aos guardas.
       Os dois cavaleiros assobiaram espantados quando
Will lhes contou as novidades. J se sabia que Morgarath
estava reunindo um exrcito, e o baro tinha enviado
mensageiros para formar tropas compostas de cavaleiros e
homens armados. Mas as informaes sobre os Kalkaras
eram algo totalmente diferente, e no havia indcios de
que eles tinham se aproximado do Castelo Redmont.
       -- Halt acha que eles podem estar atrs do rei? --
o baro Arald perguntou quando Will terminou de falar.
       O garoto assentiu.
       -- Sim, senhor. Mas acho que h outra possibilida-
de -- Will acrescentou depois de hesitar.
       Ele no queria continuar, mas o baro fez um gesto
para que prosseguisse, e Will finalmente externou a sus-
peita que vinha crescendo dentro dele.
       -- Senhor... eu acho que  possvel que eles estejam
atrs do prprio Halt.
       Depois de dizer o que pensava e de ter exposto seu
receio, ele se sentiu melhor. De alguma forma, para sua
surpresa, o baro Arald no rejeitou a idia. Ele afagou a
barba pensativo, enquanto digeria as palavras que tinha
ouvido.
       -- Continue -- ele disse, querendo ouvir o racioc-
nio de Will.
       --  que Halt acha que Morgarath talvez queira se
vingar, punir os que lutaram contra ele da ltima vez. E eu
acho que foi Halt quem mais o prejudicou, no  mesmo?
       -- Isso  verdade -- Rodney concordou.
       -- E achei que talvez os Kalkaras soubessem que
os estvamos seguindo, que o homem da plancie teve
tempo suficiente para encontrar eles. E que talvez eles es-
tivessem atraindo Halt at encontrarem um lugar para
uma emboscada. Assim, enquanto ele pensa que est ca-
ando os Kalkaras, na verdade  ele quem est sendo ca-
ado.
       -- E as Runas de Gorlan seriam o lugar ideal para
isso -- Arald concordou. -- Naquele amontoado de pe-
dras, eles podem chegar at Halt antes que ele tenha a
chance de usar seu arco. Bem, Rodney, no h tempo a
perder. Voc e eu vamos imediatamente. Meia armadura,
eu acho. Vamos ser mais rpidos dessa forma. Lanas,
machados e espadas. E vamos levar dois cavalos cada;
vamos seguir o exemplo de Will. Partiremos dentro de
uma hora. Diga para Karel reunir dez cavaleiros e nos se-
guir assim que puder.
       -- Sim, meu senhor -- o mestre de guerra respon-
deu. O baro Arald se voltou para Will.
       -- Voc fez um bom trabalho, Will. Vamos cuidar
de tudo agora. E parece que voc poderia aproveitar al-
gumas horas de um bom sono.
       Exausto, com dor em todos os msculos e juntas,
Will endireitou o corpo.
       -- Gostaria de ir com vocs, senhor -- ele perce-
beu que o baro ia discordar e acrescentou rapidamente.
-- Senhor, nenhum de ns sabe o que vai acontecer, e
Gilan est l fora em algum lugar a p. Alm disso... -- ele
hesitou.
       -- Continue, Will -- o baro pediu em voz baixa e,
quando o garoto olhou para cima, Arald viu frieza em seu
olhar.
       -- Halt  meu mestre, senhor, e ele est em perigo.
Meu lugar  ao lado dele -- Will acrescentou.
       O baro o avaliou com um olhar penetrante e ento
tomou uma deciso.
       -- Muito bem. Mas, pelo menos, tente descansar
por uma hora. H uma cama naquele anexo ali -- ele ofe-
receu, indicando uma seo separada por uma cortina ao
lado do escritrio. -- Por que no a usa?
       -- Sim, senhor -- Will concordou agradecido.
       Suas plpebras pesavam como se estivessem cheias
de areia. Ele nunca se sentira mais feliz em obedecer a
uma ordem em toda a sua vida.
Durante toda aquela longa tarde, Will teve a impresso
de que tinha passado a vida toda numa sela, fazendo um
intervalo somente nos momentos de trocar de cavalo.
       Uma breve pausa para desmontar, soltar a barri-
gueira do animal que estava montando, colocar a sela no
cavalo que o acompanhava, montar novamente e continu-
ar. Repetidas vezes, ele se admirou da fantstica resistncia
mostrada por Puxo e Blaze, que mantinham o galope
constante. At teve que fre-los um pouco para acompa-
nhar os cavalos de batalha montados pelos dois cavaleiros.
Mesmo grandes, fortes e treinados para a guerra, eles no
conseguiam seguir o ritmo constante dos cavalos dos ar-
queiros, apesar de estarem descansados quando o peque-
no grupo deixou o Castelo Redmont.
       Eles cavalgavam sem falar. No havia tempo para
conversa fiada e, mesmo que houvesse, seria difcil escutar
o que estavam falando por causa do barulho forte dos
quatro cavalos de batalha, o bater mais leve dos cascos de
Puxo e Blaze e o constante chacoalhar do equipamento e
das armas.
        Os dois homens carregavam compridas lanas de
guerra -- varas cinzentas e duras de mais de 3 metros de
comprimento com uma pesada ponta de ferro. Alm dis-
so, cada um levava uma espada presa  sela. Eram armas
enormes e pesadas muito maiores que as espadas nor-
malmente usadas no dia-a-dia; e Rodney levava uma pe-
sada acha pendurada na parte traseira da sela. Porm era
nas lanas que eles confiavam mais. Elas manteriam os
Kalkaras a distncia e assim reduziriam a chance de que os
cavaleiros fossem paralisados pelo terrvel olhar das duas
bestas. Aparentemente, o olhar hipntico s era eficiente
quando muito prximo. Se um homem no pudesse ver
os olhos dos monstros com clareza, havia pouca possibi-
lidade de que fosse paralisado.
        O sol estava se escondendo rapidamente atrs deles
e jogava as sombras longas e distorcidas para a frente. A-
rald olhou a posio do sol por cima do ombro e chamou
Will.
        -- Quanto tempo ainda temos de luz, Will?
        Will se virou na sela e olhou com ateno para a
bola de luz que caa no horizonte.
        Menos de uma hora, senhor.
        O baro balanou a cabea indeciso. Ento vai ser
difcil chegar l antes do anoitecer -- afirmou.
        Ele instigou o cavalo a avanar, aumentando um
pouco a velocidade. Puxo e Blaze o acompanharam sem
esforo. Ningum queria caar os Kalkaras no escuro.
       A hora de descanso no castelo tinha operado mara-
vilhas em Will, mas agora parecia que tinha acontecido
numa outra vida. Ele pensou nas instrues apressadas
que Arald tinha dado quando montaram os animais para
deixar Redmont. Se encontrassem os Kalkaras nas Runas
de Gorlan, Will deveria ficar para trs enquanto o baro e
sir Rodney atacavam os dois monstros. No havia tticas
complicadas, apenas um ataque impetuoso que poderia
pegar os dois assassinos de surpresa.
       -- Se Halt estiver l, tenho certeza de que tambm
vai nos ajudar. Mas quero voc longe do nosso caminho,
Will. Esse seu arco no vai servir de nada num Kalkara.
       -- Sim, senhor -- Will tinha dito.
       Ele no tinha inteno de se aproximar dos mons-
tros. Estava mais do que satisfeito em deixar o assunto
para os dois cavaleiros, protegidos por escudos, capacetes
e meias armaduras de malha de ferro. Contudo, as pala-
vras seguintes de Arald desfizeram rapidamente qualquer
confiana exagerada que ele pudesse ter na capacidade dos
homens em lidar com as bestas.
       -- Se as malditas coisas nos vencerem, quero que
corra em busca de mais ajuda. Karel e os outros vo estar
em algum lugar atrs de ns. Encontre-os e depois procu-
re os Kalkaras com eles. Siga essas bestas e mate-as.
       Will no disse nada. O simples fato de Arald con-
siderar o fracasso, quando ele e Rodney eram os dois me-
lhores cavaleiros num raio de 200 quilmetros, fez au-
mentar ainda mais sua preocupao com os Kalkaras. Pela
primeira vez, o garoto percebeu que as probabilidades es-
tavam contra eles nessa disputa.
       O sol tremia na beira do mundo, as sombras havi-
am atingido seu comprimento mximo e eles ainda tinham
que percorrer muitos quilmetros. O baro Arald ergueu a
mo e fez o grupo parar. Ele olhou para Rodney e apon-
tou as tochas embebidas em piche que cada homem car-
regava atrs das selas.
       -- Tochas, Rodney -- ele disse rapidamente.
       O mestre de guerra hesitou por um momento.
       -- Tem certeza, senhor? Elas vo mostrar nossa
posio se os Kalkaras estiverem vigiando.
       -- Eles vo nos ouvir chegar de qualquer forma --
Arald disse, dando de ombros. -- E entre as rvores va-
mos nos mover devagar demais sem luz. Vamos correr o
risco.
       Ele preparou sua pedra-de-fogo, formando uma
fagulha que acendeu o pequeno pavio e logo criou uma
chama forte. Segurou a tocha perto do fogo, e o piche em
que estava impregnada de repente se acendeu e explodiu
numa chama amarela. Rodney se inclinou na sua direo
com a outra tocha e a acendeu na chama do baro. Ento,
segurando as tochas para o alto, as lanas presas por tiras
de couro enroladas em seus pulsos direitos, eles retoma-
ram o galope, trovejando na escurido debaixo das rvores
quando finalmente deixaram a estrada larga que vinham
percorrendo desde o meio-dia.
       Passaram-se outros dez minutos quando ouviram
os gritos.
       Era um som fantasmagrico que fazia o estmago
dar voltas e congelava o sangue. Involuntariamente, o ba-
ro e sir Rodney puxaram as rdeas dos animais. Os cava-
los ficaram extremamente agitados. O barulho vinha de
algum ponto adiante deles, aumentando e diminuindo.
       -- Bom Deus nos cus! -- o baro exclamou. --
O que foi isso? -- ele indagou com a expresso assustada.
       O som infernal atravessou a noite e foi respondido
por outro uivo idntico.
       Will j tinha ouvido o terrvel som antes. Ele sentiu
o sangue sumir do rosto quando se deu conta de que seus
temores mostravam ter fundamento.
       -- So os Kalkaras. Eles esto caando.
       E ele sabia que havia apenas uma pessoa atrs da
qual podiam estar. Eles tinham voltado e estavam caando
Halt.
       -- Olhe, meu senhor! -- Rodney disse, apontando
para o cu que escurecia rapidamente.
       Atravs de um espao na proteo oferecida pelas
rvores, eles viram uma sbita rajada de luz se refletindo
no cu, sinal de um incndio num lugar prximo.
       --  Halt! -- o baro disse. -- Tem que ser. Ele
precisa de ajuda! Arald pressionou as esporas nos flancos
do cansado cavalo de batalha, impelindo o animal para a
frente em um galope ensurdecedor. A tocha em sua mo
deixava chamas e fascas para trs enquanto sir Rodney e
Will o seguiam a galope.
       Era uma sensao estranha seguir aquelas tochas
flamejantes e agitadas com suas lnguas alongadas de fogo
soprando para trs por entre as rvores, jogando sombras
esquisitas e apavorantes entre elas, enquanto  frente deles
o brilho do fogo maior, presumivelmente aceso por Halt,
ficava mais forte e prximo a cada passo.
       Eles saram do meio das rvores praticamente sem
aviso e se depararam com uma cena de pesadelo.
       Havia uma pequena clareira coberta por capim.
Alm dela, o terreno estava tomado por um amontoado
de rochas e mataces.
       Pedaos gigantescos de paredes, ainda unidas por
argamassa, estavam espalhados pelos lados, as vezes meio
enterrados no solo macio coberto de grama. As paredes
em runas do Castelo Gorlan cercavam a cena em tres la-
dos, nunca ultrapassando 5 metros, destrudas e derruba-
das por um reino vingativo depois que Morgarath tinha
sido obrigado a partir para o sul, para as Montanhas da
Chuva e da Noite. O caos resultante era como o play-
ground de uma criana gigante -- pedras espalhadas em
todas as direes, empilhadas com descuido umas em ci-
ma das outras, praticamente sem deixar nenhum pedao
de terreno descoberto.
       Toda a cena era iluminada pelas chamas saltitantes
e retorcidas de uma fogueira acesa a uns 40 metros de
distncia. E ao lado dela estava agachada uma figura hor-
rvel, gritando com dio e fria, batendo inutilmente na
ferida mortal no peito que finalmente a tinha derrubado.
        Com mais de 2,5 metros de altura e plos desgre-
nhados e emaranhados, parecidos com escamas, cobrindo
todo o corpo, o Kalkara tinha braos compridos que ter-
minavam em garras e que chegavam abaixo de seus joe-
lhos. Pernas traseiras fortes e relativamente curtas lhe da-
vam a capacidade de percorrer distncias a uma velocidade
enganosa, com uma srie de saltos e pulos. Os trs cava-
leiros viram tudo isso quando saram do bosque. Mas o
que mais lhes chamou a ateno foi a cara: selvagem e pa-
recida com a de um macaco, dentes caninos amarelados e
enormes olhos vermelhos brilhantes cheios de dio e de
desejo cego de matar. A cara se virou para eles, e a besta
gritou em desafio, tentando se levantar, mas voltando a
cair, meio encolhida.
        -- O que h de errado com ele? -- Rodney per-
guntou, fazendo seu cavalo parar.
        Will apontou para o grupo de flechas que se proje-
tava de seu peito. Devia haver seis delas, todas a cerca de
um palmo de distncia uma da outra.
        -- Olhe! -- ele gritou. -- Veja as flechas!
        Halt, com sua incrvel pontaria, deve ter mandado
uma saraivada de flechas, uma depois da outra, para cortar
o plo rgido como uma armadura. Cada uma aumentou a
brecha nas defesas do monstro, at que a ultima penetrou
no fundo de sua carne. Seu sangue negro corria profusa-
mente pelas costas, e o monstro gritou outra vez com -
dio. -- Rodney! -- o baro Arald gritou. -- Comigo! A-
gora!
       Soltando a rdea do cavalo reserva, ele segurou de
um lado a tocha acesa, inclinou a lana e a jogou. Rodney
estava meio segundo atrs dele, os dois cavalos de batalha
trovejando pelo espao aberto. O Kalkara, com o sangue
encharcando o cho aos seus ps, levantou-se e foi atin-
gido no peito pelas pontas das duas lanas, uma aps a
outra.
       O monstro estava quase morto, mas mesmo assim
seu peso e sua fora contiveram a corrida dos cavalos de
batalha. Eles empinaram o corpo quando os dois cavalei-
ros se inclinaram nos estribos para empurrar as lanas no
peito da criatura. A ponta de ferro afiada penetrou na
carne e atravessou os plos emaranhados. A fora da in-
vestida fez o Kalkara perder o equilbrio e o jogou para
trs, para dentro das chamas.
       Durante um instante, nada aconteceu. Ento eles
viram um claro ofuscante e um pilar de chamas verme-
lhas que atingiu 10 metros de altura no cu da noite. E, de
uma forma muito simples, o Kalkara desapareceu.
       Os dois cavalos de batalha se empinaram apavora-
dos, e Rodney e o baro mal conseguiam se manter nas
selas. Eles se afastaram do fogo, e todos sentiram um
cheiro forte e desagradvel de carne e plos queimados.
Will se lembrou vagamente de Halt discutir a forma de li-
dar com um Kalkara. Ele tinha contado que se dizia que
eles eram especialmente suscetveis ao fogo. "Parece que
os boatos estavam certos", Will pensou, fazendo Puxo
trotar para junto dos dois cavaleiros.
       Rodney estava esfregando os olhos, ainda atordoa-
do pelo claro forte.
       -- Que diabos causou isso?
       O baro tirou a lana do fogo com cuidado. A ma-
deira estava queimada, e a ponta, escurecida.
       -- Deve ser a substncia pegajosa que cobre os
pelos deles e forma essa couraa dura -- ele respondeu
num tom de voz espantado. -- Ela deve ser ligeiramente
inflamvel.
       -- Bem, o que quer que fosse, ns conseguimos
derrotar -- Rodney retrucou com um tom satisfeito na
voz. O baro balanou a cabea.
       -- Halt conseguiu -- ele corrigiu o mestre de
guerra. -- Ns s demos o ltimo golpe.
       Rodney concordou com um gesto de cabea, acei-
tando a correo. O baro olhou para o fogo, que ainda
jogava uma torrente de fascas no ar, mas cujas chamas
vermelhas j estavam se acalmando.
       -- Halt deve ter acendido esse fogo quando perce-
beu que eles o estavam cercando. Ele incendiou a rea
para ter luz e poder atirar.
       -- E atirou mesmo -- sir Rodney afirmou. -- To-
das as flechas acertaram pontos muito prximos uns dos
outros.
       Eles olharam ao redor, procurando algum sinal do
arqueiro. Ento, debaixo das paredes em runas do castelo,
Will viu um objeto conhecido. Ele desmontou e correu
para apanh-lo. Seu corao se apertou no peito quando
pegou o poderoso arco de Halt, esmagado e partido em
dois pedaos.
       -- Ele deve ter atirado daqui -- falou, indicando o
ponto abaixo das paredes cadas onde tinha achado o arco.
       Todos olharam para cima, imaginando a cena, ten-
tando recri-la. O baro apanhou a arma destruda da mo
de Will quando este montou novamente em Puxo.
       -- E o segundo Kalkara o alcanou enquanto ele
matava seu irmo -- ele disse. -- A pergunta : onde Halt
est agora? E onde est o outro Kalkara?
       Foi quando eles ouviram os gritos recomearem.
Halt estava agachado entre os tijolos cados que antes ti-
nham sido a fortaleza de Morgarath, dentro do ptio em
runas coberto de mato. Sua perna, dormente onde o Kal-
kara a tinha arranhado, estava comeando a latejar dolo-
rosamente, e ele sentia o sangue atravessando a atadura
improvisada que tinha amarrado em volta dela.
       Ele sabia que o segundo Kalkara o estava procu-
rando em algum lugar ali perto. De tempos em tempos,
ouvia o movimento dos ps se arrastando e chegou a es-
cutar sua respirao dura quando o monstro se aproximou
de seu esconderijo entre duas paredes cadas. Halt sabia
que era s uma questo de tempo at que a criatura o en-
contrasse. E, quando isso acontecesse, ele estaria acabado.
       Halt estava ferido e desarmado. Tinha perdido o
arco, despedaado naquele primeiro e apavorante ataque
em que disparou uma flecha depois da outra no primeiro
dos dois monstros. Ele conhecia o poder de seu arco e a
capacidade de penetrao das flechas pesadas e afiadssi-
mas. No conseguia acreditar que o monstro tinha rece-
bido aquela chuva de flechas e aparentemente ainda con-
tinuava com a mesma coragem. Quando ele cambaleou, j
era tarde demais para que Halt voltasse sua ateno para o
companheiro. O segundo Kalkara estava quase em cima
dele, arrancando o arco de sua mo e esmagando-o com a
pata forte cheia de garras, de modo que ele mal teve tem-
po de arrastar-se para um local seguro perto da parede ca-
da.
       Enquanto o monstro o perseguia, atacando tudo 
sua volta com as garras, ele tinha empunhado a faca e
golpeado a terrvel cabea.
       Mas a besta foi rpida demais para ele, e a pesada
faca atingiu seu brao coberto pela malha da armadura.
Ao mesmo tempo, ele se viu confrontado pelos olhos
vermelhos cheios de dio e sentiu-se perdendo a consci-
ncia. Os msculos comearam a ficar paralisados de ter-
ror quando se viu atrado para a horrvel besta diante dele.
Foi necessrio um esforo imenso para desviar os olhos
da criatura, e ele cambaleou para trs, perdendo a faca
quando as garras de urso o atacaram e arranharam a sua
coxa.
       Ento ele correu desarmado e sangrando, contando
com o confuso labirinto que eram as runas para fugir do
monstro que o perseguia.
       Ele tinha percebido a mudana nos movimentos
dos Kalkaras no final da tarde. Sua rota constante e ante-
riormente inalterada para o noroeste de repente mudou
quando as duas bestas se separaram abruptamente, cada
qual fazendo uma curva de 90 graus e andando em dire-
es diferentes para dentro da floresta que os cercava. Su-
as pegadas, at aquele momento to fceis de seguir, tam-
bm mostravam sinais de que estavam sendo encobertas,
de modo que somente algum habilidoso como um ar-
queiro teria sido capaz de segui-las. Pela primeira vez em
anos, Halt sentiu um calafrio de medo no estmago
quando se deu conta de que agora a caa era ele.
        As runas estavam perto, ento ele resolveu ficar ali,
e no no bosque. Deixou Abelard em segurana, longe de
qualquer perigo, e foi a p para as runas. Ele sabia que os
Kalkaras iriam persegui-lo assim que a noite casse, ento
se preparou da melhor forma possvel, reunindo galhos
cados para fazer uma fogueira. Halt at encontrou uma
jarra de leo nas runas da cozinha, ranoso e malcheiroso,
mas que ainda iria queimar. Ele o derramou na pilha de
lenha e se afastou at um ponto onde poderia ficar de
costas para a parede. Tinha arrumado uma srie de tochas
e as deixou queimando enquanto escurecia, esperando que
os matadores implacveis o procurassem.
        O arqueiro sentiu a presena deles antes de v-los.
Ento enxergou os dois vultos trpegos, duas manchas
mais escuras contra a escurido das rvores. Naturalmen-
te, eles o viram de imediato. A tocha trmula presa na pa-
rede garantiu isso. Mas eles no viram a pilha de lenha
embebida em leo, e era com isso que ele contava.
Quando soltaram seus gritos de caa, Halt jogou a tocha
flamejante na pilha e as chamas subiram no mesmo ins-
tante, espalhando um brilho amarelo na noite.
        Por um momento, as bestas hesitaram, pois o fogo
era seu nico inimigo. Mas, quando viram que o arqueiro
no estava prximo das chamas, continuaram -- direto
para a chuva de flechas com que Halt as recebeu.
        Se tivessem mais 100 metros para percorrer, talvez
Halt tivesse conseguido derrotar as duas. Ainda havia mais
de dez flechas na aljava, mas o tempo e a distncia corri-
am contra ele, que mal tinha escapado com vida. Agora,
estava agachado entre dois pedaos de muro cado que
formavam uma pequena gruta, escondido numa leve reen-
trncia do terreno e oculto pela capa, como acontecia h
anos. Sua nica esperana era que Will chegasse com A-
rald e Rodney. Se pudesse escapar da criatura at que a
ajuda chegasse, talvez tivesse uma chance.
        Ele tentou no pensar na outra possibilidade -- a
de que Gilan chegasse antes deles, sozinho e armado ape-
nas com o arco e a espada. Agora que tinha visto os Kal-
karas de perto, Halt sabia que um homem tinha poucas
chances de enfrent-los. Se Gilan chegasse antes dos ca-
valeiros, ele e Halt morreriam ali.
        Naquele momento, a criatura estava rodeando o
velho ptio como um co  procura da caa, adotando um
padro de busca metdico, para a frente e para trs, exa-
minando cada espao, cada buraco, cada possvel escon-
derijo. Halt sabia que desta vez ela o encontraria. Sua mo
tocou o cabo da pequena faca, a nica arma que restava.
Seria uma defesa insignificante, quase intil, mas era tudo
o que tinha.
       Ento ele ouviu: o inconfundvel trovejar dos cas-
cos dos cavalos de batalha. Olhou para cima e observou o
Kalkara por uma pequena fresta entre as pedras que o es-
condiam. O monstro tambm os tinha ouvido e estava de
p, ereto, a cara voltada para o som que vinha de fora das
paredes em runas.
       Os cavalos pararam, e Halt ouviu o grito agudo do
Kalkara mortalmente ferido ao desafiar os novos inimigos.
As batidas dos cascos se fizeram ouvir de novo e ganha-
ram velocidade e fora. Seguiu-se um grito e um claro
vermelho gigantesco que subiu para o cu por um mo-
mento. Vagamente, Halt deduziu que o primeiro Kalkara
devia ter sido jogado no fogo. Ele comeou a recuar de-
vagar para fora do esconderijo. Talvez pudesse escapar do
outro Kalkara movendo-se para o lado e escalando a pa-
rede antes que ele o visse. As chances pareciam boas. A
ateno do monstro estava voltada para o que quer que
estivesse acontecendo do lado de fora. Mas, assim que te-
ve a idia, percebeu que no tinha opo. Embora apa-
rentemente o Kalkara o tivesse esquecido por um mo-
mento, a criatura estava se movendo furtivamente em di-
reo s runas que formavam uma escada irregular para o
alto do muro.
       Em mais alguns minutos, a besta estaria em posio
de cair sobre os amigos despreocupados do outro lado,
tomando-os de surpresa. Halt tinha que impedi-la.
       O arqueiro j estava fora do esconderijo, a pequena
faca saindo da bainha quase por vontade prpria, quando
ele correu pelo ptio, desviando-se e fazendo crculos ao
redor do entulho espalhado. O Kalkara o escutou antes
que ele tivesse dado dez passos e se virou para ele, assus-
tadoramente silencioso quando pulou como um macaco
para impedir sua passagem antes que pudesse avisar os
amigos sobre o perigo.
       Halt parou de repente e ficou imvel, com o olhar
preso na figura trpega que se aproximava dele.
       Alguns metros a mais e o olhar hipntico iria con-
trolar a sua mente. Ele sentiu uma vontade irresistvel de
encarar aqueles olhos vermelhos, mas ento fechou os
olhos, a testa franzida numa concentrao intensa. Le-
vantou a mo que segurava a faca e agitou-a para a frente
e para trs num ataque suave e instintivo, vendo o alvo se
mexer em sua cabea, mentalmente alinhando o arremesso
para o ponto no espao aonde a faca e o alvo iriam chegar
ao mesmo tempo.
       Somente um arqueiro, entre muito poucos, poderia
ter lanado a arma daquele jeito. A faca atingiu o olho di-
reito do Kalkara, e a besta gritou furiosa quando se enco-
lheu por causa da repentina pontada de agonia que come-
ava em seu olho e se espalhava pelo corpo todo! Ento
Halt passou correndo por ele na direo do muro e subiu
as pedras com dificuldade.
       Will viu o vulto envolto em sombras que escalava
na direo do topo do muro em runas. Mas, escondido
pelas sombras ou no, havia algo de inconfundvel nele.
       -- Halt! -- ele gritou, apontando para que os dois
cavaleiros tambm o vissem.
       Todos os trs viram o arqueiro parar, olhar para
trs e hesitar. Ento um vulto enorme comeou a aparecer
alguns metros atrs dele quando o Kalkara, cujo ferimento
era dolorido, mas nada mortal, o perseguiu.
       O baro Arald pensou em montar, mas, perceben-
do que nenhum cavalo poderia passar pela confuso de
pedras e tijolos ao lado da parede, tirou a imensa espada
da sela e correu na direo das runas.
       -- Para trs, Will! -- ele gritou quando avanou.
       Nervoso, Will levou Puxo de volta para a beira das
rvores.
       No muro, Halt ouviu o grito e viu Arald correndo
para a frente. Sir Rodney estava logo atrs dele, girando
uma enorme acha em crculos em volta da cabea.
       -- Pule, Halt! Pule! -- o baro gritou, e Halt no
precisou de outro convite.
       Ele saltou 3 metros para baixo, rolando para amor-
tecer a queda quando aterrissou. Ento, levantou-se e
correu desajeitado ao encontro dos dois cavaleiros, en-
quanto o ferimento da perna tornava a abrir.
       Com o corao na boca, Will viu Halt correr na di-
reo dos dois cavaleiros. O Kalkara hesitou um momen-
to e ento, com um grito de desafio apavorante, pulou a-
trs dele. O monstro simplesmente transformou a queda
de 3 metros num pulo enorme, suas pernas traseiras in-
crivelmente poderosas fazendo que fosse impulsionado
para cima e para a frente, cobrindo o terreno entre ele e
Halt nesse nico movimento. O brao forte girou, atin-
gindo Halt com violncia e fazendo que ele rolasse para a
frente inconsciente. Mas a besta no teve tempo de acabar
com ele, pois o baro Arald o enfrentou e dirigiu a espada
num arco mortal na direo de sua garganta.
       O Kalkara foi cruelmente rpido e se abaixou, des-
viando do arremesso mortal e atacando as costas expostas
de Arald com as garras antes que ele pudesse se recuperar
do golpe. Elas rasgaram a malha de metal como se fosse
um tecido fino, e Arald grunhiu de dor e surpresa quando
a fora do ataque o jogou de joelhos, obrigando-o a soltar
a espada. Sangue jorrava de vrios arranhes nas costas.
       Ele teria morrido ali se no fosse por sir Rodney. O
mestre de guerra girou a pesada acha como se fosse um
brinquedo e golpeou a lateral do corpo do Kalkara.
       A armadura de plos emaranhados protegeu a bes-
ta, mas a fora imensa do golpe a fez cambalear e se afas-
tar do cavaleiro com gritos furiosos e frustrados. Sir Rod-
ney avanou protetoramente e se colocou com os ps fir-
mes entre o monstro e as figuras cadas de Halt e do ba-
ro, preparando a arma para outro golpe fulminante.
       E ento, estranhamente, ele deixou a arma cair e
ficou parado diante da criatura, totalmente  sua merc. O
poder do olhar do Kalkara roubara-lhe a vontade prpria
e a capacidade de pensar.
       O Kalkara gritou vitorioso para o cu noturno. Um
sangue negro escorria de sua cara. Nunca em sua vida ele
tinha sentido dor parecida com a que aqueles trs homens
insignificantes haviam provocado. E agora eles iriam
morrer por ousarem enfrent-lo. Mas a inteligncia primi-
tiva que o guiava queria seu momento de triunfo, e ele
gritou repetidas vezes diante dos trs homens indefesos.
       Will assistia a tudo horrorizado. Um pensamento se
formava, uma idia tomava corpo em algum lugar de sua
mente. Ele olhou para o lado e viu a tocha bruxuleante
que o baro Arald tinha soltado. Fogo. A nica arma que
poderia derrotar o Kalkara. Mas ele estava a 40 metros de
distncia...
       Ele tirou uma flecha da aljava, escorregou da sela e
correu rapidamente at a tocha tremeluzente. Uma grande
quantidade de piche grudento e derretido tinha escorrido
pelo cabo da tocha e, depressa, ele passou a ponta da fle-
cha no lquido pegajoso e mole, cobrindo-a generosamen-
te. Em seguida, encostou-a na chama at que se acendesse.
       A 40 metros dali, a enorme criatura perversa estava
satisfazendo sua necessidade de vitria, fazendo que seus
gritos se espalhassem e ecoassem pela noite enquanto fi-
cava de p junto dos dois corpos: Halt, inconsciente, e o
baro Arald, atordoado pela dor. Sir Rodney ainda estava
parado no mesmo lugar, paralisado, com as mos indefe-
sas penduradas ao lado do corpo enquanto esperava a
morte. Agora, o Kalkara levantava uma pata imensa para
jog-lo no cho, e o cavaleiro s conseguia sentir o terror
paralisante de seu olhar.
       Will preparou-se para atirar a flecha, estremecendo
com a dor quando as chamas lhe queimaram a mo que
segurava o arco. Ele mirou um pouco acima do seu alvo
por causa do peso adicional do piche e soltou a flecha.
       Ela descreveu um arco brilhante e rpido, e o vento
provocado por sua passagem transformou a chama numa
simples brasa. O Kalkara viu o claro de luz se aproxi-
mando e se virou para olhar, selando seu prprio destino
quando a flecha o atingiu diretamente no peito largo.
       A flecha quase no penetrou os plos duros pare-
cidos com escamas, mas, quando parou, a pequena chama
voltou a se incendiar, e o fogo se espalhou nos plos e-
maranhados com incrvel rapidez.
       Assim que sentiu o toque do fogo, o Kalkara foi
tomado pelo terror.
       O monstro bateu nas chamas em seu peito com as
patas, mas isso apenas serviu para espalhar o fogo para os
braos. As chamas vermelhas avanaram depressa, e em
segundos o Kalkara foi envolvido por elas, queimando
dos ps  cabea enquanto corria cegamente em crculos,
tentando em vo escapar. Os gritos agudos no paravam e
ficavam cada vez mais altos, atingindo uma escala de ago-
nia que a mente mal podia compreender. As chamas fica-
vam mais intensas a cada segundo. Ento os gritos para-
rem e a criatura morreu.
A pousada    na vila Wensley estava tomada por msica,
risos e barulho. Will estava sentado  mesa com Horace,
Alyss e Jenny, enquanto o dono lhes servia um suculento
jantar de ganso assado e legumes frescos da fazenda, se-
guido de uma deliciosa torta de mirtilo cuja massa leve
ganhou at a aprovao de Jenny.
       Tinha sido idia de Horace comemorar a volta de
Will para o Castelo Redmont com um banquete. As duas
meninas tinham concordado imediatamente, ansiosas por
uma pausa na rotina, que agora parecia um tanto mon-
tona comparada aos acontecimentos de que Will tinha
participado.
       Naturalmente, a notcia sobre a batalha com os
Kalkaras tinha se espalhado na vila como uma fogueira ao
vento, uma comparao extremamente apropriada, na
opinio de Will. Quando ele entrou na pousada com os
amigos naquela noite, um silncio curioso tomou conta do
aposento e todos os olhares se voltaram para ele. Will fi-
cou agradecido pelo fato de o grande capuz esconder o
seu rosto, que corava rapidamente. Os trs companheiros
perceberam seu constrangimento. Jenny, como sempre,
foi a primeira a reagir e a quebrar o silncio que enchia a
pousada.
       -- Vamos, gente sria! -- ela gritou para os msi-
cos perto da lareira. -- Vamos ouvir um pouco de msica!
E um pouco de conversa tambm! -- ela acrescentou a
segunda sugesto com um olhar significativo para os ou-
tros ocupantes da sala.
       Os msicos aceitaram a sugesto. Era difcil recusar
qualquer coisa sugerida por Jenny. Rapidamente, eles co-
mearam a tocar uma cano folclrica conhecida e o som
dominou o salo. Aos poucos, os outros moradores per-
ceberam que sua ateno estava deixando Will pouco a
vontade e, lembrando-se das boas maneiras, recomearam
a conversar, olhando apenas de vez em quando para o ra-
paz, admirando-se de que algum to jovem pudesse ter
participado de acontecimentos to importantes.
       Os quatro antigos colegas protegidos do castelo
sentaram-se a uma mesa no fundo da sala, onde poderiam
conversar sem ser interrompidos.
       -- George mandou pedir desculpas -- Alyss disse
quando se sentaram. -- Ele est atolado de servio. Toda
a Escola de Escribas est trabalhando dia e noite.
       Will acenou compreensivo. A guerra iminente com
Morgarath e a necessidade de mobilizar tropas e retomar
antigas alianas certamente criara montanhas de papelada.
       Muita coisa tinha acontecido nos dez dias desde a
batalha com os Kalkaras.
       Depois de acampar junto das runas, Rodney e Will
cuidaram dos ferimentos do baro Arald e de Halt, final-
mente conseguindo fazer que os dois homens dormissem
tranquilamente. Logo depois do amanhecer, Abelard en-
trou trotando no acampamento, procurando ansiosamente
pelo dono. Will tinha acabado de acalmar o animal quan-
do Gilan chegou exausto, cavalgando um pequeno cavalo
de trabalho. Agradecido, o alto arqueiro recuperou Blaze.
Ento, depois de se convencer de que o antigo mestre no
corria perigo, partiu quase imediatamente para o prprio
feudo, depois que Will prometeu devolver o cavalo ao la-
vrador.
       Mais tarde naquele dia, Will, Halt, Rodney e Arald
tinham voltado ao Castelo Redmont, onde mergulharam
numa atividade ininterrupta para preparar os guerreiros do
castelo para a guerra. Havia milhares de detalhes a serem
acertados, mensagens a serem enviadas e convocaes a
serem entregues. Como Halt ainda estava se recuperando
do ferimento, grande parte desse trabalho tinha recado
sobre Will.
       Ele percebeu que em pocas como aquela um ar-
queiro tinha pouco tempo para relaxar, o que tornava a-
quela noite uma diverso bem-vinda. O dono da pousada
foi afobado at a mesa deles e colocou sobre ela quatro
canecas de vidro e uma jarra da cerveja sem lcool, que ele
preparava com gengibre.
       -- Hoje  por conta da casa -- ele avisou. -- Es-
tamos honrados por ter voc em nosso estabelecimento,
arqueiro.
       Ele se afastou, chamando um de seus ajudantes pa-
ra atender a mesa de Will.
       -- E seja bem rpido! -- ele ordenou. Alyss olhou
para ele surpresa.
       --  bom estar com uma celebridade -- ela disse.
-- O velho Skinner geralmente segura as moedas com
tanta fora que a cabea do rei fica sufocada.
       -- As pessoas exageram -- Will disse com um
gesto de indiferena.
       Mas Horace se inclinou para a frente com os coto-
velos na mesa.
       -- Ento conte para a gente como foi a luta -- ele
pediu ansioso por detalhes.
       Jenny olhou para Will de olhos arregalados.
       -- No acredito que vocs tenham sido to cora-
josos! -- ela disse com admirao. -- Eu teria ficado a-
pavorada.
       -- Para falar a verdade, eu estava petrificado --
Will confessou para eles com um sorriso triste. -- O ba-
ro e sir Rodney foram os corajosos. Eles atacaram e en-
frentaram as criaturas bem de perto. Eu fiquei a 40 ou 50
metros de distncia o tempo todo.
       Will descreveu os acontecimentos da batalha sem
entrar em muitos detalhes sobre a aparncia dos Kalkaras.
Eles estavam mortos e acabados e seria melhor esque-
c-los o mais depressa possvel. No era necessrio se
preocupar com determinadas coisas. Os trs colegas ou-
viam, Jenny de olhos arregalados e entusiasmada, Horace
ansioso por detalhes da luta e Alyss calma e digna como
sempre, mas totalmente atenta a histria. Quando ele des-
creveu sua cavalgada solitria para buscar ajuda, Horace
balanou a cabea admirado.
       -- Esses cavalos dos arqueiros devem ser de uma
raa especial.
       Will sorriu para ele, incapaz de resistir a fazer o
comentrio engraado que tinha vindo  sua mente.
       -- O truque  se manter em cima deles -- ele disse,
ficando satisfeito ao ver um sorriso igual surgir no rosto
de Horace quando ambos lembraram a cena da Feira do
Dia da Colheita.
       Ele percebeu, com um leve toque de prazer, que
seu relacionamento com Horace tinha se transformado
numa amizade profunda em que os dois se viam como i-
guais. Ansioso para sair de baixo dos holofotes, ele per-
guntou ao amigo como ia a vida na Escola de Guerra. O
sorriso no rosto do garoto maior se alargou.
       -- Muito melhor, graas ao Halt -- ele disse e,
quando Will habilmente o cobriu de mais perguntas, ele
descreveu a vida na Escola de Guerra, brincando sobre
seus erros e fracassos, rindo quando contou quantas vezes
tinha sido punido.
       Will percebeu que Horace, antes um pouco exibido
e arrogante, estava muito mais modesto ultimamente. Ele
desconfiava de que Horace estava se saindo melhor como
aprendiz de guerreiro do que deixava transparecer.
        Foi uma noite agradvel, principalmente depois da
tenso e do terror da caada aos Kalkaras. Quando os a-
judantes tiraram os pratos, Jenny sorriu esperanosa para
os dois garotos.
        -- Muito bem! Agora, quem vai danar comigo? --
ela perguntou alegremente, e Will foi lento demais para
responder.
        Horace tomou a mo dela e a levou para a pista de
dana. Quando eles se juntaram aos demais danarinos,
Will olhou para Alyss sem saber bem o que fazer. Ele
nunca sabia dizer o que a garota estava pensando. Achou
que talvez fosse educado tambm convid-la para danar.
Ento pigarreou nervoso.
        -- Ahn... voc tambm gostaria de danar, Alyss?
-- convidou desajeitado.
        Ela lhe ofereceu somente o leve sinal de um sorri-
so. -- Acho que no, Will. No sou uma boa danarina.
Parece que tenho pernas de pau.
        Na verdade, ela era uma excelente danarina, mas,
diplomata nata como era, percebeu que Will s a tinha
convidado por educao. Ento os dois mergulharam no
silncio, mas um tipo de silncio amistoso.
        Depois de alguns minutos, ela se virou para ele com
o queixo apoiado na mo para observ-lo com ateno.
        -- Vai ser um grande dia para voc amanh -- ela
disse, e ele corou.
       Ele tinha sido convocado para aparecer diante de
toda a corte do baro no dia seguinte.
       -- No sei por que tudo isso -- ele balbuciou.
       -- Ele possivelmente quer lhe agradecer em pbli-
co -- Alyss disse, sorrindo para ele. -- Ouvi dizer que
bares gostam de fazer isso com pessoas que salvaram
suas vidas.
       Will comeou a dizer alguma coisa, mas ela pousou
a mo macia e fria sobre a dele, e ele parou. Ele olhou a-
queles olhos cinzentos, calmos e sorridentes. Alyss nunca
tinha lhe parecido bonita, mas agora percebeu que sua e-
legncia, sua graa e seus olhos cinzentos, emoldurados
por cabelos loiros delicados, criavam um encanto natural
que ultrapassava de longe uma simples beleza. Surpreen-
dentemente, ela se inclinou para perto e sussurrou:
       -- Estamos todos orgulhosos de voc, Will. E acho
que eu sou a mais orgulhosa de todos.
       Ento Alyss o beijou. Os lbios dela eram incrivel-
mente, indescritivelmente macios.
       Horas mais tarde, antes de finalmente adormecer,
ele ainda podia senti-los.
Paralisado pelo medo da platia, Will estava parado do
lado de dentro da sala de audincias do baro.
        O prdio era imenso. Era a principal sala do caste-
lo, a sala em que o baro conduzia todos os negcios ofi-
ciais com os membros da corte. O teto parecia se estender
para cima interminavelmente. Fachos de luz inundavam o
aposento, vindos de janelas instaladas no alto das paredes
grossas. Na extremidade da sala e parecendo estar a uma
grande distncia, o baro estava sentado numa cadeira pa-
recida com um trono, vestindo suas tnicas mais finas.
        Entre ele e Will, estava a maior multido que o ga-
roto j tinha visto. Halt fez o aprendiz avanar delicada-
mente com um empurro nas costas.
        -- V em frente -- ele murmurou.
        Havia centenas de pessoas no Grande Salo, e to-
dos os olhares estavam voltados para Will. Todos os che-
fes de ofcio estavam ali, vestindo suas tnicas oficiais.
Todos os cavaleiros e todas a damas da corte: cada uma
usando suas melhores e mais elegantes roupas. Mais adi-
ante, estavam os homens com armas do exrcito do baro,
os outros aprendizes e os comerciantes da vila. Ele viu
uma agitao colorida quando Jenny, desinibida como
sempre, agitou um leno para ele. Alyss, parada ao lado
dela, foi um pouco mais discreta. Ela jogou um beijo para
ele com a ponta dos dedos, delicadamente.
       Ele ficou parado, desajeitado, colocando o peso do
corpo ora numa perna, ora noutra. Desejou que Halt o
tivesse deixado usar a capa de arqueiro para que pudesse
se confundir com o ambiente e desaparecer.
       Halt o empurrou outra vez.
       -- Ande, vamos! -- sussurrou.
       -- Voc no vem comigo? -- ele perguntou, vi-
rando-se para o mestre.
       Halt negou com a cabea.
       -- No fui convidado. Agora se mexa!
       Ele empurrou Will mais uma vez e ento, por causa
da perna machucada, foi at uma cadeira. Finalmente,
compreendendo que no tinha outro caminho a seguir,
Will comeou a andar pelo corredor que parecia no ter-
minar nunca. Ele ouviu vozes balbuciando enquanto pas-
sava, ouviu seu nome sendo sussurrado de boca em boca.
       E ento as palmas se iniciaram.
       Elas foram comeadas pela esposa de um cavaleiro
e se espalharam rapidamente por todo o salo. Era ensur-
decedor, um rugido retumbante de aplausos que continu-
ou at Will chegar aos ps da cadeira do baro.
       Como Halt tinha ensinado, ele se apoiou num joe-
lho e inclinou a cabea para a frente.
        O baro se levantou e ergueu a mo pedindo siln-
cio, e as palmas se transformaram em ecos.
        -- Levante-se, Will -- ele disse em voz baixa, es-
tendendo a mo para ajudar o garoto a se pr de p.
        Atordoado, Will obedeceu. O baro pousou uma
das mos em seu ombro e o virou para que olhasse para a
enorme multido diante deles. Sua voz grave chegou sem
esforo ao ponto mais afastado do salo quando falou.
        -- Este  Will. Aprendiz do arqueiro Halt, deste
feudo. Todos vocs, olhem para ele e o conheam. Ele
provou sua fidelidade, coragem e iniciativa para com este
feudo e para com o Reino de Araluen.
        Houve um murmrio vindo do pblico. Ento as
palmas recomearam, desta vez acompanhadas de vivas.
Will percebeu que os vivas tinham comeado na seo da
multido em que estavam os aprendizes da Escola de
Guerra. Ele conseguiu ver o rosto sorridente de Horace
liderando o coro.
        O baro pediu silencio com a mo erguida, enco-
lhendo-se como se o movimento causasse dor em suas
costelas fraturadas e nos cortes suturados nas costas. Os
vivas e as palmas morreram lentamente.
        -- Will -- ele disse numa voz que ecoou para os
cantos mais distantes do aposento enorme -- eu lhe devo
a minha vida. No h agradecimentos suficientes para is-
so. Porm tenho o poder de atender a um pedido que uma
vez me fez...
        Will olhou para ele srio.
       -- Um pedido, senhor? -- ele perguntou bastante
atordoado com as palavras do baro.
       -- Eu cometi um erro, Will. Voc me perguntou se
poderia aprender a ser um guerreiro. Voc desejava se
tornar um dos meus cavaleiros e eu recusei o pedido. A-
gora, posso consertar esse erro. Eu ficaria honrado de ter
algum to corajoso e habilidoso como um dos meus ca-
valeiros. Ter minha permisso para se transferir para a
Escola de Guerra como um dos aprendizes de sir Rodney.
       O corao de Will saltou em seu peito. Ele pensou
em como, durante toda a vida, havia desejado ser um ca-
valeiro. Ele se lembrou do profundo e amargo desapon-
tamento no dia da Escolha, quando sir Rodney e o baro
tinham recusado o seu pedido.
       Sir Rodney deu um passo  frente, e o baro fez um
gesto para que falasse.
       -- Meu senhor -- disse o mestre de guerra --,
como sabe, fui eu quem recusou este garoto como apren-
diz. Agora, quero que todos aqui saibam que eu estava er-
rado. Eu, meus cavaleiros e meus aprendizes reconhece-
mos que no poderia haver membro mais valioso para a
Escola de Guerra do que Will!
       Os cavaleiros e aprendizes ali reunidos soltaram
fortes gritos de aprovao. Com estrpito, desembainha-
ram as espadas e as bateram ruidosamente acima de suas
cabeas, gritando o nome de Will. Mais uma vez, Horace
foi um dos primeiros a puxar o coro e o ltimo a parar.
       Aos poucos, o tumulto se aquietou e os cavaleiros
guardaram as espadas. A um sinal do baro Arald, dois
pajens se adiantaram, carregando uma espada e um escudo
lindamente esmaltado que foram colocados aos ps de
Will. O escudo tinha sido pintado com o desenho da ca-
bea de um feroz porco selvagem.
       -- Esse ser o seu braso quando se formar, Will
-- disse o baro com delicadeza --, para lembrar ao
mundo a primeira vez em que conhecemos a sua coragem
e lealdade para com um companheiro.
       O garoto apoiou-se em um dos joelhos e tocou a
superfcie lisa e esmaltada do escudo. Ele tirou a espada
lenta e reverentemente da bainha. Era uma arma magnfi-
ca, uma obra-prima da arte da fabricao de espadas.
       A lmina era extremamente afiada e ligeiramente
azulada. O cabo e a cruzeta eram incrustados em ouro, e o
smbolo com a cabea do porco selvagem repetia-se no
punho. A espada parecia ter vida prpria. Perfeitamente
balanceada, era leve como uma pena. Ele olhou para essa
maravilhosa espada adornada com jias e depois para o
cabo de couro de sua faca de arqueiro.
       -- Essas so armas de cavaleiros, Will -- o baro
explicou. -- Mas voc provou repetidas vezes que  digno
delas. Se desejar, elas sero suas.
       Will deslizou a espada de volta na bainha e se le-
vantou devagar. Ali estava tudo o que sempre desejou. E,
mesmo assim...
        Ele pensou nos longos dias na floresta com Halt. A
enorme satisfao que sentiu quando uma de suas flechas
atingiu o alvo, exatamente onde desejara, exatamente co-
mo tinha visto em pensamento antes de solt-la. Ele pen-
sou nas horas gastas aprendendo a seguir animais e ho-
mens. Aprendendo a arte de se esconder. Pensou em Pu-
xo, na coragem e devoo do pnei.
        E pensou no puro prazer que sentia quando ouvia
o simples "bem-feito" de Halt quando completava uma
tarefa a contento. E, de repente, tudo ficou claro. Ele o-
lhou para o baro e disse com voz firme: -- Sou um ar-
queiro, senhor. Houve um murmrio de surpresa entre a
multido. -- Voc tem certeza, Will? -- o baro pergun-
tou em voz baixa, chegando mais perto. -- No recuse
essa oferta somente por achar que Halt vai ficar ofendido
ou desapontado. Ele insistiu que isso depende de voc e j
concordou em aceitar sua deciso.
        Will balanou a cabea negativamente. Nunca tinha
tido tanta certeza de algo.
        -- Eu agradeo a honra, senhor.
        Ele olhou para o mestre de guerra e viu, para sua
surpresa, que sir Rodney estava sorrindo e mostrando sua
aprovao com a cabea.
        -- E agradea ao mestre de guerra e aos seus cava-
leiros pela oferta generosa, mas sou um arqueiro.
        Ele hesitou.
        -- No quero ofender ningum com isso, senhor
-- ele terminou desajeitado.
       Um enorme sorriso encrespou os traos do baro, e
ele agarrou a mo de Will com fora.
       -- No estou ofendido, Will. De jeito nenhum! A
sua lealdade para com o seu ofcio e seu mestre de ofcio
so uma honra para voc e todos os que o conhecem!
       Ele deu um ltimo aperto firme na mo de Will e a
soltou.
       Will se curvou e se virou para caminhar pelo longo
corredor outra vez. Os vivas recomearam e, desta vez, ele
manteve a cabea erguida enquanto o barulho o envolvia e
ecoava at o teto do Grande Salo. Ento, ao se aproxi-
mar das grandes portas novamente, viu algo que o fez pa-
rar de imediato, perplexo e surpreso.
       Pois ali parado, um pouco afastado da multido,
enrolado na capa cinza e verde, com os olhos ensombre-
cidos pelo capuz, estava Halt.
       E ele estava sorrindo.
Mais tarde, aps todo o barulho e as comemoraes te-
rem diminudo, Will estava sentado sozinho na minscula
varanda da pequena cabana de Halt. Na mo, ele segurava
um pequeno amuleto de bronze no formato de uma folha
de carvalho com uma corrente de ao passada por um elo
no alto.
       --  o nosso smbolo -- seu professor tinha ex-
plicado quando o entregou para ele depois dos aconteci-
mentos no castelo. -- O equivalente ao braso de armas
dos cavaleiros.
       Ento ele procurou no interior da prpria gola e ti-
rou uma folha de carvalho de formato idntico pendurada
numa corrente no pescoo. A forma era parecida, mas a
cor era diferente. A folha de carvalho que Halt usava era
de prata.
       -- Bronze  a cor dos aprendizes -- Halt tinha
contado para ele. -- Quando voc terminar o treinamen-
to, vai receber uma folha de carvalho de prata como esta.
Todos da Corporao dos Arqueiros usam prata ou bron-
ze.
       Ele tinha desviado o olhar do garoto por alguns
minutos.
       -- Para falar a verdade, voc no devia receb-la
at depois de sua primeira avaliao -- ele acrescentou
com a voz um pouco rouca. -- Mas duvido que algum
queira se opor a isso, depois de tudo o que aconteceu.
       Agora, o pedao de metal de formato curioso bri-
lhava fracamente na mo de Will enquanto ele pensava na
deciso que tinha tomado. Parecia muito estranho que ti-
vesse desistido voluntariamente da nica coisa que tinha
esperado quase toda a vida: a oportunidade de frequentar
a Escola de Guerra e assumir uma posio como cavaleiro
no exrcito do Castelo Redmont.
       Ele girou a folha de carvalho de bronze na corrente
em volta do dedo indicador, deixou-a subir pelo dedo e a
soltou com um profundo suspiro. A vida podia ser muito
complicada. Bem no fundo, sentiu que tinha tomado a de-
ciso acertada. E, mesmo assim, ainda mais no fundo, ha-
via uma pequena dvida.
       Assustado, percebeu que havia algum parado ao
lado dele. Ao se virar de repente, reconheceu Halt. O ar-
queiro se inclinou e se sentou ao lado do garoto no banco
rstico de pinho na varanda estreita. Diante deles, o sol
baixo do fim de tarde passava pelas folhas verde-claras da
floresta, e a luz parecia danar e girar enquanto a brisa leve
sacudia as folhas.
       -- Um grande dia -- ele disse em voz baixa, e Will
concordou.
        -- E uma grande deciso que voc tomou -- Halt
acrescentou depois de vrios minutos de silncio.
        Desta vez, Will se virou para olhar para seu mestre.
        -- Halt, tomei a deciso certa? -- ele perguntou
finalmente com angstia na voz.
        Halt apoiou os cotovelos nos joelhos e se inclinou
um pouco para a frente, semicerrando os olhos diante da
luz forte que passava pelas folhas.
        -- No que me diz respeito, sim. Escolhi voc como
aprendiz e posso ver todo o potencial que voc tem para
ser um arqueiro. At cheguei a quase gostar da sua pre-
sena e de ficar tropeando em voc -- ele acrescentou
com a leve sugesto de um sorriso. -- Mas meus senti-
mentos e meus desejos no so importantes nesse caso. A
deciso certa para voc se refere ao que voc mais quer.
        -- Sempre quis ser um cavaleiro -- Will contou e
ento percebeu, com certa surpresa, que tinha dito a frase
no passado.
        Mas, mesmo assim, sabia que parte dele ainda que-
ria isso.
        --  claro que  possvel querer duas coisas dife-
rentes ao mesmo tempo -- Halt disse em voz baixa. --
Ento, tudo se torna uma questo de escolha e de saber o
que se quer mais.
        No era a primeira vez que Will tinha a sensao de
que Halt, de alguma forma, havia lido a sua mente.
        -- Se voc no pode resumir tudo num s pensa-
mento, qual  a principal razo pela qual est um pouco
desapontado por ter recusado a oferta do baro? -- Halt
continuou.
        -- Acho que... -- Will disse devagar, pensando na
pergunta. -- Acho que, ao recusar a Escola de Guerra,
estou decepcionando um pouco o meu pai.
        -- O seu pai? -- Halt repetiu surpreso, e Will
concordou.
        -- Ele foi um excelente guerreiro -- ele contou
para o arqueiro. -- Um cavaleiro. Ele morreu em Hack-
man Heath, lutando contra os Wargals. Um heri.
        -- E voc sabe de tudo isso, certo? -- Halt per-
guntou, e Will as sentiu com um gesto.
        Aquele sonho o tinha sustentado durante os longos
e solitrios anos em que nunca soube quem era ou o que
deveria ser. Agora, o sonho tinha se transformado em rea-
lidade.
        -- Ele era um homem de que qualquer filho teria
orgulho -- ele disse finalmente, e Halt concordou.
        -- Isso realmente  verdade.
        Havia algo em sua voz que fez Will hesitar. Halt
no estava somente concordando por educao. Will se
virou para ele depressa, percebendo todas as implicaes
das palavras do arqueiro.
        -- Voc conheceu ele, Halt? Voc conheceu meu
pai?
        Havia uma luz de esperana no olhar do garoto,
que pedia a verdade. O arqueiro assentiu srio.
       -- Sim, conheci. No convivi com ele por muito
tempo, mas acho que poderia dizer que conhecia ele bem.
E voc est certo. Voc pode ter muito orgulho dele.
       -- Ele foi um excelente guerreiro, no foi? -- Will
indagou.
       -- Ele era um soldado -- Halt concordou -- e um
lutador corajoso.
       -- Eu sabia! -- Will disse feliz. -- Ele foi um
grande cavaleiro!
       -- Um sargento -- Halt acrescentou devagar e
com delicadeza. Will ficou boquiaberto e no conseguiu
dizer o que pretendia.
       -- Um sargento? -- ele conseguiu finalmente bal-
buciar. Halt assentiu. Ele pode ver o desapontamento no
olhar do garoto e colocou um brao ao redor de seus om-
bros.
       -- No julgue as qualidades de um homem pela
posio que ele ocupa na vida, Will. O seu pai, Daniel, foi
um soldado leal e corajoso. No teve a oportunidade de
frequentar a Escola de Guerra porque comeou a vida
como fazendeiro. Mas, se tivesse frequentado, teria sido
um dos melhores cavaleiros.
       -- Mas ele... -- o garoto comeou tristemente.
       O arqueiro fez que parasse e continuou na mesma
voz gentil, suave e irresistvel.
       -- Porque, sem ter feito qualquer juramento ou
treinamento especial pelo qual os cavaleiros passam, ele
viveu de acordo com os mais altos ideais da nobreza, bra-
vura e valor. Na verdade, ele morreu alguns dias depois da
batalha em Hackman Heath, enquanto Morgarath e seus
Wargals estavam lutando para voltar ao Desfiladeiro dos
Trs Passos. Um contra-ataque repentino nos pegou de
surpresa, e o seu pai viu um companheiro cercado por
uma tropa de Wargals. O homem estava no cho e a
poucos segundos de ser feito em pedaos quando seu pai
o ajudou.
       A luz nos olhos do garoto recomeou a brilhar.
       -- Verdade? -- Will perguntou baixinho, e Halt
concordou com um gesto de cabea.
       -- Verdade. Ele deixou a segurana da linha de ba-
talha e pulou para a frente, armado apenas com a lana.
Ficou em cima do companheiro ferido e o protegeu dos
Wargals. Matou um deles com a lana e ento outro des-
pedaou a ponta da arma, deixando Daniel somente com
o cabo. Assim, ele o usou como se fosse um varapau e
nocauteou outros dois: esquerda, direita! Foi exatamente
assim!
       Halt agitou a mo para a esquerda e para a direita
para mostrar o que tinha acontecido. Os olhos de Will es-
tavam presos nele agora, vendo a batalha enquanto o ar-
queiro a descrevia.
       -- Ele ficou ferido quando a haste da lana que-
brou em outro ataque. Teria sido suficiente para matar
qualquer homem, mas seu pai simplesmente tirou a espada
de um dos Wargals que tinha matado e derrubou outros
trs, sangrando sem parar de um ferimento profundo que
tinha na lateral do corpo.
        -- Trs deles? -- Will repetiu.
        -- Trs. Ele era rpido como um leopardo. E,
lembre-se, como lanceiro, nunca tinha realmente treinado
com a espada.
        Ele fez uma pausa, recordando aquele dia ocorrido
tanto tempo atrs.
        -- Acho que voc sabe que os Wargals no tm
medo de quase nada. Eles so chamados de Os Indiferen-
tes e, quando comeam uma batalha, quase sempre so
eles que a terminam. Quase sempre. Essa foi uma das
poucas vezes que vi os Wargals com medo. Quando seu
pai deu golpes para todos os lados, ainda parado em cima
do companheiro ferido, eles comearam a recuar. Primei-
ro devagar. Depois correram. Eles simplesmente se vira-
ram e correram. Nunca vi outro homem, fosse cavaleiro
ou poderoso guerreiro, que pudesse fazer os Wargals fu-
girem assustados. Seu pai conseguiu. Ele pode ter sido um
sargento, Will, mas foi o guerreiro mais poderoso que j
tive o privilgio de ver lutando. Ento, quando os Wargals
recuaram, ele se apoiou em um joelho ao lado do homem
que tinha ajudado e, mesmo sabendo que tambm estava
morrendo, ainda tentou proteger ele. Seu pai tinha vrios
ferimentos, mas provavelmente foi o primeiro que matou
ele.
        -- E o amigo dele se salvou? -- Will perguntou em
voz baixa.
       -- O amigo? -- Halt indagou um tanto surpreso.
       -- O homem que ele protegeu -- Will explicou. --
Ele sobreviveu? De alguma forma, ele pensou que teria
sido uma tragdia se o corajoso esforo do pai no tivesse
tido xito.
       -- Eles no eram amigos -- Halt contou. -- At
aquele momento, ele nunca tinha posto os olhos no outro
homem -- ele fez uma pausa e acrescentou -- e vi-
ce-versa.
       O significado daquelas ltimas palavras penetraram
no fundo da mente de Will.
       -- Voc? -- ele sussurrou. -- Voc era o homem
que ele salvou? Halt assentiu com um gesto.
       -- Como eu disse, eu s conheci ele por alguns
minutos, mas ele fez mais por mim do que qualquer outro
homem, antes ou depois disso. Enquanto morria, ele me
falou da mulher e de como ela estava na fazenda sozinha
com um beb para nascer a qualquer momento. Ele me
implorou para ver se estavam cuidando dela.
       Will olhou para o rosto srio e barbado que tinha
passado a conhecer to bem. Havia uma profunda tristeza
nos olhos de Halt ao se lembrar daquele dia.
       -- Cheguei tarde demais para salvar sua me. Foi
um parto difcil, e ela morreu logo depois que voc nas-
ceu. Mas eu trouxe voc para c, e o baro Arald concor-
dou que voc deveria ser criado como protegido do cas-
telo at ter idade suficiente para se tornar meu aprendiz.
       -- Mas, durante todos esses anos, voc nunca... --
Will parou sem palavras.
       Halt sorriu tristemente para ele.
       -- Nunca deixei ningum saber que tinha colocado
voc no castelo como protegido? No. Pense nisso, Will.
As pessoas so... esquisitas quando se trata dos arqueiros.
Como elas teriam tratado voc? Ficariam perguntando que
tipo de criatura estranha voc era? Decidimos que seria
melhor que ningum soubesse do meu interesse em voc.
       Will concordou. Naturalmente, Halt tinha razo. A
vida como protegido j tinha sido bastante difcil. Teria
sido pior se as pessoas soubessem que ele tinha alguma
ligao com Halt.
       -- Ento voc me aceitou como aprendiz por cau-
sa do meu pai? -- Will quis saber.
       Mas desta vez Halt balanou a cabea negativa-
mente.
       -- No. Garanti que tomassem conta de voc por
causa de seu pai. Escolhi voc porque mostrou ter a capa-
cidade e as habilidades necessrias. E voc tambm parece
ter herdado a coragem de seu pai.
       Houve um longo silencio entre eles enquanto Will
assimilava a histria da incrvel batalha do pai. De alguma
forma, a verdade era mais sensacional, mais inspiradora do
que qualquer fantasia que ele pudesse ter criado ao longo
dos anos. Por fim, Halt se levantou para se afastar, e o
garoto sorriu agradecido para a figura grisalha, agora uma
silhueta contra o cu, enquanto a ltima luz do dia desa-
parecia.
        -- Acho que meu pai ficaria satisfeito com a minha
escolha -- ele afirmou, deslizando a corrente com a folha
de carvalho de bronze sobre a cabea.
        Halt simplesmente acenou uma vez com a cabea,
virou-se e entrou na cabana, deixando o aprendiz com
seus pensamentos.
        Will ficou sentado em silncio por alguns minutos.
Quase sem pensar, tocou a folha de carvalho de bronze
que pendia do seu pescoo. Os sons do ptio de exerc-
cios da Escola de Guerra e o ininterrupto martelar e es-
trpito da oficina de armas que vinha funcionando dia e
noite durante a ltima semana chegavam at ele, carrega-
dos pela brisa da noite. Eram os sons do Castelo Redmont
se preparando para a guerra.
        Porm, estranhamente, pela primeira vez na vida,
ele se sentiu em paz.
John Flanagan comeou sua vida profissional em publi-
cidade. Em seguida, tornou-se escritor e editor de textos
freelancer. Ele criou jingles para comerciais, folhetos e v-
deos corporativos, alm de comdias e dramas televisivos.
       John escreveu o primeiro livro da srie Rangers --
Ordem dos Arqueiros para estimular seu filho de 12 anos a
apreciar a leitura. Michael era um garoto pequeno, e todos
os amigos dele eram maiores e mais fortes do que ele.
John queria mostrar para ele que ler era divertido e que
heris no eram necessariamente grandes e musculosos.
Agora, com 20 e poucos anos, Michael tem 1,80 m, om-
bros largos e  forte, mas ainda adora Rangers -- Ordem dos
Arqueiros.




                   Digitalizao: Lene
                     Reviso: Yuna
